Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã, que bom poder sentar
um pouco com você, ainda que em palavras, para olharmos juntos para a voz de
Jesus em João 5.24.
Há dias em que o coração da gente pesa, não é? A
consciência lembra pecados antigos, o medo do juízo cutuca por dentro, e a
pergunta insiste: “Será que, de fato, Deus me aceita? Será que, naquele Dia,
não serei envergonhado?”. Às vezes, mesmo na igreja, mesmo servindo, a alma
vive como quem caminha em chão rachado: com medo de, a qualquer momento,
afundar.
É exatamente nesse terreno de medo e incerteza
que João 5.24 brilha como sol em manhã nublada. Jesus diz: “Em verdade, em
verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem
a vida eterna, não entra em juízo, mas já
passou da morte para a vida” (Jo 5.24).
Repare como o versículo começa: “Em verdade, em
verdade vos digo…”. É o “amém, amém” de Jesus. É como se Ele dissesse: “Preste
atenção, isso é absolutamente certo, isso é firme, isso não muda”. Não é um
conselho, não é uma sugestão espiritual: é uma declaração do Rei.
O contexto é forte. Em João 5, Jesus havia
acabado de curar um homem paralítico há trinta e oito anos. Depois disso, os
líderes religiosos passam a persegui-lo, porque Ele faz essas coisas no sábado
e, ainda por cima, se apresenta como Filho de Deus (Jo 5.16–18). Então Jesus
começa a falar de quem Ele é: o Filho a quem o Pai deu autoridade para julgar e
poder para dar vida. Ele diz que chegará a hora em que os mortos ouvirão a sua
voz e viverão (Jo 5.25). É nesse discurso sobre juízo e vida que entra o nosso
versículo 24.
Percebe a cena? O tema é julgamento, é tribunal,
é vida e morte. E, de repente, no meio desse cenário solene, Jesus olha para
quem ouve e crê e diz, com simplicidade majestosa: “não entra em juízo… já
passou da morte para a vida”. Todo o Novo Testamento ecoa essa verdade: vida
eterna é dádiva presente em Cristo, o Filho enviado pelo Pai, centro da
história da salvação.
Vamos caminhar devagar por cada parte?
“Quem ouve a minha
palavra…”
Jesus não fala de quem apenas “escuta”
de forma distraída, como quem deixa o rádio ligado ao fundo. A ideia aqui é de
ouvir com o coração, levar a sério, acolher. É aquele ouvir que faz a gente se
curvar, se render, mudar de direção. Quantas vezes já ouvimos sermões, textos,
devocionais… mas, no fundo, o coração continuou fechado, medindo, desconfiando,
adiando a entrega. Aqui, Jesus está chamando para um ouvir que se curva diante
da sua autoridade e da sua graça.
“…e crê naquele que me
enviou”
Crer no Pai que enviou o Filho é
reconhecer que a iniciativa da salvação não começou em nós, mas em Deus. O Pai
amou, o Pai enviou, o Pai decidiu salvar pecadores por meio do Filho (Jo 3.16).
Crer é descansar na obra que vem de cima, não no esforço que vem de baixo. Não
é “eu e Jesus” dividindo a conta da salvação; é Cristo pagando tudo, e eu
recebendo pela fé o que Ele conquistou. Isso está em profunda harmonia com a
teologia reformada: a salvação é pela graça, mediante a fé, e isto não vem de
nós, é dom de Deus (Ef 2.8–9).
“tem a vida eterna”
Jesus não diz “terá”. Ele diz “tem”.
Vida eterna não é apenas um ingresso para o céu futuro; é uma nova qualidade de
vida que começa agora. É a vida do próprio Deus plantada em nós pelo Espírito
Santo. É por isso que Paulo escreve que, sem Cristo, estávamos mortos em nossos
delitos e pecados, mas Deus nos deu vida juntamente com Cristo (Ef 2.1,5). Vida
eterna é comunhão com o Pai, por meio do Filho, na habitação do Espírito. Não é
ausência de luta, mas é presença de Deus no meio da luta.
Talvez você pense: “Mas eu ainda peco, ainda
falho tanto… será que tenho mesmo essa vida?”. A resposta bíblica não é: “Você
não peca mais”, mas: “Você agora luta contra o pecado, porque uma nova vida
está em você”. A presença da batalha é sinal de que algo mudou. Morto não luta;
vivo luta.
“não entra em juízo”
Aqui está um dos consolos mais
profundos desse versículo. Há um juízo final, real, solene (Ap 20.11–15). Todos
comparecerão diante de Deus. Mas Jesus afirma que aquele que ouve e crê não
entra em juízo no sentido de condenação. A mesma verdade
aparece em Romanos 8.1: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que
estão em Cristo Jesus”.
Imagine um tribunal. Você entra, a acusação
contra você é extensa, verdadeira, incontestável. Seus pecados, pensamentos,
palavras, omissões… tudo está ali. Mas, antes da sentença, o Juiz declara:
“Este já foi julgado em meu Filho. A pena foi paga na cruz”. O processo não
desaparece porque você era inocente; ele é encerrado porque Cristo tomou sobre
si a culpa que era sua. O juízo que você merecia já caiu sobre Ele. Esse é o
escândalo maravilhoso da cruz.
“mas já passou da morte
para a vida”
Note o tempo do verbo: já
passou. Não é uma transição que você está tentando fazer com as próprias mãos,
como quem atravessa um rio perigoso se equilibrando em pedras escorregadias. É
algo que Deus já fez com você, em Cristo. Ele o tirou do domínio das trevas e o
transportou para o reino do Filho do seu amor (Cl 1.13). Havia um abismo entre
você e Deus, e você não tinha ponte para construir desse lado. Cristo é a
ponte. Na cruz, Ele desceu ao nosso lado do abismo, tomou a nossa morte, e,
pela ressurreição, abriu o caminho de volta ao Pai.
Então, o que isso tudo significa para o seu hoje?
Significa que você não precisa viver como alguém
em liberdade condicional, com medo constante de ser mandado de volta para a
prisão se falhar em algo. Em Cristo, você foi declarado justo. A justificação
não é uma maquiagem moral, é um ato jurídico de Deus. Ele olha para você, unido
a Cristo pela fé, e vê a justiça perfeita do seu Filho (2Co 5.21).
Significa que, quando a culpa gritar dentro de
você, você pode responder não com promessas de desempenho (“da próxima vez eu
vou conseguir, eu vou ser melhor”), mas com o evangelho: “Sim, eu pequei. Mas
meu Salvador já foi ao juízo no meu lugar. Eu já passei da morte para a vida.
Em Cristo, não há condenação”. Isso não nos leva à irresponsabilidade, mas à
gratidão. A graça não é licença para pecar; é força para lutar e desejo de
obedecer.
Significa também que sua esperança diante da
morte é sólida. Um dia, seu corpo vai cansar, seus olhos vão fechar, seu
coração vai parar. Mas, se você está unido a Cristo, isso não será o salto no
escuro; será a passagem da fé à visão. Aquele que, hoje, lhe dá vida
espiritual, naquele dia o sustentará na hora do vale da sombra da morte (Sl
23.4). A vida eterna que começou aqui florescerá plenamente lá.
Querido leitor, talvez você leia tudo isso ainda
com o coração dividindo a confiança: um pouco em Cristo, um pouco em você
mesmo, um pouco no seu histórico, um pouco na sua igreja. Hoje, o chamado do
Senhor é simples e profundo: ouça a Palavra do Filho, creia
no Pai que O enviou, descanse na obra
consumada. Não é “confiar em Jesus e…”. É “confiar em Jesus, ponto”. Deste lado
da eternidade, não há lugar mais seguro para a sua alma do que aos pés da cruz.
Que o Espírito Santo grave em você, como quem
escreve com fogo manso no coração, as palavras do próprio Senhor: “Quem ouve a
minha palavra e crê naquele que me enviou tem a
vida eterna, não entra em juízo, mas já
passou da morte para a vida” (Jo 5.24). Que essa certeza não o
torne soberbo, mas profundamente humilde, grato e desejoso de viver para a
glória de Deus. E que, enquanto caminhamos, nosso coração possa orar: “Pai,
obrigado porque, em Cristo, não caminho mais rumo ao juízo, mas rumo à casa.
Segura minha mão até o fim. Amém.”
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa
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