sábado, 29 de novembro de 2025

No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

há dias em que o medo parece ter nome, rosto e peso. Medo do diagnóstico que pode vir, medo do que pode acontecer com os filhos, medo das contas, medo da solidão, medo de cair de novo no mesmo pecado. Às vezes é um medo bem definido; às vezes é só uma angústia difusa, um aperto no peito que a gente nem sabe explicar direito. E, nesses dias, talvez você se sinta culpado por sentir medo, como se o cristão verdadeiro nunca tremesse, nunca vacilasse.

É exatamente aí que o Salmo 56 nos encontra, com esta frase simples e profunda: “No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti” (Sl 56.3).

Repare primeiro numa coisa importante: o salmista não diz “se eu temer”, mas “no dia em que eu temer”. Ele está assumindo que haverá dias assim. Dias em que o coração gela, em que a ameaça parece maior do que nós, em que a fé não soa como grito de vitória, mas como um sussurro cansado. A Bíblia não fantasia a vida espiritual; ela não pinta o crente como um super-herói blindado. Ela mostra homens e mulheres reais, que tremem, mas aprendem onde colocar o coração quando isso acontece.

O contexto de Salmo 56 é de perigo real. O título do salmo nos lembra de Davi cercado pelos filisteus em Gate, em fuga, vulnerável, sem garantia humana de proteção. Ele conhecia o gosto do medo. Não era teoria. E é desse lugar de vulnerabilidade que ele diz: “No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti.” Em seguida, ele completa: “Em Deus, cuja palavra eu louvo, nesse Deus ponho a minha confiança e nada temerei; que me poderá fazer o homem?” (Sl 56.4).

Veja o movimento: do medo para a confiança; do olhar para o perigo para o olhar para Deus. Não porque o perigo some, mas porque Deus se torna maior aos olhos da fé. A teologia reformada insiste nessa verdade: fé não é um sentimento vago de otimismo, é descanso no caráter de um Deus soberano e bom. Eu não confio porque eu sou forte, mas porque Deus é confiável. Eu não deixo de temer porque o problema é pequeno, mas porque meu Deus é infinitamente maior do que tudo o que me assusta.

“No dia em que eu temer” significa que Deus conhece os nossos dias escuros. Ele sabe quando o coração aperta. Ele sabe quando você perde o sono. Ele sabe quando você se sente prestes a desmoronar. E, ainda assim, esse Deus não joga você fora por causa das suas fraquezas. Pelo contrário: é nesse dia que Ele lhe convida a confiar. Não depois que tudo passar, não quando você estiver mais firme, não quando a fé parecer mais bonita, mas justamente ali, no meio do tremor.

Confiar, então, não é sentir-se invencível. É, muitas vezes, dizer com voz trêmula: “Senhor, estou com medo, mas confio em Ti.” É alinhar o coração com aquilo que sabemos ser verdade, ainda que a emoção grite o contrário. Em Isaías 41.10, o próprio Deus diz ao seu povo: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça.” A ordem de não temer vem acompanhada de razões bem claras: Eu sou contigo, Eu sou o teu Deus, Eu te fortaleço, Eu te ajudo, Eu te sustento. É como se Ele dissesse: “Olha para mim, não apenas para o que te assusta.”

E quando olhamos para Cristo, vemos essa confiança encarnada. No Getsêmani, Jesus se angustia a ponto de suar sangue (Lc 22.44). Ele sente o peso do cálice que vai beber, a realidade da cruz, a separação, por um momento, da comunhão do Pai. Não há frieza nem indiferença ali; há dor profunda. Mas, entre lágrimas e agonia, Ele ora: “Pai, não se faça a minha vontade, mas a Tua” (Lc 22.42). Isso é confiar no dia do temor: submeter o coração, a vontade, os caminhos à sabedoria e ao amor do Pai.

A boa notícia do evangelho é que Cristo confiou perfeitamente onde nós falhamos. Ele foi obediente até o fim, sem pecado, para que, quando nós vacilamos, tenhamos um Salvador que intercede por nós. Em vez de dizer: “Como você ainda tem medo?”, Ele diz: “Venha a mim, você que está cansado e sobrecarregado, e eu lhe darei descanso” (Mt 11.28). Em vez de nos rejeitar, Ele nos recebe, nos limpa, nos ensina, nos fortalece. A fé que confia em meio ao medo não nasce de um esforço humano isolado, mas é fruto da graça do Deus que opera em nós “tanto o querer como o efetuar” (Fp 2.13).

Talvez, hoje, o seu “dia do temor” tenha nome bem definido. Você vê a situação à sua frente e pensa: “Eu não dou conta.” E, de fato, talvez você não dê mesmo. Mas a promessa nunca foi que você daria conta de tudo; a promessa é que Deus seria com você em tudo. Paulo ouviu do Senhor: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9). Isso significa que o dia do medo pode se tornar, pela graça, o dia da confiança mais profunda. Porque é ali que você descobre, não na teoria, mas na prática, que Deus é suficiente.

Confiar, então, nesse contexto, é escolher repetir as promessas de Deus para o próprio coração, mesmo quando a alma ainda está inquieta. É abrir a Escritura, encontrar ali o Deus que não muda, e dizer: “Senhor, eu creio; ajuda a minha incredulidade” (Mc 9.24). É derramar o medo em oração, dizendo com honestidade o que dói, e deixar que o Espírito Santo console, corrija, reoriente. É, se necessário, buscar apoio de irmãos na fé, porque Deus também nos sustenta através do corpo de Cristo.

Querido leitor, talvez você se veja fraco demais para orar bonito, para declarar coisas grandes. Então comece simples, comece pequeno. Comece com a própria frase do salmo: “No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti.” Diga isso pela manhã, no meio do dia, à noite. Quando a ansiedade vier, quando a imaginação disparar, volte a essa verdade. Não como um mantra vazio, mas como lembrança viva de que Deus está ali, presente, atento, soberano.

Que hoje o Espírito Santo pegue pela mão o seu coração temeroso e o conduza a essa confiança serena. Que você consiga olhar, ainda que com lágrimas, para Aquele que é maior que o seu medo. E que, na hora em que o temor bater à porta, você possa, pela fé, responder: “Sim, eu temo. Mas não estou sozinho. No dia em que eu temer, hei de confiar em Ti, Senhor.” Que essa seja a canção suave que acompanha seus passos, até o dia em que todo medo for finalmente silenciado na presença plena do nosso Deus. Amém.

Pr. Jorge R. Lisboa

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