Por que, nos momentos em que mais necessitamos
de Deus, sua presença parece tão distante?
Talvez a reflexão precise
começar por uma distinção muito importante: uma coisa é a presença real de
Deus; outra é a nossa percepção dessa presença. Nos momentos de dor, as duas
parecem se confundir. Como não sentimos consolo, concluímos que Deus se afastou.
Como a oração parece bater no teto, pensamos que Ele deixou de ouvir. Como o
coração permanece angustiado, imaginamos que fomos abandonados.
A Bíblia, porém, não trata
essa experiência como algo estranho à fé. Os salmos estão cheios de crentes que
amavam profundamente o Senhor e, ainda assim, perguntavam: “Por que te
esqueceste de mim?” O salmista do Salmo 42 conversa com a própria alma abatida.
Jó procura Deus e não consegue percebê-lo. Jeremias chora. Elias se deita
debaixo de uma árvore e deseja morrer. Esses homens não eram incrédulos
fingindo ter fé. Eram servos de Deus atravessando uma escuridão que afetava sua
capacidade de enxergar aquilo que continuava sendo verdadeiro.
A dor estreita nossa visão.
Quando estamos cansados, enlutados, ansiosos ou feridos, o coração passa a
interpretar toda a realidade a partir daquela ferida. Isso não significa
necessariamente rebeldia ou falta de fé. Somos criaturas frágeis, corpo e alma.
Sempre precisamos de oração e, em certas ocasiões, também precisamos dormir,
alimentar-nos, conversar, chorar e receber cuidado. Quando Elias desabou, o
Senhor não começou repreendendo-o. Primeiro lhe deu descanso e alimento; depois
tratou de seu coração e falou com ele. Há uma delicadeza de Deus que nem sempre
percebemos enquanto estamos no chão.
Também é verdade que, em
algumas ocasiões, o pecado não confessado enfraquece nossa comunhão com Deus. O
crente não perde sua união com Cristo a cada queda, mas pode perder a alegria,
a liberdade e o consolo daquela comunhão. Por isso Davi orou: “Torna a dar-me a
alegria da tua salvação” (Sl 51.12, ARC).
Contudo, seria cruel concluir
que toda sensação de distância é consequência direta de algum pecado
específico. Jó sofreu sem que sua dor pudesse ser explicada dessa maneira.
Jesus corrigiu a ideia de que todo sofrimento revela necessariamente uma culpa
particular. Antes de acusarmos a consciência, precisamos examiná-la diante da
Palavra, com sinceridade, mas também com misericórdia. Devemos confessar o
pecado que a Escritura realmente revela, sem inventar culpas que Deus não
imputou.
Há ainda momentos em que Deus
pode permitir que os consolos sensíveis diminuam. Não porque tenha deixado de
amar seus filhos, mas porque, em sua sábia providência, pode usar esses
períodos para ensinar a fé a descansar em suas promessas, e não apenas na experiência
emocional.
A tradição reformada
reconhece que a segurança e o consolo do crente podem ser abalados por
tentações, negligências, pecados e períodos em que Deus parece esconder a luz
de sua face. Contudo, o Senhor não abandona nos seus a obra da graça. A
Confissão Batista de 1689 ensina, em seu capítulo 18, que a segurança do crente
pode ser enfraquecida ou interrompida por algum tempo; ainda assim, ele não é
completamente destituído da semente de Deus, da vida da fé, do amor a Cristo e
aos irmãos. O mesmo documento, em seu capítulo 1, afirma que Deus deu as
Escrituras para preservar e consolar sua Igreja contra a corrupção da carne, a
malícia de Satanás e as pressões do mundo.
Isso significa que, em certos
dias, a fé terá de dizer: “Eu não consigo sentir que Deus está perto, mas não
chamarei Deus de mentiroso por causa do que estou sentindo.” Essa não é uma
negação da dor. É uma fé que chora agarrada à promessa.
Os sentimentos são reais, mas não são infalíveis.
A Palavra continua dizendo:
“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem-presente na angústia” (Sl
46.1, ARC). Refúgio não significa ausência de guerra; significa proteção no
meio dela. Fortaleza não significa que não haverá medo; significa que o medo
não terá a palavra final.
No centro dessa pergunta está
o próprio Cristo. Na cruz, Jesus clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?” (Mc 15.34, ARC). Ele não apenas entrou na profundidade da
angústia humana; como nosso Mediador, suportou judicialmente a maldição e a ira
devidas aos pecados de seu povo. Ele foi feito maldição por nós, levou sobre si
nossas iniquidades e ofereceu-se como sacrifício substitutivo.
Esse desamparo, porém, não
significou ruptura na essência da Trindade, como se o Filho tivesse deixado de
ser um com o Pai. O Filho eterno permaneceu inseparavelmente unido ao Pai em
sua natureza divina. O abandono da cruz foi penal, pactual e mediatorial:
Cristo suportou, em nosso lugar, o juízo que nos era devido.
Por isso, seu clamor não deve
ser reduzido à mera solidariedade com nossa dor. Na cruz, Ele não foi apenas
nosso companheiro de sofrimento; foi nosso Substituto, Cordeiro e Redentor.
Sua ressurreição corporal
mostrou que o silêncio do sábado não significava o fracasso do Pai. Deus estava
agindo mesmo quando ninguém conseguia vê-lo. Cristo venceu a morte, ascendeu
aos céus e agora vive para interceder por seu povo. Temos um grande Sumo
Sacerdote que conhece nossas fraquezas e permanece diante do Pai em nosso
favor.
Por isso, quando a presença
de Deus parecer distante, não tente fabricar sensações espirituais. Fale com
Ele com honestidade. Ore os salmos de lamento. Confesse o pecado que a Palavra
realmente revelar, mas não invente culpas. Permaneça perto da igreja, porque o
isolamento aumenta a voz da escuridão. Deixe irmãos maduros carregarem parte do
peso. Procure seu pastor. Receba também os cuidados ordinários que Deus concede
por meio do descanso, da alimentação, da amizade, da medicina e do
aconselhamento responsável.
E, quando nem mesmo conseguir
organizar uma oração, lembre-se de que o Espírito “intercede por nós com
gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26, ARC) e de que Cristo “vive sempre para
interceder” por aqueles que se chegam a Deus por meio dele (Hb 7.25).
Talvez você não consiga dizer
hoje: “Eu sinto Deus muito perto.” Mas ainda pode dizer: “Embora eu não o
perceba, pertenço a Cristo e esperarei nele.”
A fé cristã não é a certeza de que sempre
sentiremos a mão de Deus. É a certeza de que, mesmo quando não a sentimos, a
mão de Deus não nos soltou.
Soli Deo
Gloria!
✍️
Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
Que bênção de Palavra!!!!!!!!
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