Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
quantas vezes, no meio da correria, você percebe que anda vivendo de cabeça baixa? Olhando mais para o chão do que para o céu. Olhando mais para o próprio cansaço, para as contas, para as notícias ruins, do que para aquilo que Deus está fazendo. É como se a vida fosse um corredor estreito, e tudo o que enxergamos é o próximo problema. Nesse cenário, as palavras de Jesus soam como um chamado que desperta: “Erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa” (Jo 4.35).
O contexto em que Jesus fala isso é bonito e desconcertante. Em João 4, Ele acabou de conversar com uma mulher samaritana — alguém que, aos olhos dos judeus, não contava. Enquanto isso, os discípulos estavam preocupados com comida, com questões práticas. Eles viam apenas o momento imediato, mas Jesus via um campo inteiro de pessoas sendo alcançadas pela graça. Por isso Ele diz, em outras palavras: “Vocês estão distraídos com o pão que passa; levantem os olhos e enxerguem o que o Pai está fazendo agora”.
“Erguei os olhos” é, antes de tudo, um chamado a sair da visão curta. Nosso pecado nos curva para dentro de nós mesmos; somos naturalmente inclinados ao próprio umbigo. A teologia reformada nos lembra disso com seriedade: somos depravados em nosso ser inteiro, inclinados ao egoísmo, incapazes, por nós mesmos, de enxergar a beleza do que Deus faz ao redor. E, ainda assim, é a graça que nos visita, abre os olhos do coração e nos faz ver o mundo não apenas como cenário, mas como campo de missão, como lugar da ceifa do Senhor.
Jesus diz: “a ceifa já chegou”. Não é apenas “chegará um dia”, mas “já”. Há um aspecto de urgência e de privilégio aqui. Ele está dizendo: o Pai está agindo agora, o Espírito está tocando pessoas agora, o evangelho está germinando em corações agora. Os campos já estão brancos, prontos. Em Mateus 9.37-38, Jesus também afirma: “A seara é grande, mas poucos são os ceifeiros. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara”. Repare: a seara é dele. A colheita é dele. A iniciativa é dele. A salvação é obra da graça, mas, em sua bondade, Ele nos chama a participar como ceifeiros.
Talvez você pense: “Mas eu não sei falar, não tenho muitos dons, minha vida é tão simples…”. Lembre-se: os discípulos também eram gente comum, confusa, lenta para entender. A força da ceifa não está na habilidade dos ceifeiros, mas na fidelidade do Senhor da seara. É Ele quem prepara o terreno, é Ele quem faz a semente germinar, é Ele quem dá fruto. Nós apenas entramos no campo que Ele já preparou. Isso nos livra tanto do orgulho quanto do desânimo: não é sobre o tamanho do nosso braço, é sobre o poder do evangelho (Rm 1.16).
“Erguei os olhos” significa olhar, pela fé, para além da própria bolha. Os campos não são só terras distantes em outros continentes; começam na sala da sua casa, no seu condomínio, no seu bairro, no ambiente de trabalho, na escola, na faculdade, na vizinhança onde você passa todo dia. Gente com quem você cruza há anos talvez seja parte desse campo que o Senhor está apontando para você. O colega que parece autossuficiente, a vizinha sempre irritada, o parente que resiste ao evangelho há décadas — tudo isso faz parte desse cenário em que Jesus nos diz: “Veja com os meus olhos; a ceifa já chegou”.
Ao mesmo tempo, levantar os olhos não é um convite ao ativismo sem descanso, mas à obediência confiante. O mesmo Jesus que envia ceifeiros é aquele que promete: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Não ceifamos sozinhos. Ele caminha conosco pelas ruas da cidade, senta-se conosco à mesa das conversas difíceis, sustenta nossa coragem quando as portas parecem fechadas. A soberania de Deus, tão cara à fé reformada, não nos paralisa; ela nos impulsiona: se o Senhor é dono da seara e Senhor da história, nenhum testemunho é em vão, nenhuma oração é desperdiçada, nenhum ato de amor passa despercebido.
Talvez, ao ler isso, você se perceba curvado: pela culpa, pela rotina, pelo medo. Em Cristo, você pode ouvir de novo esse chamado: “Ergue os olhos”. Olhe primeiro para Ele, o Senhor da ceifa, que um dia se fez grão de trigo lançado à terra, morreu e ressuscitou para que uma grande colheita de filhos de Deus fosse reunida (Jo 12.24). Depois, olhe ao redor, e peça: “Senhor, mostra-me os campos que o Senhor quer que eu veja”.
Que o Espírito Santo hoje levante o seu olhar, endireite seu coração cansado e encha você dessa convicção mansa e firme: a ceifa já chegou. Deus está agindo na história, na sua cidade e na sua casa. Que você se veja, em Cristo, não como espectador, mas como ceifeiro alcançado pela graça — alguém que foi colhido primeiro, para agora ajudar, com temor e alegria, a juntar para o celeiro do Pai aquilo que Ele mesmo já preparou. E que, enquanto você caminha, seu coração ore, simples e sincero: “Senhor da seara, eis-me aqui. Abre meus olhos, usa minhas mãos, guarda meu coração. Que eu veja o que o Senhor vê”. Amém.
Pr. Jorge R. Lisboa
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