sábado, 27 de junho de 2026

Criação de filhos na fé.

Criação de filhos na fé.

Criar filhos na fé é uma das tarefas mais belas e mais frágeis que Deus colocou nas mãos de uma família cristã. Não é simplesmente “fazer os filhos irem à igreja”. Também não é tentar fabricar crentes por pressão, medo ou aparência. Criar filhos na fé é conduzir a casa diante de Deus, com a Palavra aberta, com oração sincera, com exemplo humilde e com dependência da graça.

A primeira coisa que precisamos lembrar é esta: nossos filhos pertencem primeiro ao Senhor. Eles não são extensão do nosso ego, nem troféus da nossa espiritualidade, nem projetos para satisfazer nossas expectativas. São almas diante de Deus. Por isso, pais cristãos não são salvadores dos filhos; são mordomos, discipuladores, intercessores e testemunhas. A Confissão Batista de 1689, ao falar das promessas e misericórdias de Deus, lembra que somos obrigados, por dever para com Deus e por afeição aos nossos filhos, a suplicar fervorosamente e empregar nossos maiores esforços para que nós e nossa descendência participemos das misericórdias do Senhor.1 Isso é muito bonito: oração fervorosa e esforço fiel caminham juntos.

Deuteronômio 6 nos dá uma imagem muito doméstica da fé: “E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te” (Dt 6.6-7, ARC). Veja que a fé não aparece apenas como evento religioso, mas como conversa de mesa, caminho, noite e manhã. A formação espiritual dos filhos acontece mais no ritmo da casa do que em grandes discursos. Eles aprendem muito quando nos veem pedir perdão, orar com simplicidade, honrar a igreja, tratar pessoas com justiça, abrir a Bíblia sem pose e confessar que também somos pecadores dependentes de Cristo.

Também precisamos dizer com mansidão: a criação de filhos na fé exige autoridade, mas uma autoridade parecida com a do Pai celestial, não com tirania. O Catecismo Maior, ao comentar o quinto mandamento, lembra que a autoridade de “pai” e “mãe” envolve amor, gentileza e deveres reais para com os que estão sob cuidado.2 A casa cristã não deve ser um lugar onde a doutrina é usada como chicote, mas onde a verdade de Deus é ensinada com firmeza e ternura. Paulo diz: “E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor” (Ef 6.4, ARC). Há filhos que se afastam não porque ouviram demais sobre Cristo, mas porque viram pouco de Cristo no modo como a fé foi apresentada.

Criar filhos na fé também é discipular. E discipulado não é apenas transmissão de informação; é vida compartilhada na presença de Cristo. Materiais de discipulado lembram que fazer discípulos envolve ensinar a obedecer tudo o que Jesus ordenou, e alertam que ganhar sem discipular é irresponsabilidade espiritual. Isso se aplica também ao lar. Não basta desejar que nossos filhos “sejam da igreja”. Precisamos caminhar com eles, responder perguntas, corrigir caminhos, ouvir dores, explicar o evangelho muitas vezes, celebrar pequenos sinais de graça e não terceirizar toda formação espiritual para o culto infantil, adolescentes ou escola bíblica.

Mas aqui há um consolo necessário: pais fiéis também choram. Nem sempre os filhos respondem como gostaríamos. A fé reformada nos ajuda a manter duas verdades juntas: Deus usa meios, e os pais são meios importantes; mas somente o Espírito Santo pode dar novo nascimento.3 Isso livra os pais da negligência e também do desespero. Devemos semear, regar, ensinar, corrigir, amar e orar. Mas a salvação pertence ao Senhor. Nossos filhos não precisam de pais perfeitos; precisam de pais arrependidos, dependentes de Cristo, comprometidos com a Palavra e dispostos a perseverar em amor.

A igreja também tem lugar nisso. Filhos precisam ver que a fé não é apenas assunto privado da família, mas vida no corpo de Cristo. Eles precisam conviver com irmãos mais velhos, ver batismos, participar da Ceia conforme a ordem da igreja, ouvir a Palavra pregada, cantar com o povo de Deus, perceber que pertencem a uma comunidade maior que a própria casa. O Catecismo de Heidelberg, em sua introdução, mostra como a tradição reformada valorizou a instrução dos jovens para que fossem encorajados a abraçar a fé cristã e confessá-la diante da igreja.4 Isso nos lembra que a criação na fé não é só familiar; é também eclesiástica.


Notas de rodapé

  1. Confissão Batista de Fé de 1689, caps. 7.2–3, sobre a aliança da graça revelada no evangelho e fundada em Cristo; cap. 20.3–4, sobre a revelação do evangelho, as promessas, os meios externos e a necessidade da obra eficaz do Espírito; cap. 22.6, sobre o dever do culto a Deus em famílias diariamente. Observação técnica: a formulação “por dever para com Deus e por afeição aos nossos filhos...” não é uma citação literal de um parágrafo específico da CFB1689; foi usada como paráfrase pastoral coerente com esses pontos confessionais, não como transcrição direta.
  2. Catecismo Maior de Westminster, perguntas 124–125, sobre o alcance dos termos “pai” e “mãe” no quinto mandamento e a razão de os superiores serem chamados assim; especialmente a P.125, que ensina que os superiores devem expressar amor e ternura para com os inferiores. Ver também P.129, sobre os deveres dos superiores: amar, orar, abençoar, instruir, aconselhar, admoestar, proteger e prover; e P.130, sobre os pecados dos superiores, incluindo negligência, abuso de autoridade e correção indevida.
  3. Cânones de Dort, III/IV, arts. 11–12, sobre a regeneração como obra sobrenatural, eficaz e soberana do Espírito Santo; III/IV, art. 17, sobre Deus usar meios na aplicação da graça; e V, art. 14, sobre o uso da Palavra, dos sacramentos e das admoestações como meios pelos quais Deus preserva os seus. Também coerente com a Confissão Batista de 1689, caps. 10.1–2, sobre chamada eficaz, e 20.4, sobre a necessidade da obra interna do Espírito.
  4. Catecismo de Heidelberg, Prefácio de Frederico III à edição original de 1563, quanto ao propósito catequético de instruir a juventude e a igreja na doutrina cristã. Como apoio doutrinário dentro do próprio Catecismo, ver Dia do Senhor 7, P.21–22, sobre a verdadeira fé e o conteúdo da fé cristã; e Dia do Senhor 38, P.103, sobre a manutenção do ministério do evangelho e das escolas, bem como a diligente frequência à assembleia do povo de Deus para aprender a Palavra. 

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

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