quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

“A abundância de uns supre a falta de outros”

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

quando Paulo escreve que “a abundância de uns supre a falta de outros” (2Co 8.14-15), ele está tocando em algo muito concreto da nossa vida: essa estranha mistura de sobras e faltas que carregamos no bolso e no coração. Em algumas áreas, transbordamos; em outras, estamos quase no fim do óleo da lamparina. E Deus, em sua sabedoria, decidiu nos colocar juntos exatamente assim.

O contexto de 2 Coríntios 8 é muito simples e, ao mesmo tempo, profundamente espiritual. A igreja de Jerusalém passava necessidade. Os irmãos enfrentavam pobreza real, fome, instabilidade. Então Paulo mobiliza outras igrejas para socorrê-los. Não como um imposto religioso, mas como fruto da graça: “pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2Co 8.9). Percebe? A lógica da oferta não começa no bolso do crente, mas no coração do Cristo que se dá.

Quando Paulo diz: “para que, por igualdade, a vossa abundância supra, no presente, a falta deles” (2Co 8.14), ele não está propondo um sistema político de nivelamento forçado, mas descrevendo o jeito de Deus organizar o seu povo: Ele reparte de forma desigual para que vivamos o amor de forma real. Deus poderia ter dado a todos a mesma condição, os mesmos recursos, as mesmas forças. Mas escolheu outra estrada. Deu mais a uns e menos a outros, para que a abundância de um se tornasse resposta de oração de outro.

Isso é lindo e, ao mesmo tempo, confrontador. Porque quebra o nosso individualismo. Aquilo que chamamos de “meu” – meu dinheiro, meu tempo, minha casa, minhas habilidades – Deus chama de “nosso”, porque nos colocou num corpo. “Ora, vós sois corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo” (1Co 12.27). No corpo, o que um membro recebe é para o benefício de todos.

Quando Paulo cita o episódio do maná, ele reforça essa ideia: “Como está escrito: o que muito colheu não teve demais; e o que pouco colheu não teve falta” (2Co 8.15; cf. Êx 16.18). No deserto, ninguém podia estocar maná para si como quem diz: “garantido o meu, o resto que se vire”. Quem colhia mais, repartia. Quem colhia menos, confiava. O povo era sustentado não apenas pelo pão que caía do céu, mas pela graça que circulava entre eles.

Talvez hoje sua abundância não seja financeira. Talvez você tenha tempo e paciência, enquanto outro irmão vive atolado em compromissos e filhos pequenos. Talvez você tenha ouvido e sensibilidade, enquanto outro está só, sem ninguém com quem desabafar. Talvez você tenha maturidade bíblica, enquanto outro está engatinhando na fé. Abundância e falta aparecem em muitas formas: recursos, dons, afetos, maturidade, consolo.

A pergunta é: o que você faz com o que tem a mais?

O evangelho nos chama a olhar para nossas “sobras” com outros olhos. Aquilo que nos sobra pode estar faltando desesperadamente na vida de alguém ao lado. E Deus, que governa todas as coisas, organizou a história de tal modo que você esteja perto justamente dessa pessoa. Não é acaso, é providência. A sua abundância foi planejada como resposta para a falta de outro. E, em outras áreas da sua vida, a abundância de alguém é o milagre que Deus separou para as suas faltas.

Isso nos humilha e nos consola ao mesmo tempo. Nos humilha, porque percebemos que não somos donos absolutos de nada. Somos mordomos, administradores temporários. Aquilo que Deus colocou em nossas mãos vem com um bilhete silencioso: “Use isso para a minha glória e para o bem do outro”. E nos consola, porque lembra: não precisamos ter tudo. Não precisamos ser tudo. Deus não pôs toda a riqueza, todo o dom, toda a força em uma só pessoa. Ele derramou sua graça no corpo, e ali, uns aos outros, vamos suprindo brechas, amparando fraquezas, compartilhando recursos.

Veja como o evangelho muda o tom: em vez de vivermos com medo de perder, passamos a viver com alegria de repartir. Em vez de olhar para a necessidade do outro como ameaça, passamos a enxergá-la como oportunidade de sermos resposta de Deus. Em vez de medir nossa vida apenas pelo que acumulamos, começamos a medir pelo quanto, em Cristo, pudemos amar. “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos” (1Jo 3.16). Dar a vida, no dia a dia, passa também por dar tempo, atenção, recursos, dons, acolhimento.

Talvez, lendo isso, seu coração diga: “Mas eu também tenho faltas… também tenho carências… quem vai suprir as minhas?”. A resposta não é: “esqueça de você, pense só nos outros”. A resposta é mais profunda: olhe primeiro para Cristo. Ele é a fonte de toda abundância. Nele, você já recebeu tudo o que precisa para a vida e para a piedade (2Pe 1.3). Nele, você é amado, perdoado, acolhido, guardado. E, a partir dessa segurança, Ele mesmo levanta pessoas para cuidar de você, assim como quer usar você para cuidar de outros. A mesma graça que te convoca a repartir é a graça que promete suprir.

Talvez hoje Deus esteja te chamando a duas coisas ao mesmo tempo: gratidão pela abundância que você tem em alguma área e humildade para admitir a falta que você tem em outras. A gratidão te move a repartir; a humildade te move a pedir ajuda, a deixar que a abundância do outro te alcance. No corpo de Cristo, não existe “eu que não preciso de ninguém” nem “eu que só preciso dar e nunca receber”. Todos precisamos de todos, debaixo do cuidado de um só Senhor.

Que o Senhor te ajude a olhar, hoje, para a tua vida com esses olhos: onde é que Ele tem te dado “mais” para que você seja canal? E onde é que Ele quer que você pare de fingir que dá conta sozinho e permita que a abundância de outros supra a sua falta?

Minha oração por você, querido leitor, é que o Espírito Santo guie seu coração a uma confiança mais profunda em Cristo, o Rico que se fez pobre por nós. Que, ao lembrar de 2 Coríntios 8:14-15, você seja consolado em suas faltas e despertado em suas abundâncias. E que, enquanto caminhamos, o Senhor faça de nós uma comunidade em que ninguém esteja totalmente só, porque a graça de Deus flui de mão em mão, de vida em vida, até que o grande Dia chegue e não haja mais falta alguma.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa 

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