Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
há dias em que a alma parece andar sem cerca. A
gente continua fazendo as coisas, cumprindo horários, sorrindo quando precisa…
mas, por dentro, existe um tipo de distância: do Senhor, de nós mesmos, do
caminho simples da fé. E, quando percebemos, já estamos longe o bastante para
que a voz do Pastor pareça mais baixa e outras vozes pareçam mais convincentes.
Isaías descreve essa condição com uma frase curta
e dolorosamente verdadeira: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada
um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade
de nós todos” (Is 53.6). Repare: o profeta não diz “alguns”. Ele não poupa
ninguém com exceções carinhosas. “Todos nós.” Há algo profundamente honesto
aqui. O coração humano tem essa tendência antiga de se soltar das mãos de Deus,
como se a liberdade fosse correr sem direção. A ovelha não precisa de um plano
para se perder; basta seguir o impulso do momento, a promessa do capim mais
verde, o convite de uma trilha mais fácil. O nosso desvio, muitas vezes, não
começa com um grande escândalo, mas com pequenas escolhas repetidas que, aos
poucos, nos colocam fora do rebanho.
E Isaías vai ainda mais fundo: “cada um se
desviava pelo seu caminho”. Não é apenas um extravio coletivo; é uma rebeldia
personalizada. O pecado tem esse traço teimoso: eu quero o meu caminho. Minha
vontade no centro. Meu ritmo. Meus critérios. Minha “verdade”. Às vezes, até
carimbamos isso com linguagem religiosa: “Deus entende”, “é só uma fase”, “eu
resolvo depois”. Mas o nome bíblico disso é desvio. É troca do Pastor pelo
próprio instinto. É a criatura tentando ser guia de si mesma.
A imagem da ovelha é perfeita justamente porque
ela combina fragilidade e teimosia. Ovelhas são vulneráveis, mas também
insistem em caminhos que as ferem. E nós também somos assim: frágeis a ponto de
nos quebrarmos facilmente, e obstinados a ponto de repetirmos o que nos quebra.
Por isso, quando Deus expõe o nosso coração, Ele não está sendo cruel; está
sendo fiel. A graça começa quando a verdade nos alcança.
Mas Isaías 53.6 não nos deixa apenas com o
diagnóstico. O evangelho nunca para na ferida; ele vai até o Médico. A frase
muda de direção com um “mas” cheio de luz: “mas o SENHOR fez cair sobre ele a
iniquidade de nós todos”. Aqui está o centro da esperança: Deus não apenas
aponta o nosso extravio; Ele providencia um substituto para a nossa culpa. O
texto não diz que o Senhor ignorou a iniquidade, nem que a varreu para debaixo
do tapete do universo. Diz que Ele a fez cair sobre “ele” — o Servo Sofredor, o
Messias prometido, o Cordeiro de Deus.
Percebe a beleza santa disso? Nós escolhemos o
nosso caminho; Cristo escolheu o caminho da cruz. Nós nos espalhamos; Ele se
entregou. Nós nos desviamos; Ele permaneceu fiel. E, no lugar onde deveria cair
o peso do nosso pecado, caiu sobre Jesus. Isso não é poesia vazia; é justiça e
misericórdia se encontrando na pessoa do Filho. A culpa não foi negada; foi
carregada. A condenação não foi abolida por decreto sentimental; foi absorvida
por sacrifício real.
E é por isso que a Bíblia consegue falar com
tanto consolo aos que se reconhecem desgarrados. Pedro, olhando para Isaías 53,
escreve aos crentes: “porque estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém,
vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma” (1Pe 2.25). Note: não é
apenas “voltar para a igreja”, nem “arrumar a vida”, nem “melhorar o
comportamento”. É converter-se ao Pastor. É retornar à pessoa de Cristo com
arrependimento e fé. É ouvir de novo a voz que chama pelo nome. É descansar,
finalmente, em braços que não soltam.
Talvez você me diga: “Pastor, mas eu me perdi de
novo. Eu prometi que não faria. Eu sabia o caminho.” Sim… e é exatamente por
isso que Isaías diz “todos nós”. O evangelho não se baseia na nossa capacidade
de permanecer; ele se baseia na fidelidade do Pastor que busca. Jesus mesmo
disse: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11).
Não é a ovelha que paga o preço do retorno; é o Pastor. Não é a ovelha que abre
a estrada de volta; é o Pastor que vem ao encontro. A nossa parte é parar de
correr, admitir o extravio, e nos render à graça.
Isso muda, inclusive, a maneira como lidamos com
a culpa. Culpa pode ser uma corrente que nos prende ao passado, ou pode ser um
sino que nos chama ao arrependimento. Em Cristo, a culpa que condena foi
tratada na cruz; e a tristeza que resta pode se tornar uma porta para a
restauração. Quando confessamos, não estamos informando a Deus sobre algo que
Ele não sabe; estamos concordando com Deus sobre o que Ele já disse. E, nessa
concordância, há cura. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para
nos perdoar” (1Jo 1.9). Fiel e justo — porque o perdão não é um favor
improvisado, é o fruto do sangue do Servo que carregou a nossa iniquidade.
Então, deixe-me fazer uma pergunta bem simples:
em que parte do caminho você percebe que começou a se afastar? Foi na oração
que foi ficando rara? Foi na Palavra que foi ficando distante? Foi numa ferida
não tratada que virou amargura? Foi numa “pequena” concessão que você aprendeu
a chamar de normal? Não responda a mim; responda ao Senhor. Porque o mesmo Deus
que diz “vocês se desgarraram” é o Deus que diz “Eu pus sobre meu Filho o
pecado de vocês”. E isso muda tudo: você pode voltar sem fingimento, sem máscara,
sem barganha. Voltar pela fé.
Que hoje, ao ouvir Isaías 53.6, você não escute
apenas a acusação de que se desviou, mas o convite do Deus que providenciou o
Cordeiro. Há um caminho de volta, e ele tem nome: Jesus. Volte ao Pastor. Volte
à cruz. Volte à graça. E, enquanto volta, descanse: o rebanho não é sustentado
pela força das ovelhas, mas pela bondade do Pastor.
Que o Senhor coloque em seu coração a coragem
humilde de dizer: “Eu me afastei”. E, ao mesmo tempo, a fé simples de dizer:
“Mas Cristo carregou”. E que, nesse retorno, você experimente o abraço do Deus
que não abandona os seus, porque “o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de
nós todos” (Is 53.6). Amém.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa
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