Sermão 3
— “Perseverar juntos: aproximar, segurar firme, considerar”
Texto: Hebreus 10:19–39 (com apoio
em Hb 12:1–17)
Introdução
Abramos a Palavra de Deus em Hebreus 10.19–39.
No primeiro sermão, ouvimos o alarme contra a
deriva.
No segundo, vimos que nossa esperança está
ancorada em Cristo.
Agora, o texto mostra como a perseverança
acontece na prática.
Perseveramos nos aproximando de Deus por meio
de Cristo e cuidando uns dos outros como igreja.
Leia Hebreus 10.19–39.
Oremos.
Senhor Jesus, tu abriste para nós um novo e
vivo caminho por meio do teu sangue. Leva-nos a entrar com fé e a perseverar em
amor e santidade. Livra-nos do isolamento, do pecado e do autoengano. Sustenta
tua igreja pelo Espírito Santo. Amém.
O texto começa com um “portanto”.
Depois de expor a suficiência do sacrifício de
Cristo, o autor mostra como essa verdade transforma nossa vida.
Ele começa pelo que já recebemos:
“Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar
no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus [...] e tendo grande sacerdote sobre
a casa de Deus...”
Antes de nos dizer o que devemos fazer, o
texto nos lembra do que Cristo fez.
Temos acesso a Deus.
Temos um grande Sacerdote.
Temos um caminho aberto pelo sangue de Jesus.
A vida cristã não começa com nossa tentativa
de subir até Deus.
Começa com Cristo abrindo o caminho para nós.
Ao estudar essa passagem, eu também precisei
lembrar que não fui chamado a perseverar sozinho.
Eu preciso da igreja tanto quanto os irmãos
precisam de mim.
A verdade central desta mensagem é:
Porque Cristo abriu o caminho até Deus, somos
chamados a perseverar juntos, aproximando-nos com fé, retendo a esperança e
cuidando uns dos outros.
1. Aproximemo-nos de Deus por meio de Cristo
O primeiro chamado é:
“Aproximemo-nos com sincero coração, em plena
certeza de fé.”
Não nos aproximamos confiando em nossos
méritos.
Não entramos na presença de Deus porque
conseguimos corrigir todos os nossos erros.
Nós nos aproximamos pelo sangue de Jesus.
Cristo ofereceu um sacrifício perfeito e
definitivo. Ele morreu, ressuscitou e entrou na presença do Pai como nosso
grande Sacerdote.
Por isso, o caminho está aberto.
Aproximar-se de Deus fala de culto, oração,
confiança e vida em sua presença.
Perseverar não é apenas conservar uma doutrina
correta na memória. É continuar vivendo em comunhão com Deus.
Há pessoas que se afastam dos meios de graça
porque sentem vergonha de seus pecados.
Pensam:
“Primeiro preciso melhorar. Depois voltarei a
Deus.”
Mas o evangelho nos ensina outra coisa.
Não nos aproximamos porque já estamos limpos
em nós mesmos. Aproximamo-nos porque Cristo nos purifica.
Se você caiu e está arrependido, não fuja do
Salvador.
Corra para Ele.
Confesse seu pecado.
Descanse em seu sacrifício.
Peça ao Espírito Santo que renove sua fé e
produza em você uma vida de obediência.
O acesso aberto pelo sangue de Cristo não
torna o pecado pequeno.
Mostra como ele é sério e como a graça é
preciosa.
2. Retenhamos firme a confissão da esperança
O segundo chamado é:
“Guardemos firme a confissão da esperança, sem
vacilar, pois quem fez a promessa é fiel.”
A fé cristã possui conteúdo.
Nós confessamos que Jesus é o Filho de Deus.
Confessamos que morreu por nossos pecados.
Confessamos que ressuscitou.
Confessamos que reina e voltará.
Nossa esperança não é um pensamento positivo.
Está firmada na promessa do Deus que não mente.
O texto não diz que devemos reter firme porque
somos naturalmente fortes.
Diz:
“Pois quem fez a promessa é fiel.”
Nossa perseverança depende da fidelidade de
Deus.
Isso não elimina nossa responsabilidade. Somos
chamados a reter a confissão.
Mas fazemos isso confiando naquele que
prometeu.
Haverá momentos de pressão.
Alguns enfrentarão perseguição.
Outros sofrerão perdas.
Muitos passarão por cansaço, dúvidas e
tentações.
Nessas horas, o coração pode procurar alívio
longe de Cristo.
Hebreus nos chama a permanecer.
O Cristo que abriu o caminho continua sendo
suficiente.
O mesmo Espírito que nos levou a confessar
Jesus também fortalece nossa fé para continuar nessa confissão.
3. Consideremo-nos uns aos outros
O terceiro chamado muda nossa atenção para a
comunidade:
“Consideremo-nos também uns aos outros, para
nos estimularmos ao amor e às boas obras.”
Perseverança não é um projeto individual.
Precisamos considerar uns aos outros.
Isso significa prestar atenção.
Significa perceber quando um irmão está
cansado, isolado ou começando a se afastar.
Não basta ocupar o mesmo prédio uma vez por
semana.
Precisamos conhecer e cuidar uns dos outros.
O autor acrescenta:
“Não deixemos de congregar-nos, como é costume
de alguns; antes, façamos admoestações.”
Quando alguém começa a se isolar, pode estar
entrando em uma região perigosa.
A igreja não salva. Cristo salva.
Mas Cristo reúne seu povo e usa a comunhão, a
Palavra, a oração e as ordenanças para alimentar e preservar sua igreja.
A Confissão Batista de 1689 nos lembra que a
reunião pública dos santos não deve ser negligenciada.
Isso não é simples obrigação institucional.
É parte do cuidado de Deus por nós.
Eu preciso de irmãos que orem comigo.
Preciso de pessoas que percebam quando estou
me afastando.
Preciso ouvir a Palavra ao lado da igreja.
E também fui chamado a cuidar dos outros.
O Espírito Santo produz amor no corpo de
Cristo e usa nossa presença, nossas palavras e nossas orações para fortalecer
os irmãos.
4. Recebamos a advertência contra a apostasia
Depois dos convites, o texto apresenta uma
advertência solene:
“Porque, se vivermos deliberadamente em
pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta
sacrifício pelos pecados.”
Precisamos compreender essa advertência com
cuidado.
O autor não está dizendo que qualquer pecado
cometido conscientemente coloca o crente arrependido fora do alcance da graça.
Se fosse assim, nenhum de nós teria esperança.
Ele está descrevendo uma postura persistente
de rebelião que despreza Cristo, profana o sangue da aliança e insulta o
Espírito da graça.
Não é o tropeço de quem cai e chora.
É o endurecimento de quem decide rejeitar o
único sacrifício capaz de salvar.
Não existe outro Salvador.
Se alguém rejeita deliberadamente a Cristo,
não resta outro sacrifício ao qual possa recorrer.
Essa advertência é pesada porque a apostasia é
mortal.
Mas ela também é misericordiosa.
Deus nos adverte antes do abismo.
Se você está justificando um pecado,
escondendo-se da comunhão e endurecendo o coração, não despreze este alerta.
Arrependa-se.
Procure ajuda.
Traga o pecado à luz.
Volte-se para Cristo.
A advertência não foi dada para afastar o
pecador arrependido. Foi dada para despertar quem está começando a tratar
Cristo com desprezo.
5. Lembremo-nos e continuemos firmes
Hebreus não termina na advertência.
O autor diz:
“Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores.”
Aqueles irmãos já haviam suportado afrontas,
perseguições, prisões e perda de bens.
Eles permaneceram porque sabiam que possuíam
uma herança superior e permanente.
Agora, cansados, precisavam se lembrar.
Muitas vezes, perseverar também envolve
recordar.
Precisamos nos lembrar do que Deus já fez.
Da graça que nos alcançou.
Das orações que respondeu.
Da comunhão que nos sustentou.
Acima de tudo, precisamos nos lembrar de
Cristo e daquilo que Ele realizou.
Então o autor declara:
“Não abandoneis, portanto, a vossa confiança;
ela tem grande galardão.”
O Senhor não se esquece daqueles que sofrem
por seu nome.
Ele mesmo sustenta sua perseverança e cumprirá
tudo o que prometeu.
Por fim, lemos:
“Nós, porém, não somos dos que retrocedem para
a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma.”
Essa declaração não é licença para relaxar.
É uma identidade que nos chama a continuar.
Não perseveramos para nos tornar povo de
Cristo.
Perseveramos porque, pela graça, pertencemos a
Ele.
Aplicações finais
Primeiro, se estamos nos isolando, precisamos
ouvir a advertência.
Voltemos para o povo de Deus.
Não porque pertencer à igreja seja mera
burocracia, mas porque Deus usa a comunhão para cuidar de nós.
Segundo, se estamos fazendo as pazes com algum
pecado, recebamos o alerta como misericórdia.
Não esperemos o coração ficar mais duro.
Confessemos hoje.
Procuremos ajuda.
Terceiro, se estamos sofrendo perdas,
perseguição ou cansaço, lembremo-nos da fidelidade de Deus.
O caminho permanece aberto pelo sangue de
Cristo.
O Sacerdote continua intercedendo.
O Espírito continua sustentando a igreja.
Conclusão
Encerramos esta série com três verdades.
A deriva é real. Por isso, precisamos prestar
atenção.
Nossa esperança é segura. Ela está ancorada em
Cristo.
E a perseverança é vivida em comunidade. Nós
nos aproximamos de Deus e cuidamos uns dos outros.
Há esperança para o cansado.
Há perdão para quem caiu e se arrepende.
Há advertência para quem está endurecendo.
Mas toda nossa esperança está em Cristo.
Ele abriu o caminho por seu sangue.
Ressuscitou.
Entrou na presença do Pai.
Intercede por nós.
Deu-nos seu Espírito.
Reuniu-nos como igreja.
E prometeu voltar.
Que Deus nos faça aproximar com fé, reter
firme nossa esperança e considerar uns aos outros.
Que Ele opere em nós o que lhe é agradável e
nos preserve em Cristo até o fim.
Amém.
Soli Deo Gloria!
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa