Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
há palavras que nascem
da teologia bem estudada, e há palavras que brotam de um coração que foi ferido
e cuidado por Jesus. “Meu porto, meu tesouro, meu Jesus querido” é desse
segundo tipo. É o jeito simples de dizer o que a Bíblia inteira anuncia com tanta
força: quando Cristo nos encontra, Ele se torna o lugar onde descansamos, a
riqueza que não se perde, o amor que não nos abandona.
Talvez você esteja
num tempo de ventos fortes. A vida parece mar aberto: ondas de preocupações,
notícias que chegam como tempestade, medos que se agigantam na madrugada. Em
momentos assim, a alma procura um porto. E se você olhar ao redor, vai perceber
quantos “portos” falsos o mundo oferece: segurança no dinheiro, reconhecimento
das pessoas, estabilidade no trabalho, relacionamentos idealizados. Coisas
boas, em si, mas frágeis demais para aguentar o peso do nosso coração. Mais
cedo ou mais tarde, as marés mudam, e esses portos se mostram rasos demais.
A Bíblia, porém, nos
convida a ancorar em outro lugar. O autor de Hebreus fala de uma esperança que
temos em Cristo como “âncora da alma, segura e firme” (Hb 6.19). Âncora da
alma. Porto seguro. Não é bonito apenas como imagem; é verdade sólida. Em Jesus,
Deus nos dá um lugar onde o coração pode atracar, e ali descansar, mesmo que o
mar de fora continue agitado. Não é que as ondas parem; é que, ancorados nEle,
deixamos de ser jogados de um lado para o outro sem direção.
Quando dizemos:
“Meu porto, meu tesouro, meu Jesus querido”, começamos confessando que Ele é
nosso porto. Isso significa reconhecer: “Senhor, eu não dou conta de navegar
sozinho. Eu preciso de um lugar onde eu possa chegar inteiro, com meus medos,
culpas, cansaços, e ser recebido.” E é isso que Jesus faz. Ele mesmo nos
convida: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos
aliviarei” (Mt 11.28). Não é convite para quem está forte, é chamado para quem
já não aguenta o peso da própria bagagem.
Esse porto tem uma
marca: é lugar de graça. Na cruz, Cristo abriu o caminho para que pecadores
cansados e cheios de falhas pudessem chegar diante de Deus sem serem
consumidos. O julgamento que era nosso recaiu sobre Ele. A tempestade da ira
justa de Deus caiu sobre o Filho, para que em Cristo tivéssemos abrigo. É por
isso que, quando o coração é acusado pelo pecado, podemos correr não para
longe, mas para Ele mesmo. O porto não fecha na nossa fraqueza; é justamente
nela que somos chamados a chegar.
Mas Jesus é também
o nosso tesouro. Em um mundo em que tanta coisa brilha, Ele é a riqueza que
permanece quando todos os outros brilhos se apagam. O próprio Senhor contou a
parábola do homem que encontra um tesouro escondido num campo e, “cheio de
alegria”, vende tudo o que tem para comprar aquele campo (Mt 13.44). O que é
isso senão a experiência de quem foi alcançado pelo evangelho? Em Cristo,
encontramos algo tão precioso, tão superior, que tudo o mais, comparado a Ele,
perde o trono do nosso coração.
O apóstolo Paulo,
depois de conhecer Jesus, pôde dizer: “Mas o que para mim era ganho reputei-o
perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela
excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.7-8). Ele não
está dizendo que nada mais tem valor na vida, mas que nada pode ocupar o lugar
de Cristo como tesouro supremo. Tudo o mais é dom; Jesus é o Doador. Tudo o
mais é provisório; Ele é eterno. Tudo o mais pode ser tirado; Ele permanece.
Talvez você tenha
percebido, ao longo da vida, que muitos “tesouros” se desgastam. A saúde, que
um dia foi vigorosa, hoje já não responde. O trabalho, que já te deu tanto
orgulho, talvez hoje seja fonte de cansaço ou insegurança. Pessoas queridas,
que eram quase sinônimo de casa, já partiram. E isso dói, é claro. A fé
reformada não faz de nós gente de pedra; reconhece o peso das perdas, as
lágrimas dos lutos, o corte fundo das ausências. Mas é precisamente nesse chão
real que o Espírito nos ensina a dizer: “Meu tesouro não está limitado às
coisas que passam. Meu tesouro é Cristo. Se eu tenho a Ele, tenho o que não
pode ser roubado.”
E é aqui que a
frase fica ainda mais bonita: “Meu porto, meu tesouro, meu Jesus querido.” Não
é apenas o “Jesus” que sabemos definir em confissões de fé (e é importante
sabê-las!); é o “meu Jesus querido”, o Cristo que é conhecido e amado, não só
estudado. O Deus eterno, santo, soberano, se fez próximo em Jesus. Ele conhece
nossas dores não por ouvir falar, mas por tê-las carregado em carne e osso.
Chorou, cansou, sentiu na pele a rejeição, provou a solidão. Ele é o Senhor da
glória, mas também é o Amigo que não nos abandona.
Chamá-lo de “meu
Jesus querido” não diminui sua majestade; revela a beleza da encarnação. O Deus
infinito se inclinou para nos amar de perto. Em Cristo, podemos dizer, como
Tomé, não apenas “Senhor e Deus”, mas “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20.28). Há
uma intimidade reverente aqui. Não é um “Jesus íntimo” inventado pela nossa
imaginação; é o Jesus das Escrituras, que pela graça se torna nosso Salvador
pessoal, nosso Pastor, nosso Amigo fiel.
Talvez, enquanto
lê, você se sinta distante desse afeto. Você crê, mas não sente; você sabe, mas
parece frio. Não despreze esse incômodo. Ele pode ser o próprio Espírito Santo
despertando em você um clamor: “Senhor, eu quero conhecer-Te assim, como meu porto
e meu tesouro. Eu quero poder dizer com verdade: meu Jesus querido.” Isso não
se constrói com fórmulas, mas com caminho: tempo de Palavra aberta, oração
sincera, vida na comunhão da igreja, arrependimento real, passos de obediência
pequena e cotidiana.
A fé reformada nos
lembra: é Deus quem dá o querer e o realizar (Fp 2.13). Se você deseja amar
mais a Cristo, isso já é evidência da graça operando em você. Vá com esse
desejo para Ele. Conte a Ele sua frieza, sua distração, seu coração dividido.
Ele não rejeita orações honestas. Pelo contrário, o Cristo ressurreto se alegra
em reacender o amor daqueles que se esfriaram, em buscar ovelhas cansadas, em
firmar pés vacilantes.
Querido leitor,
talvez hoje você precise, mais do que de respostas, de um lugar para o coração
descansar; de algo que valha mais do que tudo o que o mundo pode oferecer; de
alguém a quem você possa chamar, sem medo, de “meu Jesus querido”. Pois em
Cristo, tudo isso se encontra junto. Ele é o porto onde a alma cansada pode
atracar. Ele é o tesouro que dá sentido a tudo o que temos e somos. Ele é o
Senhor, mas também o Salvador que se deixa amar.
Que o Espírito
Santo hoje aqueça o seu coração com essa verdade. Que, no meio das tempestades
que você enfrenta, você possa dizer, talvez entre lágrimas, talvez num
sussurro: “Jesus, Tu és o meu porto. Quando tudo balança, em Ti eu encontro
chão.” Que, diante dos falsos brilhos deste mundo, você possa confessar: “Tu és
o meu tesouro. Nada se compara a Ti.” E que, ao longo dos dias, numa caminhada
de fé que às vezes será firme e às vezes trêmula, você aprenda a chamá-lo, com
reverência e afeto: “Meu porto, meu tesouro, meu Jesus querido.”
Que essa seja a canção baixa, mas constante, que acompanha
você, até o dia em que a fé se transformar em visão, e veremos, face a face,
Aquele que hoje amamos sem ver. Amém.
Pr. Jorge R. Lisboa
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