Bem-vindos! 🖐️
Às vezes o crente se esconde atrás de frases
piedosas para mascarar um coração acomodado. “Se Deus quiser, Ele fará.” “Se
for da vontade de Deus, vai acontecer.” Essas expressões podem brotar de uma fé
humilde — mas também podem ser o escudo de uma apatia espiritual que chama de
“confiança” aquilo que, na verdade, é desobediência. A providência de Deus não
foi revelada para justificar braços cruzados, mas para fortalecer joelhos
dobrados e mãos ocupadas em obedecer.
A Escritura mantém juntos dois pilares que muitos
querem separar. Paulo escreve: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e
tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo
a sua boa vontade” (Fp 2.12-13). Aqui não há contradição, há harmonia. O mesmo
Deus que decreta o fim, estabelece também os meios. Ele decide salvar, e decide
que o salvo caminhe em obediência. Ele opera em nós o querer e o realizar, mas
manda que nós desenvolvamos aquilo que Ele mesmo plantou.
Veja José, lançado na cova, vendido como escravo,
esquecido no cárcere. No final, ao olhar para a maldade dos irmãos e a
fidelidade de Deus, ele declara: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém
Deus o intentou para bem” (Gn 50.20). A providência de Deus não o fez um homem
passivo. Na prisão, ele serve. No palácio, administra. Na dor, permanece fiel.
A providência não o paralisa; sustenta sua coragem. O mesmo vemos em Ester.
Mardoqueu lhe diz: “Quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?”
(Et 4.14). Deus havia colocado Ester ali; mas Ester precisava entrar à presença
do rei, arriscando a própria vida. Providência não é sofá, é trincheira.
Na teologia reformada, confessamos um Deus que
reina sobre cada átomo. Nada escapa ao Seu decreto eterno. “O nosso Deus está
nos céus; faz tudo o que lhe agrada” (Sl 115.3). Essa soberania não elimina a
responsabilidade humana; antes, a fundamenta. Porque Deus reina, minha
obediência não é inútil. Porque Ele governa, minhas orações não são palavras
jogadas ao vento. Porque Cristo morreu e ressuscitou de fato, meu serviço, meu
testemunho, meu combate contra o pecado têm um sentido eterno. “Portanto, meus
amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor,
sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1Co 15.58).
Na prática, isso significa que você não pode
dizer: “Se Deus quiser salvar minha família, Ele salvará”, e ao mesmo tempo
calar-se sobre o evangelho dentro de casa. Não pode dizer: “Se Deus quiser me
santificar, Ele me mudará”, enquanto alimenta o pecado em segredo, negligencia
a Palavra e despreza a comunhão dos santos. Não pode dizer: “Deus sabe do meu
sofrimento”, e transformar essa verdade em desculpa para abandonar a oração. A
providência não é um travesseiro para preguiça espiritual; é um martelo que quebra
o orgulho e nos chama a obedecer com ousadia, sabendo que Deus dirige a
história.
A cruz de Cristo é o maior exemplo. Pedro declara
que Jesus foi entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus”, mas
acrescenta que foi “crucificado e morto pelas mãos de injustos” (At 2.23). A
morte do Senhor não foi um acidente, foi decreto. Mas isso não diminui a culpa
dos que O pregaram na cruz. Deus estava cumprindo Seu plano redentor e, ao
mesmo tempo, os homens eram responsáveis por sua maldade. Assim também hoje: o
Deus que decreta é o Deus que nos ordena: “Arrependei-vos e crede no evangelho”
(Mc 1.15).
Portanto, descanse na providência, mas não se
esconda atrás dela. Creia que seu Deus abre portas, mas seja fiel quando a
porta abrir. Creia que Ele sustenta, mas levante-se para obedecer. Creia que
Ele está no controle, mas lute contra o pecado, pregue a Cristo, sirva à
igreja, ame o próximo. A providência é o solo firme onde pisa o cristão que
avança.
Que o Senhor nos livre de uma “fé” fatalista e
nos dê a graça de dizer, com coração humilde: “Meu Deus governa todas as
coisas; por isso, levantarei hoje minha cruz e O seguirei com coragem.” E, se
você percebe a própria passividade, clame: “Senhor, que operas em mim o querer
e o efetuar, quebranta meu coração, dá-me arrependimento sincero e faze de mim
um servo obediente, que descansa na Tua soberania enquanto caminha na Tua
vontade.” Amém.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa
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