sábado, 29 de novembro de 2025

A razão para cantar mesmo na dor.

 Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

talvez, enquanto você lê estas linhas, cantar pareça a coisa mais improvável do mundo. Quando a alma está apertada, a garganta fecha junto. O coração pesa, o corpo cansa, os olhos ardem… e alguém fala de louvor. A primeira vontade é dizer: “Mas você sabe o que eu estou vivendo?”. Vamos caminhar devagar por isso?

A Bíblia não esconde a dor. Jó rasga as vestes. Davi pergunta: “Até quando, Senhor?” (Sl 13). Jeremias chora em voz alta. O próprio Senhor Jesus sua sangue no Getsêmani. A Palavra não nos manda ignorar a dor, mas nos convida a atravessá-la com Deus. E é justamente aí que o cântico entra: não como negação da realidade, mas como resposta à realidade de quem Deus é.

Pensa em Paulo e Silas. Eles não estão num retiro espiritual, estão numa prisão. Feridos, injustiçados, amarrados ao tronco. Ainda assim, Lucas escreve algo que nos desconcerta: “Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus” (At 16.25). Não foi porque a dor era pequena, mas porque o Deus deles era grande. A cadeia não mudou quem Deus era. O açoite não apagou as promessas. A meia-noite deles ainda estava debaixo da soberania do mesmo Senhor que governa o meio-dia.

Uma das razões para cantar mesmo na dor é essa: Deus não muda quando a nossa história muda. A figueira pode não florescer, a videira pode não dar o seu fruto, o curral pode ficar vazio, mas o profeta Habacuque nos ensina uma outra palavra: “todavia” – “todavia, eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação” (Hc 3.17-18). Cantar no meio da dor é, no fundo, dizer esse “todavia” em forma de melodia. É confessar: “Eu não entendo tudo, mas conheço Quem me sustenta”.

Há outra razão profunda: nós seguimos um Salvador que cantou a caminho da dor. Antes de ir ao Getsêmani, sabendo da cruz que se aproximava, Jesus e os discípulos cantam um hino (Mt 26.30). O caminho da ceia até a cruz passa por um cântico. E Hebreus nos lembra que agora o próprio Cristo, em nosso meio, “canta louvores” ao Pai no meio da congregação (Hb 2.12). Ele não só manda você cantar; Ele canta com você. Quando a sua voz falha, a dEle não falha. Quando o seu coração oscila, o dEle permanece firme.

Cantar na dor, então, não é um esforço heroico isolado, é participar do cântico de Cristo. Ele já atravessou o vale mais escuro, já sentiu o abandono, já carregou o peso do pecado e da morte. Na cruz, tudo parecia silêncio de Deus, mas ali nascia a canção mais profunda da história: “Está consumado”. A maior dor já vivida se tornou a base da nossa maior esperança. Se Deus transformou a cruz em ressurreição, Ele é capaz de transformar o nosso gemido em louvor, ainda que hoje pareça só um fio de voz.

Talvez, na prática, cantar hoje não seja abrir a boca com força, mas deixar escapar um sussurro quebrado. E Deus recebe. O Senhor não despreza um coração quebrantado e contrito (Sl 51.17). Às vezes você vai cantar chorando, às vezes sem sentir nada, apenas obedecendo. Mas o cântico, nesses dias, é mais do que sentimento: é ato de fé. É como fincar uma estaca no chão da alma e dizer: “Aqui é o lugar onde eu escolho confiar, mesmo sem ver”.

Por isso é tão precioso cantar com o povo de Deus. A igreja não é plateia que assiste a um show; é família que reparte vida. Quando nos reunimos e abrimos a boca juntos, não repartimos só letras e melodias: partimos e repartimos a própria vida nos cânticos, como quem reparte pão numa mesa de famintos. Há domingos em que você entra sem força para cantar, mas o irmão ao lado empresta a voz, e o cântico da igreja carrega o seu coração por um tempo. Amanhã pode ser o contrário, e então é você quem sustenta o outro. É assim que Deus cuida dos seus: fazendo da comunhão um lugar onde lágrimas, orações e músicas se misturam.

E há ainda uma terceira razão para cantar na dor: nós já sabemos o final da história. A Bíblia nos mostra uma multidão que nenhum de nós consegue contar, de todas as nações, diante do trono, cantando ao Cordeiro. Lá, Deus enxugará dos olhos toda lágrima (Ap 21.4). Hoje nossos cânticos ainda têm soluços, mas eles já são ensaios do coro eterno. Cada vez que você canta sofrendo, você está dizendo ao seu próprio coração: “Minha dor não é a última palavra. A última palavra é ‘Aleluia’”.

Meu irmão, minha irmã, talvez hoje tudo em você grite para ficar em silêncio. Se for assim, não se culpe por não conseguir cantar alto. Comece pequeno. Quem sabe, uma simples frase de um salmo, repetida baixinho. Quem sabe uma canção antiga que marcou a sua caminhada com Deus. Entregue a Ele o pouco que você consegue. A graça de Deus não exige vozes fortes, exige corações dependentes.

Que o Senhor, que conhece sua história inteira, visite sua dor com presença, e no tempo dEle vá colocando um cântico novo em seus lábios (Sl 40.1-3). Que, mesmo entre lágrimas, o Espírito Santo sopre em você esse “todavia” da fé: “Ainda assim, eu confiarei. Ainda assim, eu cantarei”. E que, enquanto você caminha, o próprio Cristo seja o Maestro paciente que, passo a passo, afina o seu coração para o dia em que toda dor cessará e o cântico nunca mais será interrompido.

Pr. Jorge R. Lisboa 

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