sábado, 13 de junho de 2026

Fé cristã e polarização política.

Fé cristã e polarização política.

A fé cristã não nos permite tratar a política como se ela fosse irrelevante, mas também não nos permite tratá-la como se fosse o nosso evangelho. A Escritura ensina que as autoridades civis existem debaixo da soberania de Deus e devem buscar o bem público, a justiça e a paz. Por isso, o cristão pode e deve participar da vida pública com seriedade, oração, prudência e responsabilidade.

A Confissão Batista de 1689 reconhece que Deus ordenou os magistrados civis “para a Sua própria glória e para o bem público”, e que devemos obedecer às autoridades “em todas as coisas lícitas”, orando por elas para que vivamos vida quieta e sossegada, “com toda piedade e honestidade”. Essa obediência, porém, nunca é absoluta. Quando qualquer autoridade exige aquilo que Deus proíbe, ou proíbe aquilo que Deus ordena, a resposta cristã permanece a mesma dos apóstolos: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).

Mas a polarização política começa a adoecer a alma quando o partido, o líder, a ideologia ou a pauta ocupam o lugar que pertence somente a Cristo. O cristão pode ter convicções políticas firmes, mas não pode entregar sua consciência a homens. A mesma tradição confessional nos lembra que “Deus é o único Senhor da consciência”, e que exigir obediência cega ou fé implícita em mandamentos humanos destrói a liberdade cristã. Nenhum grupo político tem direito de pastorear a consciência da igreja como se fosse o Espírito Santo.

Cristo é o Senhor da consciência porque Ele é o único Salvador da igreja. O Filho eterno de Deus se encarnou verdadeiramente, obedeceu perfeitamente à Lei em lugar do seu povo, sofreu a maldição do pecado na cruz, morreu como substituto dos pecadores, ressuscitou corporalmente ao terceiro dia, subiu aos céus e hoje intercede à direita do Pai. A igreja não foi comprada por sangue partidário, ideológico ou nacional; ela foi comprada pelo sangue precioso de Cristo. Portanto, nenhuma lealdade terrena pode ocupar o lugar da fé, da obediência e da adoração devidas ao Cordeiro.

A polarização também nos tenta a enxergar o próximo antes como adversário do que como imagem de Deus. E quando isso entra na igreja, algo muito sério aconteceu. Irmãos que confessam o mesmo Senhor, foram justificados pela mesma fé, participam da mesma comunhão e aguardam a mesma ressurreição passam a se medir por preferências eleitorais. Mas Cristo não derramou seu sangue para formar uma militância irritada; Ele comprou um povo santo. Nossa cidadania está nos céus, de onde esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Isso não nos tira da terra, mas nos impede de absolutizar qualquer projeto terreno.

A doutrina clara é esta: Cristo é Senhor sobre tudo, inclusive sobre a política. O Estado tem uma função legítima, porém limitada. Ao magistrado civil compete promover a justiça pública, punir o mal, proteger o bem, preservar a ordem e servir ao bem comum conforme a lei moral de Deus. À igreja, como igreja, compete proclamar o evangelho, administrar fielmente os meios ordenados por Cristo, formar consciências pela Palavra, exercer disciplina espiritual, praticar misericórdia e denunciar o pecado com autoridade bíblica. O cristão, como cidadão, pode atuar na vida pública, votar, argumentar, servir, protestar licitamente e defender causas justas. Mas a igreja institucional não deve se transformar em comitê de campanha, palanque ideológico ou instrumento de propaganda partidária.

Também precisamos definir justiça biblicamente. Justiça não é tudo aquilo que uma ideologia chama de justiça. Justiça, nas Escrituras, envolve verdade, retidão, imparcialidade, proteção do inocente, punição do mal, defesa do vulnerável, honestidade nos juízos e amor concreto ao próximo. Por isso, a igreja não deve importar categorias políticas seculares como se fossem revelação divina. Ela deve julgar todas as coisas pela Palavra de Deus.

Quando a igreja troca a cruz por uma bandeira, ela perde sua voz profética. Quando o cristão troca a mansidão de Cristo pela agressividade das guerras culturais, ele pode até vencer discussões, mas perde o perfume do evangelho. A ira do homem não produz a justiça de Deus. A verdade deve ser defendida, mas deve ser defendida como fruto do Espírito, não como obra da carne.

A aplicação pastoral é simples, embora custe caro: antes de perguntar “de que lado você está?”, precisamos perguntar: “Cristo está governando meu coração?”. Tenho falado a verdade com amor? Tenho ouvido antes de responder? Tenho orado pelas autoridades das quais discordo? Tenho tratado irmãos em Cristo como inimigos? Tenho compartilhado notícias sem verificar? Tenho usado a política para justificar ira, orgulho, desprezo, calúnia, medo, ansiedade ou falta de domínio próprio?

A fé cristã não nos chama à apatia, mas à sobriedade. Não nos chama à covardia, mas à mansidão. Não nos chama ao silêncio diante da injustiça, mas também não nos autoriza a odiar em nome da justiça. “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9). Pacificador não é alguém sem convicção; é alguém cuja convicção foi disciplinada pela cruz, purificada pela Palavra e submetida ao senhorio de Cristo.

Talvez o maior testemunho da igreja em tempos polarizados seja este: mostrar que existe uma lealdade mais alta que a política, uma esperança mais firme que eleições, uma verdade mais profunda que narrativas humanas e uma comunhão mais forte que diferenças partidárias. O mundo precisa ver cristãos que discordam sem se devorar, que participam da vida pública sem idolatria, que defendem a justiça sem abandonar a humildade, e que se lembram, em todo tempo, de que o Reino de Deus não avança pela ira dos homens, pela força de partidos ou pela glória de líderes terrenos, mas pelo senhorio de Cristo, pela verdade da Palavra, pelo poder do Espírito Santo e pela proclamação fiel do evangelho da graça.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 

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