Meus irmãos,
uma das marcas mais preocupantes do nosso tempo não é apenas a falta de
conhecimento bíblico, mas a falta de discernimento espiritual. Há uma diferença
importante entre acumular informações sobre Deus e possuir sabedoria para
distinguir o verdadeiro do falso, o saudável do nocivo, o bíblico do apenas
atraente.
Vivemos
numa época em que muitos cristãos são facilmente levados por aquilo que
emociona, impressiona ou viraliza. Se alguém fala com eloquência, faz promessas
extraordinárias ou relata experiências incomuns, logo recebe credibilidade. No
entanto, as Escrituras nunca ensinaram que a verdade deve ser medida pelo
impacto emocional, mas pela fidelidade à Palavra de Deus.
O
discernimento é uma expressão de maturidade espiritual. Em Hebreus 5, o autor
repreende seus leitores porque, apesar do tempo de caminhada, ainda
necessitavam de "leite" espiritual, quando já deveriam ser mestres.
Faltava-lhes crescimento na compreensão da verdade. Então conclui: "o
mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os
sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal" (Hb 5.14,
ARC).
Observe que
o discernimento não surge por acaso. Ele é fruto de uma vida continuamente
moldada pelas Escrituras. Assim como um músico treina o ouvido para perceber
uma nota desafinada, o cristão amadurecido aprende a reconhecer quando um
ensino, ainda que bonito, eloquente ou popular, não está em harmonia com a
verdade de Deus.
Essa
maturidade também é o alvo do ministério da igreja. Paulo afirma que Cristo
concedeu dons ao seu povo para o aperfeiçoamento dos santos, "até que
todos cheguemos... à medida da estatura da plenitude de Cristo", para que
não sejamos mais "meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento
de doutrina" (Ef 4.11–14). O discernimento, portanto, não é privilégio de
poucos, mas parte do crescimento esperado de todo cristão.
A falta
desse discernimento tem produzido muita confusão no meio cristão. Pessoas
passam a seguir personalidades em vez de Cristo. Experiências são colocadas
acima das Escrituras. Revelações particulares ganham mais autoridade do que a
Palavra inspirada. Emoção substitui arrependimento. Espetáculo toma o lugar da
adoração. E aquilo que deveria conduzir à santidade acaba alimentando vaidade,
manipulação e superficialidade.
Isso não é
um problema novo. Os apóstolos advertiram repetidas vezes que falsos mestres
surgiriam dentro da própria comunidade cristã. Paulo exortou os efésios a não
serem "meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de
doutrina" (Ef 4.14). João orientou: "Não creiais a todo espírito, mas
provai se os espíritos são de Deus" (1Jo 4.1). E Paulo foi ainda mais
enfático ao afirmar: "Ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos
pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema" (Gl 1.8).
A fidelidade ao evangelho sempre foi o critério pelo qual toda mensagem deve
ser julgada.
Por isso,
toda doutrina, experiência e prática da igreja devem ser examinadas à luz da
Palavra de Deus. Afinal, "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil
para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça,
a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda
boa obra" (2Tm 3.16–17). A Escritura é suficiente para equipar plenamente
o povo de Deus; nenhuma revelação posterior pode reivindicar autoridade igual
ou superior àquela que o Senhor já concedeu.
Ao mesmo
tempo, precisamos tomar cuidado para não transformar discernimento em espírito
crítico. Há pessoas que imaginam possuir discernimento quando, na verdade,
apenas cultivam desconfiança permanente. Criticam tudo, suspeitam de todos e se
colocam como árbitros da fé alheia. Isso também não é bíblico. O verdadeiro
discernimento caminha de mãos dadas com a humildade, o amor e a disposição de
aprender.
Discernir
exige uma mente renovada pela Palavra e um coração submisso ao Senhor. Não
basta perguntar: "Isso funciona?", "Isso emociona?" ou
"Isso está dando certo?". A pergunta essencial é: "Isso
glorifica a Cristo? Está de acordo com as Escrituras? Produz arrependimento,
santidade, amor e obediência?"
Essa
pergunta nos conduz inevitavelmente ao próprio Cristo. Ele é o Verbo encarnado
(Jo 1.1,14), a revelação perfeita do Pai (Hb 1.1–3) e o Supremo Profeta
prometido por Deus (Dt 18.15; At 3.22–23), que continua governando sua igreja
por meio de sua Palavra e do seu Espírito. Como o Bom Pastor, Ele declara:
"As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me
seguem" (Jo 10.27). Quanto mais conhecemos a voz do Pastor nas Escrituras,
menos seremos seduzidos pela voz dos estranhos.
A tradição
reformada sempre enfatizou que a Escritura é a autoridade suprema para julgar
toda doutrina, experiência e prática da igreja. A Confissão Batista de Londres
de 1689 afirma que a Sagrada Escritura é a única regra suficiente, certa e
infalível de todo conhecimento, fé e obediência salvadores. Esse princípio
continua sendo um antídoto poderoso contra os excessos do nosso tempo.
Talvez uma
das maiores necessidades da igreja hoje não seja mais criatividade, mais
novidades ou mais experiências extraordinárias. Precisamos de cristãos que
conheçam profundamente a Palavra de Deus, que orem pedindo sabedoria, que sejam
ensináveis e que não tenham pressa para acreditar em tudo o que veem ou ouvem.
O
discernimento espiritual nos protege de dois extremos: da ingenuidade que
aceita qualquer novidade e da arrogância que rejeita tudo indiscriminadamente.
Ele nos conduz ao caminho da verdade, onde Cristo permanece no centro, as
Escrituras ocupam o lugar de autoridade e a igreja cresce não apenas em
entusiasmo, mas em maturidade.
Que o
Senhor nos conceda o coração dos bereanos, que "examinavam cada dia nas
Escrituras se estas coisas eram assim" (At 17.11). Que aprendamos a ouvir,
acima de todas as vozes deste mundo, a voz do nosso Bom Pastor. Uma igreja que
ama a verdade dificilmente será levada pelas loucuras do momento, pois
permanece edificada sobre Cristo, a Rocha inabalável, e sobre a sua Palavra,
que permanece para sempre.
Soli Deo Gloria!
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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