Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
quem já tentou consolar alguém em meio a uma dor
profunda sabe como as palavras, às vezes, parecem pesadas demais, não é? A
gente até sente vontade de falar, de ajudar, de explicar… mas teme ferir ainda
mais. Outras vezes, justamente o contrário: as palavras escapam, rápidas,
cheias de certeza, e só depois percebemos que não ajudaram em nada.
Em Jó 4:2, lemos assim na ARC: “Se intentarmos
falar-te, enfadar-te-ás? Mas quem poderá conter as palavras?”. É Elifaz quem
diz isso a Jó, no início do seu discurso. Ele olha para aquele amigo arrasado,
coberto de feridas, em silêncio, e parece dizer: “Jó, se eu falar, você vai se
irritar? Mas eu não consigo ficar calado.”
À primeira vista, parece até um gesto de cuidado.
E, de fato, há algo verdadeiro ali: é difícil ficar à frente do sofrimento
calado. É difícil ver alguém desmoronando e não sentir vontade de explicar,
interpretar, encaixar a dor em alguma lógica. Mas, conforme avançamos no livro,
percebemos que as palavras de Elifaz – e dos outros amigos – se tornam cargas
pesadas sobre os ombros de Jó. No fundo, a teologia deles tinha uma conta
simples demais: “Se você sofre assim, deve ter feito algo grave. Deus está apenas
te dando o que merece.”
Percebe o perigo? Começa com uma pergunta
aparentemente sensível: “Se falarmos, você se enfadará?”, mas cede lugar a
frases duras, cheias de julgamento, pouca escuta e pouca compaixão. É um
retrato muito humano. Muitas vezes, fazemos igual. Queremos ser “a voz de Deus”
na dor do outro, mas falamos mais do que ouvimos, concluímos mais do que
oramos, julgamos mais do que choramos junto.
Jó 4:2 nos coloca frente a frente com uma tensão
da vida cristã: há momentos em que é preciso falar… e há momentos em que a
palavra mais sábia é o silêncio. O problema, porém, não é só “falar ou não
falar”; é como falamos e de onde falam as
nossas palavras. Os amigos de Jó falam de uma teologia sem misericórdia, de uma
visão de Deus que não deixa espaço para mistério, nem para dor não explicada.
Não é à toa que, no final do livro, o próprio Senhor diz: “a minha ira se
acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não dissestes de mim o
que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42:7).
Sim, Deus ouve as perguntas de Jó, mas se ira com
as certezas dos amigos. Isso é forte. Jó, em sua dor, fala de um lugar de
quebrantamento. Ele não entende, mas se derrama. Já os amigos falam de um lugar
de segurança orgulhosa: eles “sabem” o motivo da dor do outro, sabem “como Deus
age”. Parece piedade, mas é presunção.
E nós? Quantas vezes, diante da dor alheia – ou
da nossa própria –, corremos para explicações rápidas? “Deus está te ensinando
algo”; “Foi falta de fé”; “Se você tivesse orado mais…”; “Isso é consequência
de tal pecado lá atrás…”. Talvez algumas dessas coisas até possam ser verdade
em alguns casos, mas a pergunta é: é isso que Deus quer que você diga
agora? É isso que o coração ferido precisa escutar neste momento?
Há uma beleza escondida nesse versículo: Elifaz,
por um instante, parece reconhecer o limite das suas palavras: “Se intentarmos
falar-te, enfadar-te-ás?”. Ele sabe que pode cansar, irritar, machucar. E nós
precisamos aprender com esse meio passo de sabedoria, ainda que, na sequência,
ele escorregue.
Quando Jesus anda entre os sofridos do Novo
Testamento, vemos outro modo de se aproximar da dor. Ele não chega com fórmulas
prontas, nem com discursos apressados. À viúva de Naim, primeiro Ele vê,
compadece-se, toca o caixão e só então fala (Lc 7.13-14). Ao cego Bartimeu, Ele
pergunta: “Que queres que te faça?” (Mc 10.51), mesmo sabendo de todas as
coisas. Aos discípulos aflitos, Ele não despeja explicações frias; Ele diz:
“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14.1).
Cristo é o oposto dos amigos de Jó: Ele é o Amigo
perfeito que sabe o que dizer, quando dizer e como dizer. Suas palavras não são
peso a mais, são descanso: “Vinde a mim… e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Ele
não impede a dor, mas nunca desperdiça uma dor. Ele a encontra com verdade e
ternura.
Talvez você esteja hoje em um desses dois
lugares: ou como Jó, tão cansado que qualquer palavra parece pesada demais… ou
como Elifaz, lidando com a dor de alguém e sem saber se fala ou se se cala. Se
você está como Jó, abatido, sem forças para ouvir grandes discursos, saiba:
Deus não precisa de muitas palavras para alcançar seu coração. Às vezes, uma
única verdade, sussurrada com fé, é suficiente: “Ele sabe o caminho que eu
tomo; provando-me, sairei como o ouro” (Jó 23.10).
Se você está mais próximo do lugar de Elifaz, com
vontade de falar, aconselhar, corrigir, lembre-se: antes de abrir a boca diante
dos que sofrem, abra o coração diante de Deus. Peça que Ele ponha um freio nas
palavras que apenas aumentam o peso, e abra caminho para aquelas que, de fato,
apontam para Cristo. Nem toda dor precisa de explicação, mas toda dor precisa
de presença — e, acima de tudo, da presença do Senhor.
Que, ao olharmos para Jó 4:2, aprendamos duas
coisas: a humildade de reconhecer que nossas palavras podem cansar, ferir e
pesar; e a confiança de que, mesmo quando falhamos, há Alguém cujas palavras
nunca erram o alvo, nunca chegam fora de hora, nunca são demais. Que o Espírito
Santo nos torne mais parecidos com Jesus naquilo que dizemos e naquilo que
escolhemos simplesmente viver ao lado, em silêncio, confiando que Deus fala até
quando nós já não sabemos o que dizer.
Que o Senhor, hoje, console o seu coração se você
está cansado de ouvir o que não ajuda, e que Ele também santifique a sua boca,
para que, quando você falar, suas palavras sejam como um copo de água fresca no
calor do sofrimento, apontando sempre para Aquele que é a Palavra viva, cheia
de graça e verdade. Amém.
Pr. Jorge R. Lisboa
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