terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Cultivar a boa vontade

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

quando falamos em “boa vontade”, talvez logo pensemos em simpatia, gentileza, um jeito mais leve de lidar com as pessoas. Mas, à luz da Bíblia, boa vontade é algo mais profundo: é uma disposição do coração que deseja o bem do outro, mesmo quando isso custa para nós. É um coração que decide, pela graça, não viver armado, desconfiado, sempre na defensiva, mas aberto para abençoar, perdoar, servir.

O ponto de partida, porém, não é o nosso esforço. A boa vontade verdadeira nasce de algo muito maior: da boa vontade de Deus para conosco. Quando os anjos anunciaram o nascimento de Jesus, cantaram: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” (Lc 2.14, ARC). Isso significa que, em Cristo, Deus se revela como Aquele que se inclina para nós com favor, misericórdia, graça. Nós não éramos dignos, não éramos simpáticos, não éramos atraentes espiritualmente. Éramos pecadores, inimigos, afastados. Ainda assim, Deus vem ao nosso encontro com boa vontade – não por causa de nós, mas por causa de Cristo.

Perceba: a boa vontade de Deus não é uma emoção passageira, é uma decisão eterna de amar, salvar e restaurar um povo para si. Ele não olhou para nós e pensou: “Eles merecem uma chance”; Ele decidiu, soberanamente, ter prazer em nos resgatar. É isso que Paulo anuncia quando fala da “boa vontade de Sua vontade” (Ef 1.5), mostrando que a nossa adoção como filhos foi fruto de um querer amoroso de Deus. Antes de falarmos sobre cultivar boa vontade com os outros, precisamos nos lembrar: nós só podemos dar, porque primeiro recebemos.

Mas, como isso desce para a nossa vida diária? Vamos ser honestos: o nosso coração não é naturalmente inclinado à boa vontade. A nossa tendência é outra: guardar mágoa, alimentar suspeitas, interpretar tudo pelo pior lado, olhar o outro com filtros de comparação, crítica ou indiferença. Às vezes, ficamos até surpresos quando alguém faz algo bom “sem interesse”. O pecado deformou tão fundo a nossa percepção que a gente tende a achar que sempre há uma segunda intenção escondida.

É aqui que o evangelho começa a trabalhar. Quando o Espírito Santo nos faz ver o quanto fomos alcançados pela boa vontade de Deus em Cristo, alguma coisa precisa mudar em como olhamos para as pessoas. Paulo exorta: “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou” (Ef 4.32). Bondade e compaixão são frutos dessa lembrança: “como também Deus em Cristo vos perdoou”. Ou seja: quem foi visitado pela boa vontade de Deus é chamado a refletir essa boa vontade ao redor.

Cultivar boa vontade não é fingir que ninguém erra, que ninguém fere, que ninguém decepciona. É justamente no contexto de pecado real, conflitos reais, decepções concretas, que somos chamados a escolher outro caminho. A boa vontade olha para o outro não pela lente da perfeição, mas pela lente da graça: sabe que o outro tem falhas, sim, mas ainda assim decide não transformar cada falha em motivo de sentença definitiva. Decide dar uma nova chance, ouvir de novo, tentar compreender, orar em vez de apenas criticar.

Talvez você tenha, na memória, rostos que imediatamente despertam em você não boa vontade, mas resistência: aquela pessoa que te feriu, o irmão que falou algo atravessado, um familiar que sempre traz lembranças dolorosas, alguém da igreja com quem o relacionamento “travou”. É justamente nesses lugares que o Espírito nos chama a cultivar um outro tipo de olhar. Não é fácil, não é automático, não é natural. Mas é possível, porque não nasce de nós: nasce de Cristo em nós.

Boa vontade tem muito a ver com o jeito que falamos, também. Paulo escreve: “Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens” (Fp 4.5). Uma vida marcada pela boa vontade não vive explodindo, atacando, ironizando, ferindo com palavras. Pelo contrário, procura edificar, mesmo quando precisa confrontar. Não significa ficar calado diante do erro, mas falar sempre com o alvo certo: não destruir o outro, e sim ganhar o irmão (Mt 18.15).

Cultivar a boa vontade também passa por aquilo que alimentamos em nossa mente. Se fico o tempo todo relembrando ofensas, ruminando o que fizeram contra mim, me comparando com os outros, dificilmente o meu coração será disposto ao bem. Por isso Paulo nos orienta a pensar no que é “verdadeiro, honesto, justo, puro, amável, de boa fama” (Fp 4.8). Não é uma fuga da realidade, é escolher não alimentar em nosso interior um tribunal permanente contra todo mundo.

Talvez você pergunte: “Mas, e quando a pessoa realmente foi injusta comigo? E quando ela não se arrepende? E quando continua difícil?”. A boa vontade não elimina a necessidade de verdade, de limites, de sabedoria. Em alguns casos, será necessário manter certa distância, proteger-se de abusos, dizer “não”. A boa vontade não é ingenuidade; é obedecer ao mandamento de amar até os inimigos (Mt 5.44), o que pode significar, em certos casos, apenas orar por eles, não desejar o mal, entregar à justiça de Deus. Não é caminhar lado a lado com quem insiste em destruir, mas também não é alimentar ódio e vingança.

A pergunta que fica para nós é: como cultivar essa boa vontade num mundo tão duro, competitivo, apressado e, muitas vezes, cruel? A resposta bíblica é simples e profunda: permanecendo em Cristo. Ele disse: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Isso inclui cultivar a boa vontade. Se eu não estiver bebendo diariamente da graça, da Palavra, da comunhão com o Senhor, eu vou voltar automaticamente ao padrão da carne: irritação, dureza, indiferença. Mas, quando eu me lembro, em oração, de como fui alcançado, pacientemente tratado, perdoado inúmeras vezes, o Espírito suaviza o meu coração para com os outros.

Querido leitor, talvez hoje você precise começar essa prática de forma bem concreta: lembrar de alguém com quem você tem sido duro, frio, impaciente… e pedir ao Senhor um coração de boa vontade para com essa pessoa. Talvez signifique uma mensagem diferente, um tom mais brando, um perdão liberado, uma oração sincera por ela. Talvez signifique pedir perdão por ter alimentado uma má vontade que o evangelho não autoriza mais você a manter.

Que o Senhor, que nos cercou com a Sua boa vontade em Cristo, ensine-nos a espelhar algo disso nas relações de cada dia. Que Ele cure em nós a tendência de julgar rápido, condenar fácil, desistir cedo dos outros. E que, pouco a pouco, pela obra do Espírito, a boa vontade se torne um traço marcante da nossa vida – não para nossa glória, mas para que outros vejam, através de nós, um reflexo ainda que pequeno da graça de Deus.

Que hoje você possa orar assim: “Senhor, Tu me trataste com boa vontade quando eu não merecia. Não me deixes viver endurecido, desconfiado, preso em mágoas. Amolece o meu coração. Ensina-me a olhar pessoas como Tu me olhaste em Cristo. Que a Tua graça transborde de tal forma em mim, que a boa vontade não seja apenas um discurso bonito, mas um modo real de viver.” E que Ele mesmo responda essa oração, fazendo da sua vida um sinal de Seu amor onde você estiver. Amém.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa 

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