Ética cristã em tempos de relativismo.
A ética cristã em tempos de relativismo começa
com uma confissão simples e profunda: Deus é Senhor, e nós não somos. O
relativismo diz, de muitas maneiras, que cada pessoa pode construir sua própria
verdade, seu próprio bem e seu próprio caminho. Mas a fé cristã nos lembra que
a verdade não nasceu da opinião humana; ela procede do Deus santo, justo, bom e
verdadeiro. Por isso, o cristão não vive perguntando apenas: “O que eu sinto?”,
“O que a cultura aprova?”, ou “O que me convém?”. Ele aprende a perguntar: “O
que agrada ao Senhor?”.
Isso não significa que o cristão caminha pelo
mundo com arrogância, como alguém que venceu todos os debates. Significa que
ele caminha com temor. A Palavra de Deus não nos foi dada para inflar nossa
vaidade religiosa, mas para formar em nós um coração obediente. A Confissão
Batista de 1689 lembra que as Escrituras são regra suficiente e infalível para
fé e obediência, e que a lei moral continua sendo regra de vida para o povo de
Deus, não como caminho de justificação, mas como direção para quem foi alcançado
pela graça.
Em tempos de relativismo, uma das tentações da
igreja é trocar santidade por aceitação. Queremos ser compreendidos, aprovados,
bem recebidos. E há nisso um desejo humano compreensível. Ninguém gosta de ser
ridicularizado por crer. Mas Jesus nunca prometeu que seguir a verdade seria
confortável. Ele disse: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e
tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9.23, ARC). A ética cristã não
nasce de uma tentativa de parecer melhor que os outros; nasce de pertencer a
Cristo.
Por isso, a pergunta ética fundamental não é
apenas “isso é permitido?”, mas “isso expressa minha união com Cristo?”. Há
coisas que uma sociedade pode normalizar e que o discípulo de Jesus não pode
abraçar. Há práticas que podem ser populares e, ainda assim, deformar a alma.
Há discursos que podem parecer modernos, mas apenas repetem a velha rebelião do
Éden: viver como se Deus não tivesse o direito de dizer o que é bem e o que é
mal.
Ao mesmo tempo, precisamos tomar cuidado para não
confundir ética cristã com moralismo. Moralismo é tentar construir justiça
própria diante de Deus e superioridade diante dos homens. Ética cristã é
gratidão obediente de quem foi salvo pela graça. O moralista usa a verdade como
pedra. O discípulo usa a verdade como lâmpada. O moralista aponta pecados para
se sentir puro. O discípulo reconhece o pecado, começa pelo arrependimento de
si mesmo e chama outros para a luz com lágrimas, paciência e firmeza.
O relativismo também tenta nos convencer de que
amor e verdade são inimigos. Mas em Cristo eles se encontram. Jesus foi cheio
de graça e de verdade. Ele recebeu pecadores, mas não chamou o pecado de
virtude. Ele tocou feridos, mas não mentiu sobre a santidade de Deus. Ele
perdoou, restaurou e também disse: “vai-te e não peques mais” (João 8.11, ARC).
A igreja perde sua alma quando abandona a verdade para parecer amorosa, e
também fere pessoas quando fala a verdade sem amor.
A ética cristã, então, precisa ser visível no
cotidiano. Ela aparece na forma como usamos dinheiro, tratamos o corpo, lidamos
com sexualidade, falamos nas redes sociais, honramos compromissos, criamos
filhos, trabalhamos, perdoamos ofensas e reagimos quando ninguém está vendo.
Não é apenas uma posição pública sobre temas controversos; é uma vida inteira
sendo moldada pela Palavra de Deus. Como lembra a reflexão sobre discipulado,
seguir Jesus não é apenas receber informação religiosa, mas viver uma transformação
real, ajustando diariamente o caráter ao caráter de Deus.
Em tempos de relativismo, a igreja não precisa
ser estridente, mas precisa ser fiel. Não precisa gritar para provar que tem
convicção. Também não pode silenciar por medo de desagradar. O caminho de
Cristo é mais estreito e mais belo: falar a verdade com mansidão, viver com
pureza, amar com sinceridade, discernir a cultura sem se render a ela, e
lembrar que o Senhor não nos chamou para vencer uma guerra de reputação, mas
para sermos sal da terra e luz do mundo.
Que Deus nos dê uma ética que não seja apenas
discurso, mas testemunho. Que nossos filhos, vizinhos, irmãos e até opositores
percebam que nossas convicções não vêm de orgulho, mas de reverência. E que,
num mundo onde muitos dizem “cada um tem a sua verdade”, a igreja possa
responder com humildade firme: “Nós pertencemos Àquele que disse: Eu sou o
caminho, e a verdade, e a vida”.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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