“Qual é o propósito da oração quando ela parece não ser respondida?”
Essa pergunta nasce, quase
sempre, não da curiosidade, mas da dor. É a pergunta de quem orou pela cura e a
doença continuou; pediu reconciliação e a distância aumentou; clamou por uma
porta aberta e encontrou silêncio. Nesses momentos, a oração pode começar a
parecer inútil, como palavras lançadas ao céu sem qualquer retorno.
Mas a oração nunca foi
apresentada nas Escrituras como uma técnica para controlar os acontecimentos.
Orar não é colocar Deus em dívida conosco nem tentar submeter sua vontade à
nossa. É aproximar-se dele como Pai, por meio de Cristo, reconhecendo ao mesmo
tempo sua bondade, sua sabedoria e sua soberania.
Jesus nos ensinou a dizer não
apenas: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, mas também: “Seja feita a tua
vontade” (Mateus 6:10–11). A oração cristã pede com confiança, mas não exige
com arrogância. O Catecismo Maior de Westminster ensina que devemos orar com
fé, sinceridade, fervor, amor e perseverança, esperando em Deus com humilde
submissão à sua vontade.
Isso não significa que toda
oração aparentemente não respondida tenha a mesma explicação. As Escrituras
mostram que alguns pedidos podem nascer de desejos desordenados: “Pedis e não
recebeis, porque pedis mal” (Tiago 4:3). Outros podem não estar de acordo com a
vontade de Deus, pois devemos pedir “segundo a sua vontade” (1 João 5:14). Há
ainda situações em que Deus adia ou nega aquilo que desejamos para cumprir
propósitos mais sábios, santos e misericordiosos do que conseguimos perceber.
Quando a oração parece não
respondida, um de seus propósitos continua sendo manter-nos perto de Deus. Há
orações pelas quais o Senhor muda as circunstâncias, mas há outras pelas quais,
antes de tudo, ele sustenta o coração dentro delas.
Paulo pediu três vezes que o
seu “espinho na carne” fosse retirado. A resposta não foi a remoção do
sofrimento, mas a promessa de Cristo: “A minha graça te basta, porque o meu
poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12:9). Deus não concedeu exatamente
o que Paulo havia pedido, mas também não o abandonou. Deu-lhe graça suficiente
para perseverar e fez da fraqueza ocasião para a manifestação do poder de
Cristo.
Isso não significa que
devemos fingir que a espera não dói. A Bíblia nos permite lamentar. O salmista
pergunta: “Até quando te esquecerás de mim, SENHOR?” (Salmo 13:1). Essa
pergunta não é necessariamente ausência de fé. É a fé ferida ainda se dirigindo
a Deus.
O lamento da fé, mesmo
atravessado por lágrimas, permanece diante do Senhor. Ele não esconde a dor,
mas também não abandona aquele a quem clama. Continuar orando é confessar: “Eu
ainda creio que és o único a quem posso recorrer.”
A oração também expõe e
transforma nossos desejos. Muitas vezes chegamos à presença de Deus querendo
apenas que ele mude determinada situação. Aos poucos, porém, o Senhor começa a
tratar também aquilo que está acontecendo dentro de nós: nossos medos, ídolos,
pressas, ressentimentos e falsas seguranças.
A oração se torna mais pura
quando nossa vontade deixa de tentar impor-se a Deus e aprende a descansar na
vontade daquele que conhece nossas necessidades antes mesmo de pedirmos. Isso
não elimina o pedido nem torna a dor menos real. Transforma o pedido em súplica
de filho, dirigida a um Pai conhecido, por meio do Filho que nos abriu o
caminho até ele.
O maior exemplo encontra-se
no próprio Cristo, no Getsêmani. Ele não escondeu sua angústia: “Meu Pai, se é
possível, passe de mim este cálice”. Mas acrescentou: “Todavia, não seja como
eu quero, mas como tu queres” (Mateus 26:39).
A submissão de Jesus não
tornou sua oração menos sincera. Ele expressou toda a verdade de seu sofrimento
e entregou-se com perfeita confiança à vontade do Pai. Contudo, Cristo não é
apenas nosso exemplo de submissão. Ele é também nosso Salvador e Mediador.
O cálice diante dele não
representava somente sofrimento físico, mas o juízo que ele assumiria
voluntariamente em favor de seu povo. Por sua obediência, morte substitutiva e
ressurreição, Cristo abriu para nós o acesso ao Pai. É por isso que podemos nos
aproximar “com confiança ao trono da graça” (Hebreus 4:16).
Quando oramos, portanto, não
nos apresentamos diante de Deus apoiados em nossa dignidade, na intensidade de
nossa fé ou na perfeição de nossas palavras. Aproximamo-nos pelos méritos de
Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote, que “vive sempre para interceder” por
aqueles que chegam a Deus por meio dele (Hebreus 7:25).
Mesmo quando não sabemos orar
como convém, não estamos abandonados. Cristo intercede por nós à direita de
Deus (Romanos 8:34), e o Espírito nos assiste em nossa fraqueza (Romanos 8:26).
O aparente silêncio de Deus não significa ausência de mediação, abandono ou
indiferença.
Por isso, quando a oração
parece não respondida, seu propósito não desapareceu. Ela continua sendo
comunhão, dependência, lamento, perseverança, santificação e entrega. Ela nos
impede de sofrer como se estivéssemos sozinhos. Leva nosso coração repetidamente
à presença daquele que vê mais longe do que nós e governa todas as coisas com
perfeita sabedoria.
A esperança cristã final não
repousa na obtenção de determinada resposta, mas no caráter de Deus revelado em
Cristo. O maior bem da oração não é fazer Deus conformar-se à nossa vontade,
mas conduzir-nos, pela graça, a confiar na vontade daquele que entregou seu
próprio Filho por nós.
Talvez uma das orações mais
honestas para esses momentos seja:
“Senhor, eu não compreendo
teu silêncio. Ainda desejo aquilo que tenho pedido. Examina meu coração,
corrige meus desejos e ajuda-me a não fugir de ti. Sustenta-me enquanto espero.
Faze a tua vontade e não permitas que meu coração se afaste de tua presença.
Recebe-me por meio de Cristo, meu Salvador e Intercessor. Amém.”
Essa oração talvez não transforme imediatamente a
circunstância, mas mantém a alma voltada para o Pai. E essa perseverança não é
produto de nossa força: é obra da graça de Deus em nós.
Soli Deo
Gloria!
✍️
Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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