Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
Provérbios 30:8-9
(ARC) é uma daquelas orações que, se levássemos a sério, mudariam a forma como
olhamos para a vida, para o dinheiro, para o futuro e até para nós mesmos. O
texto diz:
“Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa;
não me dês nem a pobreza nem a riqueza;
mantém-me do pão da minha porção de costume;
para que, porventura, de farto, não te negue, e diga: Quem é o Senhor?
ou que, empobrecido, não venha a furtar,
e lance mão do nome de Deus.”
Essas palavras não
são de alguém acomodado, que tem medo de sonhar; são de alguém que conhece o
próprio coração e conhece o perigo das extremidades. É a oração de Agur, um
homem sábio que entendeu que o maior problema não está nas circunstâncias em
si, mas naquilo que as circunstâncias podem revelar e alimentar dentro de nós.
Ele começa pedindo:
“Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa”. Antes de falar de dinheiro, de
ter mais ou menos, ele fala de verdade. Isso é profundo. O mundanismo do nosso
tempo vive de aparência e mentira: imagem sem essência, discurso sem vida, promessas
sem cruz. A vaidade é esse desejo do coração de ser visto, admirado, notado,
mesmo que, por dentro, estejamos vazios. A “palavra mentirosa” não é só a
mentira que contamos para os outros, mas também as meias-verdades que contamos
a nós mesmos para justificar nossos pecados, nossas concessões, nossos apegos.
Percebe a ordem?
Antes de pedir equilíbrio material, Agur pede pureza interior. Ele sabe que um
coração vaidoso e mentiroso vai transformar tanto a pobreza quanto a riqueza em
ocasião de pecado. Por isso, ele ora: “não me dês nem a pobreza nem a riqueza;
mantém-me do pão da minha porção de costume”. Não é uma oração de ingratidão,
como se ele dissesse: “não quero que o Senhor me abençoe”. É o contrário. Ele
está pedindo exatamente o tipo de bênção que mais o aproxima de Deus: o
suficiente. Nem folga orgulhosa, nem falta desesperadora, mas o “pão da minha
porção de costume”, o cuidado diário da providência, o “pão nosso de cada dia”
de que Jesus falou em Mateus 6.11.
A razão disso é
ainda mais séria: “para que, porventura, de farto, não te negue, e diga: Quem é
o Senhor?”. A prosperidade tem um perigo silencioso: fazer o coração se sentir
autossuficiente. Quando tudo dá certo, quando a conta está cheia, quando as portas
se abrem, quando a saúde está firme, somos tentados a pensar que não precisamos
tanto assim de Deus. Não dizemos com a boca: “Quem é o Senhor?”, mas às vezes
dizemos com o ritmo da vida: agenda lotada de tudo, menos de oração; muitos
planos, pouco joelho; muitas conquistas, pouca gratidão. O coração, aos poucos,
vai ficando satisfeito demais consigo mesmo e distraído demais com o céu.
Ao mesmo tempo,
Agur também teme o outro extremo: “ou que, empobrecido, não venha a furtar, e
lance mão do nome de Deus”. A pobreza extrema também pode empurrar um coração
pecador para caminhos errados: roubo, desespero, ressentimento, questionamentos
amargos sobre o caráter de Deus. A Bíblia não romantiza a pobreza, nem demoniza
a riqueza em si; ela nos mostra que, em qualquer estado, o nosso coração é
inclinado a se desviar. Por isso, o sábio pede o meio-termo que o guarda perto
do Senhor.
Talvez, enquanto
você lê, seu coração esteja num desses extremos. Talvez você esteja vivendo uma
fase de fartura: portas abertas, estabilidade, conforto. E, se olhar com
sinceridade, talvez perceba que a sua vida de oração esfriou, que a sua
confiança na providência de Deus foi, sorrateiramente, substituída por
confiança em números, contatos, posses. Se esse é o caso, essa oração de
Provérbios 30 é um convite amoroso ao arrependimento: peça ao Senhor que o
livre de um coração que diz, mesmo em silêncio, “Quem é o Senhor? Eu me viro”.
Ou talvez você
esteja do outro lado: apertos, contas, incertezas, medos. E, na aflição, a
tentação de “dar um jeitinho”, de torcer um pouco a verdade, de aceitar algo
que você sabe que não é correto, começa a parecer justificável. Você não quer
“furtar”, mas o coração cansado sussurra: “Será que Deus não está pedindo
demais de mim?”. De novo, essa oração vem como socorro: “Senhor, guarda-me de
ir contra a Tua vontade por causa da minha necessidade. Sustenta-me com o pão
que vem da Tua mão”.
A grande questão
por trás dessas palavras é confiança. Confiar que Deus sabe o quanto podemos
suportar; que Ele conhece o nosso coração melhor do que nós; que Ele é sábio ao
nos dar e sábio ao nos negar; que Ele não errou na medida da sua porção hoje.
Paulo aprendeu isso e pôde dizer: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer
situação… tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13). Não é indiferença,
é contentamento. Não é conformismo preguiçoso, é descanso ativo na providência
de um Deus que não erra.
Querido leitor,
Provérbios 30:8-9 é um convite para uma vida simples e profunda: menos movida
pelo “ter mais” ou “ter medo de perder”, e mais movida pelo “quero Te amar
mais, Senhor, em qualquer circunstância”. É uma oração perigosa para o orgulho,
porque nos coloca em um lugar de dependência. Mas é, ao mesmo tempo, muito
segura, porque nos recoloca no único lugar onde há verdadeira paz: debaixo da
mão fiel de Deus.
Que hoje você possa fazer dessa oração a sua própria:
“Senhor, afasta de mim a vaidade e a mentira. Não me dês nem a pobreza nem a
riqueza, mas o suficiente para Te honrar. Livra-me de um coração que Te esquece
na fartura e de um coração que Te acusa na falta. Ensina-me a descansar na
porção que vem da Tua mão”. E que, ao final do dia, você possa olhar para o que
tem, para o que falta, para o que chegou e para o que foi embora, e dizer, com
confiança humilde: “O Senhor sabe. O Senhor cuida. O Senhor basta”. Amém.
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