sexta-feira, 28 de novembro de 2025

“Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.”

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

quando lemos Romanos 7:19 – “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.” – é como se Paulo colocasse em palavras aquilo que tanta gente sente, mas nem sempre tem coragem de admitir. Há dias em que olhamos para nós mesmos e pensamos: “Eu sei o que é certo, eu amo o que é certo… então por que continuo tropeçando nos mesmos lugares?”.

Esse versículo é o retrato de um coração regenerado que ainda vive num corpo marcado pelo pecado. É a confissão de alguém que ama a lei de Deus, mas percebe, na prática, que há outra lei atuando dentro de si, puxando na direção contrária. Paulo não está descrevendo um ateu indiferente, mas alguém que, justamente por amar o Senhor, sofre com a própria incoerência. Ele quer o bem. Ele odeia o mal. E, ainda assim, percebe o mal agarrado a ele.

Repare como isso é importante: o problema aqui não é falta de conhecimento. Paulo não diz: “Eu não sei o que é o bem”. Ele sabe. Nem é apenas falta de desejo, porque ele também não diz: “Eu não quero o bem”. Ele quer. O drama está entre o querer e o fazer. É o abismo entre aquilo que reconheço como vontade de Deus e aquilo que, na segunda-feira, na vida real, eu consigo viver. É como se ele dissesse: “Minha mente se curva, mas meus membros ainda resistem”.

Talvez você viva essa tensão de maneira muito concreta. Você promete que não vai mais responder com dureza dentro de casa… mas quando se dá conta, a palavra áspera já saiu. Você decide que não vai mais se entregar àquele hábito secreto… mas, quando percebe, já clicou, já caiu, já se envergonhou de novo. Você ouve um sermão, se alegra, chora, toma decisões… e, duas semanas depois, parece que tudo voltou ao “normal”.

É aqui que o texto de Romanos 7 se torna, ao mesmo tempo, profundamente realista e profundamente consolador. Realista, porque não romantiza a vida cristã. A Bíblia não descreve o crente como alguém que, depois da conversão, passa a viver numa linha reta de perfeição crescente e sem conflitos. Ao contrário: “o bem que quero… o mal que não quero…”. A mesma boca que confessa Cristo, confessa também a própria fraqueza.

Mas o texto também é consolador, porque essa luta é, em si mesma, sinal de vida. Morto não luta. Quem está espiritualmente morto não se incomoda com o próprio pecado, não sofre com a própria queda, não chora por ver em si o que desagrada a Deus. O conflito descrito por Paulo é o choque entre a nova natureza – nascida do Espírito – e a velha natureza, que ainda insiste em sobreviver. É o eco do que ele mesmo diz em outro lugar: “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro” (Gl 5.17).

Percebe? A presença desse combate dentro de você pode ser dolorosa, mas é também prova de que o Espírito está aí, de que o Evangelho já acendeu luz onde antes havia apenas trevas. O que você sente não é apenas culpa humana; é disciplina amorosa de um Pai que não nos deixa à vontade no pecado.

Ao mesmo tempo, o texto nos protege de duas tentações perigosas. A primeira é o desespero: “Então é isso, vou ser um fracasso espiritual para sempre”. A segunda é a acomodação: “Se até Paulo lutava assim, então não tem problema eu viver no pecado”. Nem uma coisa, nem outra. Paulo não escreve Romanos 7 para justificar o pecado, mas para expor a sua miséria… para, em seguida, nos conduzir a Romanos 8. Depois do grito: “Miserável homem que eu sou!” (Rm 7.24), vem a esperança: “Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

Veja o caminho: de um lado, um homem que reconhece o mal que ainda encontra em si. De outro, um Salvador perfeito, que não apenas perdoa o culpado, mas cumpre toda justiça em seu lugar. Em outras palavras: a nossa segurança não está na coerência impecável da nossa obediência, mas na perfeição da obediência de Cristo. O mesmo Paulo que admite: “faço o mal que não quero”, também declara: “vivo… pela fé no Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20).

Isso não diminui a seriedade do pecado. Pelo contrário. Justamente porque fomos unidos a Cristo, não podemos tratar o pecado como algo pequeno. Mas muda a base da nossa esperança. Não lutamos para, quem sabe, um dia sermos aceitos por Deus. Lutamos porque já fomos aceitos em Cristo. Não travamos essa batalha para conquistar o amor do Pai; travamos porque já somos amados, e esse amor não nos deixa em paz enquanto nos vê cativos.

Talvez hoje você esteja lendo Romanos 7:19 com o coração apertado, dizendo: “Sou eu aqui nesse versículo”. Deixe-me te lembrar, com carinho, de algumas coisas. Primeiro: Deus não se surpreende com a sua fraqueza. Ele te conhecia por inteiro quando te chamou. Segundo: Ele não te deixa entregue a ti mesmo. O mesmo Espírito que te convence do pecado é o que te capacita a mortificar o pecado (Rm 8.13). Terceiro: essa luta não será para sempre. Haverá um dia em que o “bem que quero” e o “bem que faço” estarão finalmente alinhados, quando estivermos plenamente conformados à imagem do Filho.

Até lá, seguimos caminhando entre falhas e recomeços, quedas e confissões, lágrimas e promessas renovadas. Não confiando no nosso “agora vai”, mas no “Aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Fp 1.6).

Que o Senhor, hoje, enquanto você encara de frente o seu próprio Romanos 7:19, encha o seu coração com a certeza de Romanos 8:1. Que Ele te dê sinceridade para admitir: “Tenho feito o mal que não quero”, e fé para descansar: “Cristo fez perfeitamente o bem que eu nunca consegui fazer”. E que, sustentado por essa graça, você se levante mais uma vez, não para provar o seu valor, mas para, no poder do Espírito, viver um pouco mais parecido com Aquele que te amou primeiro. Amém.

Pr. Jorge R. Lisboa

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