A fé cristã não nos permite
tratar a política como se ela fosse irrelevante, mas também não nos permite
tratá-la como se fosse o nosso evangelho. A Escritura ensina que as autoridades
civis existem debaixo da soberania de Deus e devem buscar o bem público, a
justiça e a paz. Por isso, o cristão pode e deve participar da vida pública com
seriedade, oração, prudência e responsabilidade.
A Confissão Batista de 1689
reconhece que Deus ordenou os magistrados civis “para a Sua própria glória e
para o bem público”, e que devemos obedecer às autoridades “em todas as coisas
lícitas”, orando por elas para que vivamos vida quieta e sossegada, “com toda
piedade e honestidade”. Essa obediência, porém, nunca é absoluta. Quando
qualquer autoridade exige aquilo que Deus proíbe, ou proíbe aquilo que Deus
ordena, a resposta cristã permanece a mesma dos apóstolos: “Mais importa
obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).
Mas a polarização política
começa a adoecer a alma quando o partido, o líder, a ideologia ou a pauta
ocupam o lugar que pertence somente a Cristo. O cristão pode ter convicções
políticas firmes, mas não pode entregar sua consciência a homens. A mesma tradição
confessional nos lembra que “Deus é o único Senhor da consciência”, e que
exigir obediência cega ou fé implícita em mandamentos humanos destrói a
liberdade cristã. Nenhum grupo político tem direito de pastorear a consciência
da igreja como se fosse o Espírito Santo.
Cristo é o Senhor da consciência
porque Ele é o único Salvador da igreja. O Filho eterno de Deus se encarnou
verdadeiramente, obedeceu perfeitamente à Lei em lugar do seu povo, sofreu a
maldição do pecado na cruz, morreu como substituto dos pecadores, ressuscitou
corporalmente ao terceiro dia, subiu aos céus e hoje intercede à direita do
Pai. A igreja não foi comprada por sangue partidário, ideológico ou nacional;
ela foi comprada pelo sangue precioso de Cristo. Portanto, nenhuma lealdade
terrena pode ocupar o lugar da fé, da obediência e da adoração devidas ao
Cordeiro.
A polarização também nos tenta a
enxergar o próximo antes como adversário do que como imagem de Deus. E quando
isso entra na igreja, algo muito sério aconteceu. Irmãos que confessam o mesmo
Senhor, foram justificados pela mesma fé, participam da mesma comunhão e
aguardam a mesma ressurreição passam a se medir por preferências eleitorais.
Mas Cristo não derramou seu sangue para formar uma militância irritada; Ele
comprou um povo santo. Nossa cidadania está nos céus, de onde esperamos o
Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Isso não nos tira da terra, mas nos impede de
absolutizar qualquer projeto terreno.
A doutrina clara é esta: Cristo
é Senhor sobre tudo, inclusive sobre a política. O Estado tem uma função
legítima, porém limitada. Ao magistrado civil compete promover a justiça
pública, punir o mal, proteger o bem, preservar a ordem e servir ao bem comum
conforme a lei moral de Deus. À igreja, como igreja, compete proclamar o
evangelho, administrar fielmente os meios ordenados por Cristo, formar
consciências pela Palavra, exercer disciplina espiritual, praticar misericórdia
e denunciar o pecado com autoridade bíblica. O cristão, como cidadão, pode
atuar na vida pública, votar, argumentar, servir, protestar licitamente e
defender causas justas. Mas a igreja institucional não deve se transformar em
comitê de campanha, palanque ideológico ou instrumento de propaganda
partidária.
Também precisamos definir
justiça biblicamente. Justiça não é tudo aquilo que uma ideologia chama de
justiça. Justiça, nas Escrituras, envolve verdade, retidão, imparcialidade,
proteção do inocente, punição do mal, defesa do vulnerável, honestidade nos juízos
e amor concreto ao próximo. Por isso, a igreja não deve importar categorias
políticas seculares como se fossem revelação divina. Ela deve julgar todas as
coisas pela Palavra de Deus.
Quando a igreja troca a cruz por
uma bandeira, ela perde sua voz profética. Quando o cristão troca a mansidão de
Cristo pela agressividade das guerras culturais, ele pode até vencer
discussões, mas perde o perfume do evangelho. A ira do homem não produz a
justiça de Deus. A verdade deve ser defendida, mas deve ser defendida como
fruto do Espírito, não como obra da carne.
A aplicação pastoral é simples,
embora custe caro: antes de perguntar “de que lado você está?”, precisamos
perguntar: “Cristo está governando meu coração?”. Tenho falado a verdade com
amor? Tenho ouvido antes de responder? Tenho orado pelas autoridades das quais
discordo? Tenho tratado irmãos em Cristo como inimigos? Tenho compartilhado
notícias sem verificar? Tenho usado a política para justificar ira, orgulho,
desprezo, calúnia, medo, ansiedade ou falta de domínio próprio?
A fé cristã não nos chama à
apatia, mas à sobriedade. Não nos chama à covardia, mas à mansidão. Não nos
chama ao silêncio diante da injustiça, mas também não nos autoriza a odiar em
nome da justiça. “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados
filhos de Deus” (Mateus 5:9). Pacificador não é alguém sem convicção; é alguém
cuja convicção foi disciplinada pela cruz, purificada pela Palavra e submetida
ao senhorio de Cristo.
Talvez o maior testemunho da
igreja em tempos polarizados seja este: mostrar que existe uma lealdade mais
alta que a política, uma esperança mais firme que eleições, uma verdade mais
profunda que narrativas humanas e uma comunhão mais forte que diferenças
partidárias. O mundo precisa ver cristãos que discordam sem se devorar, que
participam da vida pública sem idolatria, que defendem a justiça sem abandonar
a humildade, e que se lembram, em todo tempo, de que o Reino de Deus não avança
pela ira dos homens, pela força de partidos ou pela glória de líderes terrenos,
mas pelo senhorio de Cristo, pela verdade da Palavra, pelo poder do Espírito
Santo e pela proclamação fiel do evangelho da graça.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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