Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
quando você ouve a
palavra “comunhão”, o que vem à mente? Um cafezinho depois do culto? Uma
conversa rápida no corredor da igreja? Um grupo de WhatsApp com versículo de
bom dia? Tudo isso pode ser bom, claro. Mas, se a gente abrir a Bíblia com
calma, vai perceber que a noção de koinonia
vai muito além de simpatia, afinidade ou socialização. Comunhão, na linguagem
do Novo Testamento, é coisa profunda: é participação concreta na vida do outro,
é quando as histórias começam a se misturar, os afetos se entrelaçam e até os
recursos passam a ser compartilhados por causa de Cristo.
A palavra koinonia aparece, por exemplo, em Atos 2.42:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas
orações”. Ali não se trata apenas de um povo que gosta de estar junto; é um
povo que passou a pertencer um ao outro por causa do evangelho. Logo em
seguida, Lucas descreve o que isso produzia na prática: “Todos os que criam
estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens,
distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade” (At
2.44-45). Percebe? A comunhão não ficou no sentimento; desceu até o bolso, a
agenda, a casa, o corpo.
Koinonia é uma palavra que carrega a ideia
de compartilhar, ter parte em algo, participar junto. Por isso, o Novo
Testamento fala de comunhão com o Pai e com o Filho (1Jo 1.3), comunhão no
evangelho (Fp 1.5), comunhão nos sofrimentos de Cristo (Fp 3.10), comunhão na
fé (Fm 6), comunhão no serviço aos santos (2Co 8.4; Hb 13.16). Não é só “gostar
das mesmas coisas”, é ter a mesma Vida passando por nós. É como se o Espírito
Santo fosse costurando existências antes soltas, até formar um tecido único,
onde os fios já não podem mais ser separados sem que o pano se rasgue.
Talvez ajude pensar
assim: amizade é quando eu aprecio a presença do outro; koinonia é quando eu me envolvo com a vida do outro. Na
amizade, posso escolher ficar só na superfície, rindo junto, mas protegendo
minhas dores, minhas lutas, meu tempo, meu dinheiro. Na koinonia, eu me deixo afetar. A alegria do irmão mexe
comigo, a dor dele me alcança, a necessidade dele me inquieta, ao ponto de
reorganizar prioridades. A comunhão bíblica cria um tipo de “interpenetração”
de histórias: a sua história passa a fazer parte da minha, e a minha passa a
fazer parte da sua, porque ambas agora estão escondidas em Cristo (Cl 3.3).
É isso que vemos,
por exemplo, em 2Coríntios 8 e 9, quando Paulo fala da oferta dos irmãos da
Macedônia. Ele usa a palavra koinonia
para descrever a participação deles no socorro aos santos. Eles não enviaram só
dinheiro; enviaram afeto, cuidado, envolvimento. O recurso era apenas a forma
visível de um amor invisível que o Espírito já tinha gerado. Comunhão, então,
não é apenas sentar-se lado a lado no culto; é carregar lado a lado os fardos
da vida (Gl 6.2).
E aqui a gente
precisa ser honesto: esse tipo de comunhão assusta. Porque koinonia implica risco. Para que minha vida se misture com a
do outro, eu preciso abrir portas que, por natureza, prefiro trancar: a porta
do orgulho, da privacidade absoluta, do “cada um cuida do que é seu”, do “não
quero me envolver”. Mas Cristo não nos salvou para a segurança de uma fé
individualista; Ele nos chamou para o desconforto santo de sermos corpo. Ele
mesmo disse: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor
uns aos outros” (Jo 13.35). Amor que fica só em palavras não se sustenta; cedo
ou tarde, é colocado à prova na partilha de tempo, de atenção, de recursos, de
lágrimas.
A koinonia bíblica também é comunhão de
afetos. Numa igreja assim, ninguém precisa sorrir o tempo todo para ser aceito.
O irmão pode chegar cansado, a irmã pode confessar que está em dúvida, o jovem
pode admitir que está lutando contra o pecado. E, em vez de olhares de
julgamento, encontra braços que acolhem, ouvidos que escutam, bocas que oram.
Paulo descreve isso de modo tão simples e profundo: “Alegrai-vos com os que se
alegram; chorai com os que choram” (Rm 12.15). Isso é koinonia: não assistir a vida do outro como quem vê um filme
distante, mas se deixar afetar por ela.
Mas nada disso é
possível sem olharmos primeiro para Cristo. Antes de existir qualquer comunhão
entre nós, existe uma comunhão dada por Ele: “Deus é fiel, pelo qual fostes
chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (1Co 1.9). A koinonia começa aqui: Deus nos faz
participar de Cristo, unir-nos a Ele, enxertar-nos nEle como ramos na videira
(Jo 15.1-5). A partir dessa união, tudo o mais é consequência. Somos perdoados,
adotados, unidos ao Filho; então, somos chamados a viver como irmãos e irmãs,
porque temos o mesmo Pai. É por isso que a comunhão com o outro sempre será, no
fundo, um transbordar da comunhão com Cristo.
Na cruz, Jesus
viveu o extremo dessa comunhão: Ele se identificou com a nossa miséria, tomou
sobre si o nosso pecado, entrou em nossa história quebrada para nos dar parte
na sua história perfeita. Ele se deixou “interpenetrar” pelas nossas dores para
que fôssemos envolvidos pela sua graça. Antes de nos pedir que repartamos
nossos recursos, Ele derramou o seu sangue. Antes de nos chamar a abrir a casa
e o coração, Ele abriu o próprio lado. É olhando para esse Cristo que a palavra
koinonia deixa de ser conceito bonito e
vira chamado concreto.
Talvez hoje o
Espírito esteja te lembrando de alguém com quem você precisa viver essa
comunhão de forma mais real: um irmão que sofre e você tem mantido à distância;
uma irmã que luta sozinha; alguém com quem você convive na igreja, mas nunca
passou do “paz do Senhor”. Talvez signifique abrir a agenda para ouvir,
preparar uma refeição, fazer uma visita, compartilhar um recurso, pedir perdão,
ou até ter coragem de dizer: “Eu também estou fraco, ora por mim?”. Koinonia é esse movimento humilde: eu vou na
direção do outro e deixo o outro vir na minha direção, sob o senhorio de
Cristo.
Que o Senhor nos
livre de uma “comunhão de corredor”, educada, simpática, mas rasa. E que Ele
nos dê graça para viver a koinonia que a
Bíblia descreve: participação concreta na vida do outro, histórias que se
entrelaçam, afetos que se encontram, recursos que circulam, tudo isso
sustentado pela comunhão mais preciosa de todas — a comunhão com o próprio
Cristo.
Que Ele faça da nossa igreja, da sua casa, do seu coração,
um lugar onde ninguém precise caminhar sozinho, porque o Evangelho nos ensinou
a repartir não só o pão, mas a própria vida. E que, enquanto caminhamos assim,
o mundo possa olhar e dizer: “Ali está um povo que realmente participa uns dos
outros — ali Jesus está no meio deles”. Amém.
Pr. Jorge R. Lisboa
Amém! Importante assunto para refletir e buscar ajuda no Senhor para praticar.
ResponderExcluirQue texto esclarecedor sobre o que significa, na prática, ter comunhão com os irmãos. Que Deus nos capacite cada dia a viver esta realidade. Senti falta da oração no final 🤗
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