sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Jó 42:2

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

há momentos na vida em que a gente olha em volta e tudo parece em pedaços. Planos frustrados, diagnósticos que doem, portas que se fecham, orações que – aos nossos olhos – parecem não ter sido atendidas. Nessas horas, frases sobre a soberania de Deus podem soar distantes, quase como um clichê: “Deus está no controle”. Mas, quando Jó diz, lá no final do livro: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2, NAA), não é um clichê. É a confissão de alguém que atravessou um vale profundo demais para brincar com palavras.

Lembra do caminho de Jó? No começo do livro, ele perde quase tudo: filhos, bens, saúde, honra. O céu, que antes parecia tão claro, fica encoberto. Jó fala, questiona, lamenta. Ele não é superficial na dor: rasga suas vestes, rasga o coração, rasga as perguntas. Seus amigos tentam explicar, encaixar, definir o porquê daquele sofrimento. E, por capítulos inteiros, a conversa é essa mistura de dor sincera e teologias tortas.

Mas então Deus fala. Não para “prestar contas”, como se fosse réu no tribunal humano, mas para revelar quem Ele é. Ele não responde a todas as perguntas de Jó; Ele mostra sua grandeza. Fala do universo, das estrelas, dos animais, das coisas que o homem não alcança. Em outras palavras, Deus não explica o sofrimento de Jó em detalhes, mas revela a Jó o Senhor do sofrimento. E, diante desse Deus que se revela, o coração de Jó se rende. É nesse contexto que ele diz: “Bem sei eu que tudo podes…”.

Repare no “bem sei”. Jó não está mais falando só de ouvir dizer. Poucos versículos depois ele reconhece: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42:5). O sofrimento não foi uma aula teórica, foi um lugar de encontro. Deus não muda. O que muda é a percepção que Jó tem dEle. A dor não é romantizada, mas, no meio dela, o Senhor se faz conhecido de um jeito novo.

“Tudo podes”. Não é apenas que Deus pode “algumas” coisas, ou “a maioria” delas. Jó confessa um Deus que não perde o governo, mesmo quando tudo parece desgovernado. Um Deus que, como lemos em outro lugar, “faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1:11). Isso não significa que vamos entender esse conselho em todos os detalhes, nem que a dor deixa de ser dor. Significa que, ainda quando não enxergo o caminho, há uma mão firme conduzindo a história.

E então ele acrescenta: “e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido”. A palavra “pensamentos” aqui carrega a ideia de planos, propósitos, desígnios. É como se Jó dissesse: “Senhor, nada do que Tu decides fazer pode ser frustrado”. Nem diabo, nem homens, nem tragédias, nem lágrimas têm poder de cancelar o que Deus decidiu cumprir. O mesmo Deus que diz em Isaías: “O meu conselho permanecerá de pé, e farei toda a minha vontade” (Is 46:10), é aquele a quem Jó se rende.

Talvez você leia isso e pense: “Mas, se Deus pode tudo, por que não impediu essa perda? Por que não curou aquela pessoa? Por que deixou essa história chegar onde chegou?”. Essas perguntas são honestas. Deus não se assusta com elas. Jó também perguntou, e muito. A diferença é que, no fim, ele descansa mais na Pessoa de Deus do que nas respostas detalhadas sobre o porquê de cada acontecimento.

A fé madura não é a que tem todas as explicações na ponta da língua, mas a que, depois de chorar tudo o que precisa chorar, consegue dizer: “Eu não entendo, mas eu sei em quem tenho crido” (2Tm 1:12). Não é resignação fria, é rendição confiante. É o coração que aprende a repetir, junto com Jó: “Bem sei eu…”.

Talvez hoje você ainda esteja no meio do capítulo 3, 4, 5 da sua história – aqueles capítulos cheios de lamento, confusão, vozes misturadas. A declaração de Jó em 42:2 parece distante do que você sente. E, no entanto, a mesma graça que levou Jó até essa certeza é a graça que sustenta você. O Deus que permitiu a dor foi o mesmo que se aproximou no redemoinho, que falou, que se deixou conhecer. No ápice da história bíblica, Ele se aproxima ainda mais, fazendo-se carne, entrando na nossa dor em Jesus Cristo. Na cruz, vemos o Deus que “tudo pode” escolhendo, em amor, passar pelo sofrimento para realizar um plano que ninguém poderia impedir: a nossa redenção.

Romanos 8:28 não diz que todas as coisas são boas, nem que todas as coisas fazem sentido para nós aqui e agora. Mas diz que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”. Esse “bem” é maior do que conforto imediato; é sermos conformados à imagem do Filho. E o Deus que começou essa obra, como lemos em Filipenses 1:6, “a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”. Se nenhum dos pensamentos de Deus pode ser impedido, isso inclui o pensamento de graça que Ele teve a seu respeito, antes da fundação do mundo.

Meu irmão, minha irmã, talvez hoje você não consiga dizer “bem sei eu” com a clareza de Jó, mas, pela fé, pode começar a sussurrar: “Senhor, eu não compreendo tudo, mas eu creio que Tu podes tudo. Eu não alcanço os teus caminhos, mas eu creio que nenhum dos teus planos falha”. Deus não te pede que finja força; Ele te chama a repousar na força dEle.

Que o Espírito Santo, neste dia, aqueça o seu coração com essa verdade: o Deus que governa o universo é o mesmo que conhece suas lágrimas em detalhes. O Deus que não tem seus planos impedidos também não perderá você pelo caminho. Que, em meio às perguntas que permanecem, essa certeza vá amadurecendo em você: “Bem sei eu que tudo podes…”. E que, como Jó, você seja conduzido, passo a passo, de um conhecimento de ouvir falar para um conhecimento de ver, de experimentar, de descansar.

Que o Senhor faça dessa confissão de Jó a sua oração também: não como frase pronta, mas como entrega real, humilde, confiante. E que, enquanto Ele escreve os capítulos que você ainda não leu, seu coração descanse no Autor que nunca erra a história, nunca perde o controle e nunca abandona aqueles que são Seus. Amém.

Pr. Jorge R. Lisboa

 

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