Honra aos pais e cuidado com os
idosos.
Meu irmão, esse tema toca num ponto muito sensível da vida cristã, porque
ele não fica apenas no campo das ideias. Honrar pai e mãe, e cuidar dos idosos,
mexe com memórias, gratidão, culpa, cansaço, feridas antigas, limitações
financeiras, conflitos familiares e também com a forma como a igreja enxerga a
fraqueza humana.
A Palavra de Deus nos chama com clareza: “Honra a teu pai e a tua mãe”. Esse
não é um conselho cultural, nem uma recomendação sentimental; é mandamento do
Senhor. O Catecismo Batista de William Collins e Benjamin Keach resume bem
quando afirma que o quinto mandamento exige a preservação da honra e o
cumprimento dos deveres que pertencem a cada um em suas diversas posições e
relacionamentos. Também ensina que esse mandamento proíbe a negligência para
com essa honra e esses deveres.
Mas precisamos entender bem: honra não é apenas falar bonito dos pais no Dia
dos Pais ou no Dia das Mães. Honra envolve atitude, cuidado, presença,
respeito, paciência, escuta e responsabilidade. Quando os pais envelhecem,
muitas vezes eles deixam de ser aqueles que sustentavam a casa e passam a
precisar de ajuda. Aí a honra deixa de ser teoria e se torna agenda médica,
remédio comprado, ligação feita, visita, paciência com repetição, cuidado com a
solidão e proteção contra abandono.
A Escritura é muito séria sobre isso. Paulo diz em 1 Timóteo 5:8: “Mas, se
alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a
fé, e é pior do que o infiel.” A fé que canta no culto, mas abandona os seus
idosos sem cuidado, precisa ser examinada diante de Deus. Não porque sejamos
salvos pelas obras, mas porque a graça que nos alcança em Cristo também nos
ensina a amar de forma concreta.
Ao mesmo tempo, é preciso dizer com cuidado pastoral: honrar pai e mãe não
significa obedecer ao pecado, encobrir abuso, permitir manipulação destrutiva
ou negar feridas profundas. Há histórias familiares muito dolorosas. Há pais
que foram negligentes, violentos, ausentes ou cruéis. Nesses casos, a honra
pode não assumir a forma de proximidade sem limites, mas ainda deve fugir da
vingança, do desprezo e da desumanização. Às vezes, honrar será garantir
cuidado básico com prudência, manter limites seguros, buscar orientação
pastoral e, quando necessário, apoio profissional e jurídico. O mandamento de
Deus nunca exige que uma pessoa se coloque novamente em situação de abuso.
Também é importante lembrar que o quinto mandamento é mais amplo do que a
relação entre filhos e pais biológicos. A tradição reformada reconheceu que
“pai e mãe” também aponta para aqueles que são superiores em idade, dons e
autoridade, incluindo os mais velhos entre nós. Isso significa que uma igreja
saudável não trata os idosos como peças antigas de um museu religioso, mas como
pessoas dignas, portadoras de história, sabedoria, dores e esperança.
Vivemos numa cultura que valoriza juventude, produtividade e aparência. O
idoso, muitas vezes, é visto como peso. Mas Deus não mede a dignidade de uma
pessoa pela sua força, velocidade, memória ou capacidade de produzir. O Senhor
diz em Isaías 46:4: “E até à velhice eu serei o mesmo, e ainda até às cãs eu
vos carregarei.” Que consolo precioso: antes de falarmos sobre como devemos
carregar os idosos, precisamos lembrar que Deus carrega o seu povo até a
velhice.
A igreja precisa aprender a olhar para os idosos não apenas como pessoas que
“já serviram”, mas como ovelhas que ainda precisam ser pastoreadas, amadas,
ouvidas e incluídas. Um bom cuidado pastoral não se contenta em conversar
apenas com os fortes e ativos; ele observa os idosos, os jovens, os cansados,
os cuidadores, os esquecidos. Um material pastoral sobre pregação reformada
lembra que devemos ter interesse genuíno pelas pessoas, visitar os idosos,
descobrir o que os magoa, o que os tenta, e aprender a amar observando e
ouvindo.
Há também um chamado aos filhos adultos. Muitos carregam culpa porque não
conseguem fazer tudo. Outros carregam ressentimento porque sentem que estão
sozinhos enquanto irmãos se ausentam. Outros estão exaustos por serem
cuidadores principais de um pai ou mãe enfermo. O Senhor vê esse peso. Cuidar
de idosos é uma obra de misericórdia, mas não deve ser romantizada como se não
custasse lágrimas. Quem cuida também precisa ser cuidado. A igreja deveria ser
lugar onde esses filhos encontram oração, aconselhamento, descanso possível e
ajuda concreta.
E há uma palavra aos idosos também. Envelhecer em Cristo é uma vocação. A
velhice pode trazer perdas, mas não remove o chamado à fé, à mansidão, à oração
e ao testemunho. Muitos idosos servem a igreja não porque conseguem fazer
muitas atividades, mas porque carregam uma vida de fidelidade, intercedem em
secreto, aconselham com humildade e mostram aos mais jovens que Cristo sustenta
até o fim. “Na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e florescentes”, diz o
Salmo 92:14.
No fim, honra aos pais e cuidado com os idosos nos levam ao evangelho.
Cristo, mesmo sofrendo na cruz, olhou para Maria e confiou sua mãe aos cuidados
do discípulo amado. Ali vemos o Filho perfeito honrando sua mãe, mesmo na hora
da dor. E vemos também algo maior: na cruz, Jesus cuida de uma nova família
formada pela graça. A igreja é essa família redimida, chamada a não abandonar
os fracos, os viúvos, os enfermos, os esquecidos e os idosos.
Que o Senhor nos livre de uma fé apressada demais para sentar ao lado de um
velho, ocupada demais para visitar um pai enfermo, espiritual demais para
trocar uma fralda, preparar uma comida, ouvir uma história repetida ou segurar
uma mão enrugada. A verdadeira piedade desce ao chão da casa, entra no quarto
do idoso, honra a memória, perdoa o que precisa ser perdoado, estabelece
limites quando necessário e serve com os olhos postos em Cristo.
Porque, no Reino de Deus, cuidar dos idosos não é atraso na missão. É parte
da missão. E honrar pai e mãe não é nostalgia familiar. É obediência ao Deus
que nos amou quando éramos fracos, dependentes e necessitados de graça.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa
©2026
Que boa palavra sobre " honrar os pais ". Vivi isso com meu amado pai ..foi um aprendizado!
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