sábado, 28 de março de 2026

Quebre o vaso: Desperdício ou Adoração?

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

há cenas na Bíblia que parecem simples à primeira vista, mas quando você entra nelas, percebe que carregam um peso espiritual enorme. Mateus 26.6–13 é uma dessas cenas.

Imagine o ambiente. Uma casa em Betânia. Pessoas reunidas para uma refeição. Conversas acontecendo, talvez risos, talvez discussões comuns. Jesus está ali, reclinado à mesa. Tudo parece normal. Nada indica que aquele momento entraria para a história.

Então, de repente, uma mulher entra.

Ela não faz anúncio. Não pede licença. Não tenta explicar nada. Mas há algo na forma como ela se move que chama atenção. Ela carrega nas mãos um vaso de alabastro. Pequeno, delicado, mas extremamente valioso. Não é um objeto qualquer. É algo precioso, caro, talvez o bem mais valioso que ela possui.

E então, sem hesitar, ela faz algo inesperado.

Ela quebra o vaso.

O som seco interrompe o ambiente. As conversas param. Todos olham. E antes que alguém consiga reagir, o perfume começa a se espalhar pelo ar. Forte. Marcante. Inconfundível.

Ela não economiza. Não mede. Não calcula.

Ela derrama tudo sobre Jesus.

Tudo.

Nada fica guardado. Nada é reservado para depois. Nada é protegido.

E naquele momento, o cheiro do perfume enche toda a casa, mas junto com ele vem outra coisa — tensão.

Porque o que para ela era um ato de amor, para outros parecia um erro grave.

Os discípulos olham aquela cena e não conseguem enxergar beleza. Eles enxergam desperdício. A indignação cresce, e a pergunta surge, carregada de julgamento:

“Para que este desperdício?”

A palavra é forte. Desperdício. Aquilo, na visão deles, foi um uso irresponsável de algo valioso. Eles começam a fazer contas. O valor do perfume. O que poderia ter sido feito com aquele dinheiro. Quantas pessoas poderiam ter sido ajudadas. Tudo parece lógico, sensato, até piedoso.

Mas completamente desconectado do que realmente estava acontecendo.

Porque naquela sala havia duas formas de enxergar a mesma atitude.

Para alguns, era perda. Para Jesus, era adoração.

E é exatamente aqui que o texto começa a confrontar o nosso coração.

Porque, se formos honestos, muitas vezes pensamos como os discípulos.

Nós gostamos de uma fé equilibrada, controlada, calculada. Queremos servir a Deus, mas sem exageros. Queremos adorar, mas sem “desperdiçar” demais. Queremos seguir Jesus, mas sem abrir mão daquilo que consideramos essencial.

Aquela mulher, porém, não pensa assim.

Ela não traz o que sobra. Ela não oferece algo comum. Ela entrega o que tem de mais valioso. E não apenas entrega — ela quebra o vaso. Isso significa que não há volta. Não há como recuperar. Não há como dividir. É uma entrega total.

É como se, em um único gesto, ela dissesse: “Ele vale mais do que tudo o que eu tenho.”

E isso incomoda.

Porque a verdadeira adoração sempre confronta a lógica humana.

Enquanto o mundo mede valor por utilidade, Deus mede valor por devoção. Enquanto as pessoas perguntam “quanto isso rende?”, Deus olha e pergunta “quanto isso revela de amor?”.

Os discípulos tinham um argumento bonito. Falaram dos pobres. Falaram de ajudar os necessitados. Mas Jesus não se impressiona com o discurso. Ele olha além da superfície e vê o coração.

E então Ele intervém.

“Por que vocês estão incomodando esta mulher?”

É como se Ele estivesse dizendo: “Vocês não entenderam o que está acontecendo aqui.”

Ele chama aquele ato de “boa obra”. Aquilo que foi chamado de desperdício, Ele chama de algo belo, correto, apropriado.

E mais do que isso, Ele revela algo que ninguém ali havia percebido plenamente.

“Ao derramar este perfume sobre o meu corpo, ela o fez para o meu sepultamento.”

De repente, aquela cena ganha um significado muito mais profundo.

Ela não estava apenas expressando amor. Ela estava, sem saber completamente, participando do plano redentor de Deus.

Enquanto os líderes religiosos tramavam a morte de Jesus, enquanto Judas já caminhava para traí-lo, enquanto a cruz se aproximava rapidamente, aquela mulher realiza um ato que aponta diretamente para esse momento.

Ela unge o corpo daquele que morreria poucos dias depois.

Ela não entende tudo. Mas seu coração está tão alinhado com Jesus que suas ações se encaixam perfeitamente no plano de Deus.

E isso é impressionante.

Porque mostra que a verdadeira adoração conecta você a algo muito maior do que você consegue compreender.

Ela apenas amou. Apenas entregou. Apenas derramou. Mas Deus transformou aquele ato em algo eterno.

E então vem uma das declarações mais surpreendentes de Jesus:

“Em verdade vos digo que, onde for pregado este evangelho, será contado também o que ela fez, para memória sua.”

Em outras palavras, o que parecia um momento pequeno, escondido dentro de uma casa em Betânia, se tornaria parte da mensagem que atravessaria séculos.

O mundo costuma valorizar o que é preservado, acumulado, guardado. Mas Jesus diz que aquilo que é derramado por amor a Ele nunca é perdido.

E aqui está o ponto onde esse texto deixa de ser apenas uma história e se torna um espelho.

Porque, no fundo, a pergunta não é sobre aquela mulher.

É sobre nós.

O que ainda estamos segurando?

Que “vaso” ainda não foi quebrado?

Talvez seja o controle da sua vida. Talvez seja sua segurança financeira. Talvez sejam seus planos. Talvez seja sua reputação. Talvez seja algo que Deus já tocou no seu coração, mas você continua segurando, fazendo contas, avaliando riscos, tentando decidir se vale a pena.

E, no fundo, a pergunta que ecoa dentro de você é a mesma dos discípulos:

“Não é desperdício?”

Mas esse texto responde com clareza.

O que é derramado aos pés de Cristo nunca é desperdício.

Pode parecer exagero para alguns. Pode parecer imprudente. Pode até ser criticado por outros. Mas, aos olhos de Jesus, é precioso.

Porque adoração verdadeira não é sobre o que sobra. É sobre o que custa.

E tudo aquilo que é entregue por amor a Cristo ganha um valor que ultrapassa o tempo.

O vaso foi quebrado. O perfume foi derramado. E o que parecia perda se tornou memória eterna.

O mundo esquece o que você guarda. Mas Deus eterniza o que você entrega.

Talvez hoje seja o dia de parar de calcular… e começar a derramar.

Não por obrigação. Não por pressão. Mas porque você reconhece quem Ele é.

E quando isso acontece, você descobre algo que só quem já quebrou o vaso entende:

Nada do que é entregue a Cristo é perdido.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

sexta-feira, 27 de março de 2026

A esperança tem um nome - e a morte não pôde detê-lo.

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

há dias em que tudo parece frágil demais, não é? A esperança parece distante, como se fosse apenas uma ideia bonita — algo que lemos, cantamos, mas que não conseguimos segurar com firmeza quando a dor aperta. O coração oscila, as notícias pesam, e a alma sussurra: “Será que ainda há esperança para mim?”

Mas a Palavra de Deus nos convida a olhar para além das circunstâncias e enxergar algo — ou melhor, Alguém — muito mais sólido. A esperança, na Bíblia, nunca foi um conceito abstrato. Ela tem rosto, tem história, tem nome.

O apóstolo Paulo diz em 1 Coríntios 15.20: “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem.” Percebe? A esperança cristã não está apoiada no que pode dar certo na nossa vida, mas no que já aconteceu na história: Cristo venceu a morte.

Vamos pensar juntos?

Naquela manhã de domingo, quando o túmulo foi encontrado vazio, não foi apenas um milagre isolado. Foi o início de uma nova realidade. A morte, que parecia invencível, encontrou seu limite. Ela fez o que sempre fez: tomou um corpo, silenciou uma voz, selou uma pedra. Mas, diante de Jesus, ela não pôde ir até o fim.

A morte não conseguiu detê-lo.

E isso muda tudo.

Porque, se a nossa esperança estivesse em nós — na nossa força, na nossa constância, na nossa fé perfeita — ela já teria morrido há muito tempo. Somos instáveis, falhos, facilmente abalados. Mas a esperança que temos não nasce de nós; ela nos foi dada em Cristo. Como a própria teologia bíblica nos lembra, toda a Escritura aponta para esse centro: Deus cumprindo suas promessas em Jesus, o Messias prometido .

Ele vive.

E, porque Ele vive, a nossa história não termina na dor, no fracasso ou no túmulo.

Talvez hoje você esteja lidando com perdas, pecados que te acusam, ou um futuro que parece incerto demais. E, nesses momentos, a esperança pode parecer mais um sussurro do que uma certeza. Mas o evangelho nos chama a fazer um movimento de fé: tirar os olhos do que sentimos e fixá-los no que Cristo já fez.

A cruz declara que o pecado foi pago.
O túmulo vazio declara que a morte foi vencida.
E a ressurreição proclama que há vida — verdadeira, eterna, segura — para todos os que estão em Cristo.

A esperança tem um nome: Jesus.

E não é um nome frágil, que depende das circunstâncias para permanecer de pé. É um nome que atravessou a morte e saiu do outro lado em vitória. Como Ele mesmo disse: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11.25).

Que hoje, mesmo em meio às suas lutas, o Espírito Santo traga essa verdade de volta ao seu coração: a morte não teve a última palavra. Cristo teve. E, nele, você está guardado.

Descanse nisso. Creia nisso. E, ainda que com passos pequenos, caminhe sustentado por essa esperança viva.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

“Tal é a geração dos que o procuram, dos que procuram a face do Deus de Jacó.” (*Salmo 24:6*)

Bem-vindos! 🖐️

Hoje eu quero convidar vocês a olhar com calma para algo que parece simples, mas que revela muito sobre a nossa vida com Deus. Não é sobre o que fazemos, é sobre o que estamos realmente buscando. Vamos caminhar juntos?

“Tal é a geração dos que o procuram, dos que procuram a face do Deus de Jacó.” (*Salmo 24:6*)

Agora, vamos pensar juntos. Vivemos em um tempo curioso. Nunca foi tão fácil ter acesso às coisas de Deus - cultos, mensagens, vídeos, louvores... tudo está ao alcance de um clique. No entanto, ao mesmo tempo, nunca foi tão comum encontrar corações vazios. Pessoas envolvidas, mas não transformadas. Presentes, mas não conectadas.

Existe uma diferença profunda entre estar perto das coisas de Deus e estar perto do próprio Deus. O Salmo nos chama atenção, pois não descreve uma geração ocupada, religiosa ou informada. Descreve uma geração com uma marca única: eles procuram a Deus.

 

Agora, vamos fazer uma pergunta: o que significa, de verdade, procurar a Deus? Procurar a Deus não é algo que acontece por acaso, não é automático, não é quando sobra tempo. Procurar envolve intenção. É como alguém que perdeu algo precioso e não consegue descansar até encontrar. Existe foco, prioridade e desejo real. Deus deixa de ser um detalhe e passa a ser o centro.

O texto vai ainda mais fundo, pois não diz apenas que essa geração procura a Deus, mas que eles procuram a face do Deus de Jacó. Procurar a face não é buscar o que Deus pode dar, é buscar quem Deus é. Não é bênção, é presença. Não é provisão, é relacionamento.

Muita gente hoje busca a mão de Deus, mas não a face. Busca resposta, busca ajuda, busca alívio. Mas não busca comunhão. Quer os benefícios da fé, mas não a profundidade do relacionamento. O Salmo está dizendo que existe um nível mais profundo, uma busca que não se satisfaz com o que Deus faz, porque deseja o próprio Deus.

Agora, olha que detalhe lindo: “o Deus de Jacó”. Jacó não era perfeito, era falho, confuso e em processo. Mas foi encontrado por Deus e transformado por Ele. Percebe o que isso significa? Essa busca não é para gente pronta, é para gente sincera. Não é para quem já resolveu tudo, mas para quem decidiu voltar o coração para Deus.

Talvez a pergunta mais importante não seja: “o que eu tenho feito para Deus?”, mas “eu tenho realmente procurado a Deus?”. Pense nisso com honestidade. Sua vida espiritual tem sido relacionamento ou rotina? Suas orações têm sido encontro ou lista? Seu tempo com Deus tem sido presença ou obrigação?

A geração do Salmo 24 não é marcada por aparência, é marcada por fome. Não é definida por atividade, é definida por desejo. É uma geração que não se contenta com superfície, porque descobriu que existe profundidade.

Nós só podemos procurar a Deus porque Ele primeiro se revelou. O caminho não foi aberto por nós, foi aberto em Cristo. É por isso que essa busca não é esforço vazio, é resposta. Resposta a um Deus que já veio ao nosso encontro.

Talvez hoje seja um bom dia para ajustar o coração. Não para fazer mais coisas, mas para buscar melhor. Com mais verdade, com mais profundidade, com mais entrega. Porque, no final das contas, a pergunta não é quantas coisas você fez para Deus, é se, no meio de tudo isso, você realmente O procurou. E essa é a marca da geração que pertence a Ele.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026

quinta-feira, 26 de março de 2026

Sem Mim, Nada Podeis Fazer

Bem-vindos! 🖐️

Hoje eu quero te convidar a desacelerar por alguns minutos… e olhar com calma para uma das declarações mais diretas — e, ao mesmo tempo, mais profundas — que Jesus já fez.

“Eu sou a videira, vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (João 15:5)

Agora… imagina a cena comigo.

É noite. A Páscoa acabou de acontecer. Judas já saiu. A cruz está a poucas horas de distância. O clima é denso… cada palavra de Jesus carrega um peso diferente — como se o tempo tivesse ficado mais curto e tudo precisasse ser dito com mais precisão.

E é justamente nesse momento que Jesus fala de uma videira.

Percebe?

Ele não escolhe uma imagem de força, nem de estratégia, nem de resistência. Ele escolhe uma imagem de vida. De conexão. De algo silencioso… contínuo… essencial.

E essa imagem não é aleatória.

No Antigo Testamento, a videira era Israel — o povo plantado por Deus, chamado a dar fruto, mas que tantas vezes produziu frutos amargos. E agora Jesus diz: “Eu sou a videira verdadeira.”

É como se Ele estivesse dizendo: “Aquilo que o povo não conseguiu ser… Eu sou.”

Então tudo se organiza ao redor disso: o Pai é o agricultor, Jesus é a videira, e nós somos os ramos. E no centro dessa relação existe uma palavra que pulsa o tempo inteiro — como um batimento cardíaco dentro do texto: menō — permanecer.

E aí Jesus chega ao ponto central. Sem rodeios. Sem suavizar.

“Sem mim… nada podeis fazer.”

Não é pouco. Não é menos. Não é com dificuldade.

É nada.

E aqui, se a gente for honesto, existe um confronto.

Porque há uma ilusão muito comum — e muito antiga — de que conseguimos produzir algo espiritual por conta própria. Que, com disciplina, esforço ou emoção suficiente, conseguimos gerar fruto.

Mas Jesus não deixa espaço para isso.

O problema não é intensidade. É origem.

Um ramo, separado da videira, não é uma planta independente. É só madeira. Não tem vida em si mesmo. Não tem seiva. Não tem fruto.

Mas conectado à videira… tudo muda.

E olha que coisa interessante: a diferença entre o nada e o muito não está no ramo — está na conexão.

E aqui está o coração do texto.

Esse “sem mim nada podeis fazer” não é uma sentença para te esmagar. É um convite.

Jesus não está declarando a sua incapacidade para te paralisar — Ele está mostrando onde a vida está.

Porque, junto com essa afirmação, existe um chamado silencioso que percorre todo o texto:

Permanecei em mim.

E permanecer… não é um momento.

É um modo de viver.

Não é só aquele tempo de culto, nem uma experiência emocional forte, nem um dia espiritual diferente. Permanecer tem textura de cotidiano. É a Palavra aberta quando ninguém está vendo. É uma oração honesta no meio do dia. É uma decisão de obedecer quando seria mais fácil seguir outro caminho.

Percebe?

Não é evento. É permanência.

E aqui entra um outro ajuste importante: permanecer não é passividade.

O ramo que permanece… produz.

Mas a ordem não pode ser invertida.

O fruto não vem antes da conexão. O fruto é consequência dela.

A gente não permanece para produzir. A gente produz porque permanece.

Agora deixa eu te fazer uma pergunta — e responde com sinceridade:

Você está permanecendo… ou apenas funcionando?

Você está em Cristo… ou apenas perto das coisas de Cristo?

Porque é possível fazer muita coisa “pra Deus”… e ainda assim estar desconectado da vida que vem dEle.

Hoje, antes de olhar para os frutos, olhe para a raiz.

Olhe para a conexão.

Talvez exista alguma área da sua vida onde você está tentando sustentar tudo sozinho — um relacionamento, uma responsabilidade, um ministério, uma disciplina espiritual que perdeu o sentido.

Traz isso de volta para a Videira.

Sem esforço performático. Sem tentar provar nada.

Só permanecendo.

Só voltando.

Só ficando.

E descansa nisso: aquilo que Ele pede… Ele mesmo sustenta.

Oremos:

Senhor Jesus, Videira verdadeira, perdoa-me pelos dias em que tentei viver por conta própria — fazendo muito, mas longe de Ti. Eu não quero apenas acertar nas coisas; eu quero permanecer em Ti. Aprofunda essa conexão. Faz a Tua vida fluir em mim. Que o meu permanecer não seja um peso religioso, mas uma resposta de amor. E que todo fruto que nascer — em silêncio ou diante dos olhos de outros — seja Teu, para a glória do Pai. Em Teu nome, Jesus. Amém.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

quinta-feira, 19 de março de 2026

O Fim do Boato Espiritual: Quando os Olhos Veem a Deus (Reflexão sobre Jó 42:5)

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

há dias em que a nossa fé parece firme… mas, se formos honestos, ela ainda se alimenta muito mais do que ouvimos do que daquilo que realmente experimentamos com Deus. Sabemos as respostas certas, repetimos verdades profundas, defendemos doutrinas preciosas — e tudo isso é bom, necessário, bíblico. A fé vem pelo ouvir (Rm 10:17). Mas será que você já percebeu como, às vezes, esse “ouvir” ainda não desceu completamente ao coração?

Jó nos ajuda a enxergar isso com uma clareza quase dolorosa. No fim da sua jornada, depois de perdas, silêncio e perguntas sem resposta, ele declara: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42:5). Percebe o contraste? Não é que Jó não conhecia a Deus antes. Ele conhecia. Era íntegro, temente, zeloso. Mas havia uma distância entre o Deus que ele confessava e o Deus que ele agora contemplava com a alma.

Vamos pensar juntos?

Durante boa parte do livro, Jó está cercado por vozes religiosas que tentam explicar sua dor com fórmulas prontas. Seus amigos defendem uma espécie de “teologia da conta fechada”: se você sofre, errou; se prospera, acertou. É uma fé organizada, lógica, aparentemente coerente… mas incapaz de sustentar um coração quebrado. No fundo, é uma fé que fala muito de Deus, mas não consegue permanecer diante dEle no sofrimento.

E, talvez sem perceber, nós também podemos cair nisso. Podemos conhecer sistemas, conceitos, respostas bem estruturadas — e ainda assim não saber como descansar quando o chão some debaixo dos nossos pés.

Então Deus entra na história.

E quando Ele entra, não traz explicações detalhadas. Não responde todas as perguntas de Jó. Em vez disso, Ele se revela. Do meio do redemoinho (Jó 38), o Senhor mostra Sua grandeza, Sua sabedoria, Seu governo sobre todas as coisas. É como se dissesse: “Jó, você não precisa de todas as respostas. Você precisa de Mim.”

E isso muda tudo.

Porque, no fim, o que sustenta a alma não é entender cada detalhe da providência, mas confiar no Deus que governa cada detalhe. Como aprendemos ao longo de toda a Escritura, Deus não apenas revela verdades sobre Si — Ele se dá a conhecer pessoalmente ao Seu povo .

É ali que Jó se cala. Aquele homem que antes argumentava agora coloca a mão sobre a boca. Não porque foi humilhado por crueldade, mas porque foi alcançado pela glória. E, nesse encontro, nasce uma nova visão: “agora os meus olhos te veem”.

Não são olhos físicos. São olhos do coração.

E aqui está algo precioso: muitas vezes, é no vale — e não no conforto — que essa visão se torna mais nítida. A dor, nas mãos de Deus, não é um fim em si mesma. Ela é instrumento. Ela desmonta nossa autossuficiência, expõe nossos ídolos silenciosos e nos conduz a um lugar onde só Deus permanece.

E é exatamente aí que o evangelho brilha com mais força.

Porque o que aconteceu com Jó aponta para algo ainda maior. Na cruz, vemos o Justo sofrendo não por seus pecados, mas pelos nossos. Cristo não apenas explicou o sofrimento — Ele entrou nele. “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades” (Is 53:4). Naquele madeiro, a justiça de Deus e o amor de Deus se encontraram, para que pecadores como nós pudessem, enfim, ver a Deus não como Juiz distante, mas como Pai reconciliador.

Percebe a beleza disso?

O caminho que leva do “ouvir falar” ao “ver” passa pela cruz. Passa por perder o controle, por reconhecer nossa limitação, por depender da graça. Não é um caminho confortável, mas é um caminho seguro — porque é guiado pelas mãos do próprio Cristo.

Talvez hoje você se sinta mais no lugar do “ouvi falar”. Sua fé parece correta, mas distante. Ou talvez esteja atravessando um vale onde tudo o que você sabia parece insuficiente.

Se esse é o seu caso, não fuja desse lugar.

É possível que Deus esteja, com amor, conduzindo você para um conhecimento mais profundo dEle. Não apenas um Deus estudado, mas um Deus contemplado. Não apenas um Deus explicado, mas um Deus experimentado na dependência.

Que o Senhor, pela Sua graça, transforme o seu conhecimento em comunhão, e a sua teologia em descanso. E que, mesmo em meio às dores, o Espírito Santo sussurre ao seu coração essa verdade viva: não é apenas sobre ouvir falar de Deus — é sobre vê-Lo, pela fé, em Cristo. E, quando isso acontece, a alma encontra, enfim, um lugar seguro para descansar.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

sexta-feira, 13 de março de 2026

O Privilégio de Ser Avô(ó)

Bem-vindos! 🖐️

Querido leitor,

há momentos na vida que nos fazem parar e perceber a bondade silenciosa de Deus. Um desses momentos acontece quando olhamos para o rosto de um neto.

Naquele instante, não vemos apenas uma criança. Vemos algo maior. Vemos a história da nossa família, as providências de Deus ao longo dos anos e as bênçãos que atravessaram gerações até chegar ali — concentradas naquele pequeno rosto.

E algo muda dentro de nós.

De repente, percebemos que nossos filhos agora são pais. A história continua. Aquilo que um dia recebemos agora está sendo transmitido adiante. É nesse momento que muitos descobrem algo novo sobre si mesmos: deixamos de ser apenas pais e nos tornamos avós.

Essa mudança parece natural, quase inevitável. Mas, para quem crê na providência de Deus, ela é muito mais que um simples estágio da vida. Ser avô ou avó é um privilégio concedido por Deus.


A misericórdia de permanecer

Antes de qualquer outra coisa, ser avô significa algo muito simples: estar vivo para ver a próxima geração.

Isso pode parecer óbvio, mas não é algo pequeno.

Muitas pessoas piedosas nunca chegam a esse momento. Algumas partem antes de ver os netos nascerem. Outras não têm a oportunidade de ver seus filhos estabelecidos com suas próprias famílias.

Mas quando um avô segura um neto no colo, existe ali uma silenciosa misericórdia de Deus. O Senhor nos sustentou até aqui. Ele nos permitiu permanecer o suficiente para testemunhar aquilo que começamos anos atrás florescer numa nova geração.

A Escritura reconhece essa alegria quando diz:

“Coroa dos velhos são os filhos dos filhos.”
(Provérbios 17:6)

Não se trata apenas de orgulho familiar. É o reconhecimento de que Deus permite que alguns vejam o fruto de uma vida inteira se estendendo para além de si mesmos.


Guardiões de uma herança

Mas o privilégio de ser avô não é apenas emocional. Ele também é espiritual.

Na fé cristã, nenhuma relação humana é apenas biológica. Deus sempre trabalha através das gerações.

A Bíblia fala repetidamente sobre isso:

“Uma geração louvará a outra geração as tuas obras.”
(Salmo 145:4)

Isso significa que a fé não é apenas uma experiência individual. Ela também é uma herança espiritual que atravessa o tempo.

Nesse sentido, avós ocupam uma posição especial.

Eles são testemunhas vivas da fidelidade de Deus ao longo dos anos. Enquanto os pais muitas vezes estão ocupados com as urgências da criação dos filhos, os avós frequentemente carregam algo diferente: tempo, perspectiva e memória.

Eles podem olhar para trás e dizer com convicção:

“Eu vi a mão de Deus agir.”

E esse testemunho é poderoso.


A herança da verdade

O mundo em que nossos netos crescerão não será fácil. Cada geração enfrenta desafios próprios, e os nossos netos ouvirão muitas vozes competindo por suas mentes e seus corações.

Por isso, uma das maiores responsabilidades de um avô cristão é transmitir a verdade de Deus.

Não apenas como tradição religiosa, mas como realidade viva.

Os netos precisam ouvir — e ver — que a fé cristã não é apenas uma ideia antiga. Ela é uma verdade que sustenta a vida.

Eles precisam aprender que Cristo não é apenas parte da história da igreja, mas o Senhor vivo que governa todas as coisas.


A herança do caráter

Mas a fé não é transmitida apenas com palavras.

Ela é transmitida com vida.

Seus netos talvez esqueçam muitos conselhos que ouvirão ao longo da infância. Mas dificilmente esquecerão quem você foi diante deles.

Eles observarão como você trata seu cônjuge depois de tantos anos de casamento.

Observarão como você reage às dificuldades.

Observarão se sua fé permanece firme quando o corpo se enfraquece e os anos passam.

Esse testemunho silencioso ensina mais do que muitos discursos.


O ministério da oração

Há ainda outra forma profunda pela qual avós participam da obra de Deus: a oração.

Ao longo da vida, aprendemos que muitas coisas estão além do nosso controle. Não podemos garantir o futuro espiritual dos nossos filhos ou netos.

Mas podemos fazer algo que é profundamente poderoso.

Podemos interceder por eles.

A oração é uma das formas pelas quais Deus nos permite participar daquilo que Ele mesmo está fazendo no mundo.

Quando um avô ora por seus netos, ele está colocando aqueles nomes diante do trono da graça.

E não existe lugar mais seguro para uma vida do que ali.


Uma fé que atravessa gerações

Talvez uma das maiores alegrias da vida cristã seja ver a fidelidade de Deus continuar através das gerações.

A Bíblia nos lembra:

“Bem-aventurado o homem que teme ao Senhor...
Sua descendência será poderosa na terra;
a geração dos retos será abençoada.”
(Salmo 112:1–2)

Isso não significa que cada geração será perfeita. Mas significa que Deus frequentemente usa a fidelidade de uma geração para abençoar as seguintes.

Avós participam dessa história.

Eles são pontes entre o passado e o futuro.


O privilégio de participar da eternidade

Ser avô ou avó não é apenas um detalhe biológico da vida. É uma estação carregada de significado espiritual.

É uma oportunidade de investir naquilo que continuará existindo muito depois que nós partirmos.

Cada palavra de fé, cada oração, cada exemplo de fidelidade pode ecoar muito além do que imaginamos.

Talvez você nunca veja todos os frutos. Mas Deus vê.

E Ele é fiel.

Por isso, se Deus lhe concedeu o privilégio de ser avô ou avó, receba esse momento com gratidão.

Ore por seus netos.

Caminhe diante deles com fidelidade.

Ensine-os a amar a Cristo.

E então confie.

Confie que o Deus que sustentou sua vida até aqui também é capaz de sustentar as gerações que virão.

Porque a história da fé nunca termina em uma única vida. Ela continua — de geração em geração — pela graça de Deus.

“Assim conhecerão os filhos por nascer, e estes se levantarão e o contarão a seus filhos.”
(Salmo 22:30)

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

“Se são gritos vazios, Deus não os ouvirá; o Todo-poderoso não lhes dará atenção.”

Bem-vindos! 🖐️

Uma aplicação pastoral para a vida cristã hoje

A afirmação de Jó 35:13- “Se são gritos vazios, Deus não os ouvirá; o Todo-poderoso não lhes dará atenção.” continua profundamente relevante para a vida espiritual contemporânea. Nesse versículo, Eliú afirma que Deus não atende a “gritos vazios”, uma declaração que nos convida a refletir sobre a natureza da oração e do clamor humano diante de Deus.

Em primeiro lugar, é necessário reconhecer que nem toda oração é verdadeiramente espiritual. Muitas vezes as pessoas oram por hábito religioso, por medo das circunstâncias ou simplesmente como uma tentativa de resolver problemas imediatos. Nesses casos, a oração pode se tornar apenas uma formalidade ou um mecanismo de alívio emocional. Entretanto, a Escritura revela que Deus busca algo muito mais profundo do que pedidos ocasionais: Ele deseja relacionamento. A oração, portanto, não é apenas um instrumento para solicitar intervenções divinas, mas um meio de comunhão com Deus. Jesus expressou essa realidade ao denunciar uma religiosidade superficial, dizendo:

“Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
— Mateus 15:8

Em segundo lugar, a Bíblia ensina que o clamor verdadeiro nasce do coração. Deus responde à sinceridade e à fé genuína. Ao longo das Escrituras encontramos exemplos de pessoas que clamaram de forma autêntica e foram ouvidas. Ana, profundamente aflita, chorou diante de Deus pedindo um filho, e o Senhor ouviu sua oração, conforme relatado em 1 Samuel 1:10-17. De modo semelhante, o cego Bartimeu clamou a Jesus com insistência e fé, e recebeu a cura descrita em Marcos 10:46-52. Esses relatos mostram que Deus não ignora aqueles que clamam com sinceridade.

Em terceiro lugar, o livro de Jó ensina uma verdade pastoral extremamente importante: o silêncio de Deus nem sempre significa rejeição. Há momentos em que Deus ouve, se importa e acompanha o sofrimento humano, mas não responde imediatamente. A ausência de uma resposta visível não indica abandono. Muitas vezes o silêncio divino faz parte de um processo espiritual mais profundo. Ele pode representar um período de crescimento interior, de amadurecimento da fé ou de preparação para aquilo que Deus deseja realizar na vida do crente.

Por fim, o discurso de Eliú também sugere que Deus deseja algo maior do que simplesmente resolver problemas humanos. Eliú critica aqueles que clamam apenas por causa da dor, sem realmente buscar a Deus. O verdadeiro clamor não procura apenas alívio para o sofrimento, mas busca a presença de Deus, a compreensão da sua vontade e um relacionamento mais profundo com Ele. Essa realidade é expressa nas palavras do Senhor registradas em Jeremias 29:13:

“Vocês me buscarão e me acharão quando me buscarem de todo o coração.”

Dessa forma, a reflexão sobre Jó 35:13 nos conduz a algumas verdades espirituais fundamentais. Primeiramente, Deus não responde a orações vazias, isto é, a clamores que não nascem de um coração sincero. Em segundo lugar, Deus responde àqueles que se aproximam dele com fé genuína. Finalmente, mesmo quando Deus parece permanecer em silêncio, Ele continua soberano, presente e atuando de maneiras que muitas vezes ultrapassam a compreensão humana.

Assim, o livro de Jó convida o leitor a desenvolver uma fé mais profunda e madura: uma fé que aprende a confiar em Deus mesmo quando não compreende plenamente o que Ele está fazendo.

Que nossas orações não sejam apenas palavras lançadas ao céu, mas encontros sinceros com Deus, onde o coração se rende, a fé amadurece e a confiança permanece, mesmo quando o silêncio divino ainda nos ensina a esperar.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

domingo, 8 de março de 2026

Vem tu desperta, vem tu que dormes e Cristo te esclarecerá

Bem-vindos! 🖐️

Graça e paz, meus queridos e amados irmãos no Senhor!

Há um cântico antigo, um ressoar maravilhoso da igreja apostólica que o apóstolo Paulo fez questão de registrar sob a inspiração do Espírito na sua carta aos Efésios, capítulo 5, versículo 14: *"Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá."*

Este é um texto que arde no meu peito pastoral. Constantemente, vejo no rebanho do Senhor — e até sondando o meu próprio coração, confesso a vocês — uma inclinação assustadora para a sonolência espiritual. A nossa carne adora o conforto morno do "dormir". Mas prestem muita atenção, meus irmãos: o sono de que Paulo fala aqui não é o descanso justo do trabalhador que deita a cabeça no travesseiro confiando na providência soberana de Deus. Não! É a dormência da letargia. É a apatia enganosa diante do pecado. É correr o risco de estar sentado nos bancos da igreja aos domingos, mas com a mente já anestesiada e o coração capturado pelas fábulas e seduções deste século tenebroso.

Vamos meditar na profundidade destas três divisões que o texto nos apresenta:

1. "Desperta, ó tu que dormes!"

Este é o brado de Deus para nós. É um imperativo ardente, não uma mera sugestão. O Senhor não nos pede para abrir os olhos somente quando acharmos conveniente; Ele nos sacode com a urgência da Sua Palavra! E, alicerçados na nossa herança teológica reformada, sabemos muito bem como isso funciona: o próprio Deus que nos ordena a despertar é Aquele que, pelo Seu Espírito Santo, vivifica a nossa vontade para que possamos abrir os olhos. A pregação fiel do Evangelho e a leitura diária da Bíblia são o "despertador" que o Espírito usa para invadir os quartos escuros da nossa alma acomodada, quebrando o feitiço do mundanismo.

2. "Levanta-te dentre os mortos"

A exortação toma um tom ainda mais agudo. Entregar-se à sonolência espiritual é flertar perigosamente com o cemitério. Paulo está dizendo aos cristãos, a homens e mulheres que já foram regenerados e justificados pelo precioso sangue do Cordeiro: *"Vocês não pertencem mais às sepulturas! Vocês outrora estavam mortos, mas Deus os vivificou (Ef 2:1)! O que fazem ainda prostrados no meio dos mortos?"*

Este é o apelo contínuo à nossa santificação. É um chamado para abandonar as velhas companhias do pecado, o egoísmo silencioso, a pureza negligenciada, o rancor guardado, a fofoca e a mornidão na oração. Deixem os mortos com as suas mortalhas, meus filhos; vistam-se das armaduras da luz!

3. "E Cristo te esclarecerá"

Finalmente, chegamos ao clímax majestoso da graça de Deus neste texto. O Senhor nunca nos dá uma ordem impossível de cumprir sem, ao mesmo tempo, prover o suprimento abundante na pessoa do Seu Filho. O versículo não diz: *"Desperte, levante-se e crie a sua própria luz"*. Não teríamos como! A nossa velha natureza só produz trevas e névoa. O texto nos entrega uma promessa de inércia quebrada pelo amor e pela soberania divina: **Cristo resplandecerá sobre ti!**

É Ele, o bendito Sol da Justiça, que dissipa as trevas da nossa letargia. É a luz de Cristo que nos traz verdadeiro esclarecimento diante das Escrituras e discernimento para a vida prática. Quando, arrependidos, damos aquele passo de nos levantarmos da cama da acomodação espiritual, não nos deparamos com um Deus de cenho franzido, pronto para nos fulminar, mas com a face gloriosa a deslumbrante de Jesus Cristo a nos guiar, perdoar e aquecer o nosso coração frio.

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Portanto, meus queridos irmãos, chega de cochilar e piscar de sono na trincheira! O Inimigo de nossas almas não dorme, e lá fora as trevas estão densas e agressivas.

Corram hoje mesmo para os meios de graça: abram as vossas Bíblias com fome, dobrem os vossos joelhos com fervor genuíno no quarto, e clamem com ousadia para que a luz de Cristo esclareça e purifique cada canto intocável da vida de vocês.

Que o Todo-Poderoso nos desperte a todos, preservando a vitalidade da Sua Igreja, para a glória exclusiva do Seu Santo Nome.

No amor firme, paciente e zeloso de Cristo,

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026

O Retorno Constante: Ancorando o Coração na Graça

Bem-vindos! 🖐️

Graça e paz, amado(a) irmão(ã).

“A minha alma está apegada ao pó; vivifica-me segundo a tua palavra.” — Salmo 119:25

Se formos honestos diante de Deus e de nós mesmos, reconheceremos uma triste realidade sobre a nossa condição peregrina neste mundo: o nosso coração tem uma inclinação natural para o esquecimento. Como ovelhas descritas pelos profetas, somos propensos a nos desviar, a nos distrair com as planícies secas deste século e a perder de vista o frescor dos pastos verdejantes do nosso Bom Pastor. A poeira das ansiedades diárias, os fardos do trabalho e as sutis seduções do pecado frequentemente embaçam a nossa visão espiritual e endurecem a nossa sensibilidade.

É exatamente neste ponto de exaustão e desorientação que a oração do salmista se torna o clamor da nossa própria alma. Ele sente a aspereza do mundo, a fraqueza de sua carne, o peso da transitoriedade da vida, e não busca em si mesmo a força para se erguer. Ele não apela a métodos humanos, mas clama: "Vivifica-me segundo a tua palavra".

A vida cristã autêntica, meu irmão, não é uma linha reta e ininterrupta de triunfos espirituais. Pelo contrário, ela é frequentemente caracterizada por uma dinâmica sagrada e humilde: o retorno contínuo de um coração errante à Palavra de Deus e ao evangelho da graça.

Quando voltamos às Escrituras, não o fazemos como quem abre um manual árido de regras, mas como um viajante sedento que encontra um oásis no deserto. A Palavra é o próprio sopro de Deus, o meio ordenado por Ele pelo qual o Espírito Santo desperta os nossos afetos, confronta os nossos ídolos e realinha os nossos desejos. João Calvino nos ensinou que as Escrituras são como "óculos" através dos quais nossa visão distorcida do mundo é corrigida para que possamos enxergar Deus com clareza. Sem esse retorno diário, nossa visão ofusca-se nas sombras da dúvida e do secularismo; com ele, contemplamos a majestade do Soberano.

Mas para onde esta Palavra maravilhosa nos conduz? Toda a Escritura nos toma pela mão e nos leva, inevitável e graciosamente, de volta à cruz — ao evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo.

Existe um mito perigoso e sutil de que o evangelho é apenas a "porta de entrada" para a vida cristã e de que, uma vez lá dentro, precisamos avançar para assuntos mais profundos ou técnicas de moralidade. Não se engane: não há nada mais profundo do que a graça de Deus revelada em Cristo! Nós nunca nos graduamos na escola da graça; nunca deixamos de ser pecadores necessitados do nosso Salvador. Como costumava insistir o amado Charles Spurgeon, nós devemos habitar sempre na vizinhança do Calvário.

Quando o nosso coração volta continuamente ao evangelho, o orgulho é esmagado, pois somos lembrados de que não trouxemos nada para a nossa salvação a não ser o pecado que a tornou necessária. Ao mesmo tempo, o desespero é prontamente afugentado, pois somos assegurados de que a justiça perfeita de Cristo nos cobre por inteiro. É a multiforme graça de Deus que nos disciplina (Tito 2:11-12), que derrete as nossas afeições congeladas e que nos constrange à obediência genuína — não pelo medo servil da condenação, mas transbordante de gratidão filial.

As madrugadas em oração silenciosa, a leitura da Bíblia na mesa da cozinha antes de a casa acordar, as devoções em família e a escuta atenta à pregação fiel no Dia do Senhor — todos esses são meios ordinários e preciosos pelos quais essa obra de "retorno" acontece. O Cristianismo floresce grandemente na rotina fiel.

Portanto, não se desanime quando perceber o seu coração frio ou apegado ao pó. Use essa mesma dolorosa percepção como um sinal de alerta do Espírito Santo. Volte. Retorne à Fonte que nunca seca. Pregue o evangelho a você mesmo hoje. Deixe que a Palavra de Cristo habite ricamente nas pequenas e invisíveis decisões cotidianas do seu lar e do seu trabalho.

É nesse movimento perpétuo de retorno à Palavra e repouso na Graça que a nossa fé persevera, amadurece e que a nossa vida passa a exaltar o Autor e Consumador de nossa fé.

Que o Senhor incline o seu coração aos testemunhos dEle e derrame vida sobre a sua alma neste dia.

Soli Deo Gloria.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

Quando o Senhor Descer nas Nuvens

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Uma Reflexão sobre a Segunda Vinda de Cristo


O Horizonte que Nenhum Olho Humano Consegue Ignorar

Há momentos na vida em que o céu parece mais próximo do que a terra.

Quando a dor aperta o peito e as palavras humanas não chegam. Quando a injustiça triunfa e o silêncio de Deus parece ensurdecedor. Quando enterramos alguém que amamos e ficamos diante de uma sepultura perguntando se há algo além daquele chão frio. Nesses momentos, algo dentro de nós — algo que nem a filosofia nem a ciência consegue explicar — ergue os olhos para cima.

É como se a alma soubesse, instintivamente, que a resposta não virá de baixo.

E a Escritura responde a esse anseio com uma promessa que atravessa toda a narrativa bíblica como um rio que não para: Ele voltará. Não como a primeira vez — em fragilidade, em silêncio, envolto em faixas de pano numa manjedoura obscura. Mas em glória. Em poder. Com todos os seus santos. E cada olho O verá.

"Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá" (Apocalipse 1:7).


A Promessa que os Anjos Confirmaram

Havia um monte. E havia homens de joelhos.

Depois da ressurreição, depois das aparições, depois de quarenta dias de um ministério que a morte não conseguiu interromper, Jesus conduziu seus discípulos até o Monte das Oliveiras. Ali, diante dos olhos daqueles homens que ainda carregavam no corpo a memória de tê-Lo visto morrer, Ele subiu. As nuvens O receberam. E os discípulos ficaram — olhos fixos no céu, corpos imóveis, coração partido entre o assombro e a saudade.

Foi então que dois homens vestidos de branco apareceram e disseram palavras que a Igreja nunca mais conseguiu esquecer:

"Homens da Galileia, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido no céu, assim virá, como o tendes visto subir ao céu" (Atos 1:11).

Assim virá. Com a mesma realidade corpórea. Com a mesma identidade pessoal. Com as mesmas mãos que carregam as marcas dos pregos — porque Aquele que voltará é o mesmo que morreu, o mesmo que ressuscitou, o mesmo que ascendeu.

A Segunda Vinda de Cristo não é uma metáfora. Não é um símbolo poético para o progresso da civilização ou para o avanço da Igreja na história. É um evento. Um evento real, concreto, cósmico — que irromperá na trama deste mundo com uma solenidade que fará empalidecer todos os acontecimentos que a história já registrou.


O Céu Rasgado e os Pés no Monte das Oliveiras

O profeta Zacarias, séculos antes do nascimento de Cristo, contemplou esse dia com uma clareza que só pode ser explicada pela inspiração do Espírito Santo.

"Naquele dia os seus pés estarão sobre o Monte das Oliveiras, que está diante de Jerusalém, a leste, e o monte se dividirá ao meio" (Zacarias 14:4).

Leia devagar. Deixe a imagem pousar.

Os pés do Senhor tocando a terra. O monte se partindo ao meio. A criação respondendo à presença do seu Criador com uma reverência que as pedras expressam melhor do que os homens. Há algo profundamente comovente nessa cena — o Deus que fez o mundo voltando ao mundo que fez, para consertá-lo de uma vez por todas.

Este é o Deus que não abandona. Que não desiste. Que não deixa a história em aberto.

Quando os exércitos do mundo se reunirem contra Jerusalém, quando o caos atingir seu ponto mais sombrio, quando a esperança humana chegar ao seu limite mais estreito — será exatamente então que o céu se rasgará. Não com timidez. Não com reservas. Mas com a autoridade plena de Aquele que é o Senhor dos Exércitos, o Rei da eternidade, o Alfa e o Ômega.

E Ele não virá sozinho. "Então o Senhor, o meu Deus, virá com todos os seus santos" (Zacarias 14:5). A nuvem de testemunhas que o precedeu na fé, os que morreram em Seu nome, os que viveram e sofreram e perseveraram — todos virão com Ele. Será o maior reencontro que o universo já testemunhou.


O Dia que é ao Mesmo Tempo Terror e Ternura

Há dois tipos de pessoas que aguardam esse dia. E para cada uma delas, o retorno de Cristo será uma experiência radicalmente diferente.

Para os que recusaram a graça, para os que viveram como se Deus não existisse ou como se Ele jamais pedisse contas, para os que amaram as trevas mais do que a luz — esse dia será terror puro. O Apocalipse descreve reis e guerreiros, poderosos e escravos, escondendo-se nas cavernas e pedindo às montanhas que caiam sobre eles, pois não suportam a presença do Cordeiro em Sua ira (Apocalipse 6:15-16).

Mas para os que foram lavados pelo sangue do Pastor ferido, para os que invocaram o Seu nome, para os que viveram — ainda que tropeçando — com os olhos voltados para a cruz e o coração voltado para o Rei — esse mesmo dia será ternura inexprimível. Será o reencontro com Aquele a quem amaram sem Ver, em quem creram sem tocar, por quem esperaram sem desanimar.

Spurgeon, pregando sobre o retorno de Cristo, disse uma vez que o crente genuíno não deveria temer esse dia, mas desejá-lo — da mesma forma que um filho que está longe de casa deseja o momento em que finalmente cruza o portal e encontra o pai esperando na varanda.

"Eis que venho em breve", diz o Senhor (Apocalipse 22:12). E a Igreja, através dos séculos, respondeu com uma só voz: "Vem, Senhor Jesus."


O Rei que Já Reina — e Ainda Reinará

É preciso, porém, guardar um equilíbrio que a Escritura nos ensina com cuidado.

Cristo não está ausente agora. Ele não partiu para um lugar remoto, indiferente à história que se desenrola. Ele ascendeu e está sentado à direita do Pai — não em repouso passivo, mas em reinado ativo. Ele intercede. Ele governa. Ele sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder (Hebreus 1:3). O Seu reino já começou — inaugurado na ressurreição, proclamado na missão da Igreja, presente em cada coração onde o Espírito habita.

Mas esse reino aguarda sua consumação.

Como teólogos reformados costumam expressar, vivemos no "já e ainda não" do reino de Deus. Já somos salvos — e ainda seremos glorificados. Já temos o Espírito como arras — e ainda aguardamos a redenção plena. Já o reino veio — e ainda virá em sua plenitude.

É nessa tensão que o discípulo contemporâneo é chamado a viver. Não com ansiedade paralisante, mas com esperança vigilante. Não escapando do mundo em névoa mística, mas trabalhando fielmente nele, sabendo que o trabalho feito para o Senhor não é em vão (1 Coríntios 15:58).

Martyn Lloyd-Jones, ao comentar a esperança escatológica, insistia que a doutrina da Segunda Vinda não deveria produzir crentes contemplativos que abandonam o presente — mas crentes ardentes que vivem o presente com uma seriedade e uma alegria que só a eternidade pode gerar.


Nuvens que Carregam Promessa

Há uma beleza quase inesperada na imagem das nuvens que envolvem o retorno de Cristo.

Na Escritura, as nuvens são frequentemente o símbolo da presença de Deus — a coluna de nuvem que guiou Israel no deserto, a nuvem que preencheu o templo quando a glória de Deus desceu, a nuvem que cobriu o Monte da Transfiguração quando a voz do Pai falou. As nuvens não escondem Deus. Elas o anunciam.

E quando o Senhor descer nas nuvens, será o anúncio final e definitivo de que Deus cumpriu tudo o que prometeu. Cada profecia que aguardou cumprimento. Cada oração que pareceu subir sem resposta. Cada lágrima que foi derramada em nome da justiça. Cada vida que foi sacrificada pela fidelidade ao evangelho. Tudo encontrará sua resolução naquele dia.

As nuvens carregam chuva. E a chuva faz florescer.

Quando o Senhor descer nas nuvens, o inverno mais longo da história humana chegará ao fim. E florescerá um reino que nenhum outono jamais tocará.


Como Então Vivemos?

Diante de tudo isso, uma pergunta prática se impõe — porque a teologia que não desce ao cotidiano não passou ainda pelo coração.

Como vivo eu, hoje, à luz do dia em que o Senhor descerá nas nuvens?

Vivo com urgência — porque o tempo é curto e os talentos foram confiados para serem investidos, não enterrados. Vivo com esperança — porque o caos que vejo ao redor não é a última palavra da história. Vivo com santidade — porque um dia verei o Rei face a face, e quero ser encontrado como alguém que O amou mais do que amou este mundo. Vivo com compaixão — porque há pessoas ao meu redor que ainda não conhecem o Senhor que voltará, e esse fato deveria me partir o coração todos os dias.

E vivo com expectativa. Com aquela expectativa mansa e firme de quem conhece o fim do livro e sabe que é glorioso. De quem, em meio às tormentas do presente, ouve de longe o som das nuvens se abrindo e sussurra, com a Igreja de todos os tempos:

Maranata. Vem, Senhor Jesus.


"O Senhor será rei de toda a terra. Naquele dia, haverá um só Senhor, e o seu nome será o único nome." (Zacarias 14:9)


Soli Deo Gloria

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

Adore o Deus Santo que Reina

Adore o Deus Santo que Reina Texto: Salmo 99 Grande ideia: O Deus santo deve ser adorado porque reina sobre as nações com justiça e, p...