Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
há momentos na vida em que a gente olha em volta
e tudo parece em pedaços. Planos frustrados, diagnósticos que doem, portas que
se fecham, orações que – aos nossos olhos – parecem não ter sido atendidas.
Nessas horas, frases sobre a soberania de Deus podem soar distantes, quase como
um clichê: “Deus está no controle”. Mas, quando Jó diz, lá no final do livro:
“Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2,
NAA), não é um clichê. É a confissão de alguém que atravessou um vale profundo
demais para brincar com palavras.
Lembra do caminho de Jó? No começo do livro, ele
perde quase tudo: filhos, bens, saúde, honra. O céu, que antes parecia tão
claro, fica encoberto. Jó fala, questiona, lamenta. Ele não é superficial na
dor: rasga suas vestes, rasga o coração, rasga as perguntas. Seus amigos tentam
explicar, encaixar, definir o porquê daquele sofrimento. E, por capítulos
inteiros, a conversa é essa mistura de dor sincera e teologias tortas.
Mas então Deus fala. Não para “prestar contas”,
como se fosse réu no tribunal humano, mas para revelar quem Ele é. Ele não
responde a todas as perguntas de Jó; Ele mostra sua grandeza. Fala do universo,
das estrelas, dos animais, das coisas que o homem não alcança. Em outras
palavras, Deus não explica o sofrimento de Jó em detalhes, mas revela a Jó o
Senhor do sofrimento. E, diante desse Deus que se revela, o coração de Jó se
rende. É nesse contexto que ele diz: “Bem sei eu que tudo podes…”.
Repare no “bem sei”. Jó não está mais falando só
de ouvir dizer. Poucos versículos depois ele reconhece: “Eu te conhecia só de
ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42:5). O sofrimento não foi uma
aula teórica, foi um lugar de encontro. Deus não muda. O que muda é a percepção
que Jó tem dEle. A dor não é romantizada, mas, no meio dela, o Senhor se faz
conhecido de um jeito novo.
“Tudo podes”. Não é apenas que Deus pode
“algumas” coisas, ou “a maioria” delas. Jó confessa um Deus que não perde o
governo, mesmo quando tudo parece desgovernado. Um Deus que, como lemos em
outro lugar, “faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1:11).
Isso não significa que vamos entender esse conselho em todos os detalhes, nem
que a dor deixa de ser dor. Significa que, ainda quando não enxergo o caminho,
há uma mão firme conduzindo a história.
E então ele acrescenta: “e nenhum dos teus
pensamentos pode ser impedido”. A palavra “pensamentos” aqui carrega a ideia de
planos, propósitos, desígnios. É como se Jó dissesse: “Senhor, nada do que Tu
decides fazer pode ser frustrado”. Nem diabo, nem homens, nem tragédias, nem
lágrimas têm poder de cancelar o que Deus decidiu cumprir. O mesmo Deus que diz
em Isaías: “O meu conselho permanecerá de pé, e farei toda a minha vontade” (Is
46:10), é aquele a quem Jó se rende.
Talvez você leia isso e pense: “Mas, se Deus pode
tudo, por que não impediu essa perda? Por que não curou aquela pessoa? Por que
deixou essa história chegar onde chegou?”. Essas perguntas são honestas. Deus
não se assusta com elas. Jó também perguntou, e muito. A diferença é que, no
fim, ele descansa mais na Pessoa de Deus do que nas respostas detalhadas sobre
o porquê de cada acontecimento.
A fé madura não é a que tem todas as explicações
na ponta da língua, mas a que, depois de chorar tudo o que precisa chorar,
consegue dizer: “Eu não entendo, mas eu sei em quem tenho crido” (2Tm 1:12).
Não é resignação fria, é rendição confiante. É o coração que aprende a repetir,
junto com Jó: “Bem sei eu…”.
Talvez hoje você ainda esteja no meio do capítulo
3, 4, 5 da sua história – aqueles capítulos cheios de lamento, confusão, vozes
misturadas. A declaração de Jó em 42:2 parece distante do que você sente. E, no
entanto, a mesma graça que levou Jó até essa certeza é a graça que sustenta
você. O Deus que permitiu a dor foi o mesmo que se aproximou no redemoinho, que
falou, que se deixou conhecer. No ápice da história bíblica, Ele se aproxima
ainda mais, fazendo-se carne, entrando na nossa dor em Jesus Cristo. Na cruz,
vemos o Deus que “tudo pode” escolhendo, em amor, passar pelo sofrimento para
realizar um plano que ninguém poderia impedir: a nossa redenção.
Romanos 8:28 não diz que todas as coisas são
boas, nem que todas as coisas fazem sentido para nós aqui e agora. Mas diz que
“todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”.
Esse “bem” é maior do que conforto imediato; é sermos conformados à imagem do
Filho. E o Deus que começou essa obra, como lemos em Filipenses 1:6, “a
aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”. Se nenhum dos pensamentos de Deus
pode ser impedido, isso inclui o pensamento de graça que Ele teve a seu
respeito, antes da fundação do mundo.
Meu irmão, minha irmã, talvez hoje você não
consiga dizer “bem sei eu” com a clareza de Jó, mas, pela fé, pode começar a
sussurrar: “Senhor, eu não compreendo tudo, mas eu creio que Tu podes tudo. Eu
não alcanço os teus caminhos, mas eu creio que nenhum dos teus planos falha”.
Deus não te pede que finja força; Ele te chama a repousar na força dEle.
Que o Espírito Santo, neste dia, aqueça o seu
coração com essa verdade: o Deus que governa o universo é o mesmo que conhece
suas lágrimas em detalhes. O Deus que não tem seus planos impedidos também não
perderá você pelo caminho. Que, em meio às perguntas que permanecem, essa
certeza vá amadurecendo em você: “Bem sei eu que tudo podes…”. E que, como Jó,
você seja conduzido, passo a passo, de um conhecimento de ouvir falar para um
conhecimento de ver, de experimentar, de descansar.
Que o Senhor faça dessa confissão de Jó a sua
oração também: não como frase pronta, mas como entrega real, humilde,
confiante. E que, enquanto Ele escreve os capítulos que você ainda não leu, seu
coração descanse no Autor que nunca erra a história, nunca perde o controle e
nunca abandona aqueles que são Seus. Amém.
Pr. Jorge R. Lisboa
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