terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Para onde iremos nós?

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

essa pergunta ecoa fundo no coração: “Para onde iremos nós?”. Ela aparece quando a fé é provada, quando o chão que parecia firme começa a tremer, quando aquilo que chamávamos de “certo” parece se desfazer nas mãos. Às vezes não é uma crise teológica sofisticada; é o cansaço da alma, a oração que parece não passar do teto, a decepção com pessoas, com a igreja, com a própria história. É nessa hora que, quase sem perceber, o coração sussurra: “Se continuar assim… pra onde eu vou? Pra onde eu corro? Em quem eu confio?”.

A Bíblia não foge dessa pergunta. Em João 6, depois de um discurso duro de Jesus, muitos dos que o seguiam “voltaram atrás e não andavam mais com ele” (Jo 6.66). Não eram curiosos de ocasião; eram discípulos que caminhavam com Ele. De repente, acham a palavra pesada demais, o caminho estreito demais, o Evangelho exigente demais. E vão embora. Então Jesus se volta para os Doze e faz uma pergunta que atravessa os séculos e chega até nós hoje: “Porventura, quereis também vós retirar-vos?” (Jo 6.67).

Percebe? Jesus não segura ninguém à força. Ele não muda o discurso para ficar mais palatável. Ele não dilui a verdade para manter a audiência. Ele simplesmente pergunta: “E vocês, vão embora também?”. É aqui que ouvimos a resposta de Pedro, essa confissão que vira oração pra mim e pra você:

“Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus.” (Jo 6.68–69).

Pedro não diz: “Senhor, está tudo claro. Não tenho nenhuma dúvida, nenhum medo, nenhum conflito”. Não. Ele diz, essencialmente: “Ainda que eu não entenda tudo, não há outro lugar para onde ir. Não há outro Senhor. Não há outra Palavra que dê vida. Não há outro caminho que não seja o Senhor mesmo”.

Vamos pensar juntos?

No fundo, todos nós estamos sempre indo para algum lugar com o coração. Ninguém fica parado por dentro. Ou corremos para o trabalho como salvador, ou para os relacionamentos, ou para a religião sem Cristo, ou para os prazeres que anestesiam por um momento, ou para nós mesmos, acreditando que se ouvirmos “a nossa verdade” finalmente teremos paz. O problema é que todos esses caminhos, mais cedo ou mais tarde, cobram um preço alto e se revelam insuficientes.

É por isso que, em outra parte da Escritura, um salmista pergunta de modo parecido:

“Quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti.” (Sl 73.25).

Você percebe a lógica do coração transformado pela graça? Não é alguém perfeito, mas alguém que já experimentou todas as outras rotas e concluiu: longe de Deus, nada faz sentido. Tudo fica pesado demais, vazio demais, temporário demais.

A fé reformada nos lembra disso com tanta clareza: nós não somos pessoas que encontraram em Cristo apenas mais uma opção espiritual entre tantas; encontramos nEle o único Mediador, o centro da história, a Palavra viva de Deus, aquele em quem Deus selou todas as promessas e por meio de quem derrama graça sobre pecadores cansados e incapazes de se salvar.

Quando Jesus pergunta “Vocês também querem ir embora?”, Ele nos convida a olhar para tudo aquilo em que temos tentado nos apoiar. Talvez, se fôssemos bem honestos, tivéssemos de admitir: “Senhor, eu até continuava indo aos cultos, servindo, falando das coisas de Deus, mas por dentro já estava indo embora… meu coração já estava tentando achar vida em outro lugar”.

E, ainda assim, Ele nos chama de volta. Não com chantagem, mas com verdade.
Ele nos lembra:

“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14.6).

Ou seja: não existe um “para onde iremos” que não passe por Ele. Qualquer direção que ignore Cristo pode até parecer um atalho, mas termina em perdição. Ele não é apenas um conselheiro sábio, é o próprio Caminho. Não é apenas alguém que fala sobre a vida, é a Vida. Não é apenas mais uma opinião entre tantas, é a Verdade.

Talvez hoje você esteja exatamente num desses cruzamentos da alma.

Cansado da hipocrisia de outros. Ferido por pecados alheios e pelos seus. Decepcionado com sonhos que não se cumpriram. Pensando, lá dentro: “Se eu largar tudo, o que vai ser de mim? Para onde eu vou?”.

Em vez de responder rápido, deixa essa pergunta de Jesus ecoar: “E você, também quer ir embora?”. Não para te envergonhar, mas para te mostrar de novo o rosto dEle. Porque a resposta não está num plano detalhado de futuro, mas em uma Pessoa. A fé cristã não é, em primeiro lugar, um mapa, é um encontro. É olhar para Cristo e, mesmo tremendo, dizer com Pedro: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna”.

Isso significa que:
– Quando o futuro parece escuro, Ele continua tendo palavras de vida.
– Quando o pecado te acusa e a consciência pesa, Ele continua tendo palavras de perdão e restauração.
– Quando a igreja falha, e ela falha, Ele continua sendo o Santo de Deus, fiel, imutável, o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8).
– Quando você mesmo não se aguenta mais, Ele continua dizendo: “Quem vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37).

Repare também que Pedro não fala sozinho: “Para onde iremos nós?”. É plural. A caminhada da fé não foi desenhada para ser vivida na solidão. Deus nos dá irmãos e irmãs para, juntos, lembrarmos uns aos outros da mesma verdade: “Não temos para onde ir, se não for para Cristo”. Talvez você precise hoje abrir o coração com alguém piedoso, pedir oração, dizer: “Eu estava flertando com a ideia de ir embora… ore comigo para que eu permaneça em Jesus”. Isso também é graça de Deus sustentando o seu caminho.

Querido leitor, querida leitora, talvez a grande virada no seu coração hoje não seja descobrir algo novo, mas se lembrar do essencial: não há outro Senhor, não há outra cruz, não há outro evangelho. Você pode até se afastar, endurecer, tentar abafar a voz da consciência, mas em algum lugar profundo a pergunta vai te perseguir: “E agora, para onde?”.

Minha oração é que, pela ação paciente do Espírito Santo, essa pergunta não te leve ao desespero, mas ao arrependimento e à esperança. Que você possa, entre lágrimas ou com o coração em paz, responder novamente:

“Senhor Jesus, para onde eu iria longe de Ti?
O mundo me promete muito, mas só Tu tens as palavras da vida eterna.
Eu volto, eu permaneço, eu descanso em Ti”.

E que, enquanto caminhamos entre perguntas, dúvidas e dores, o Pai nos lembre, dia após dia: não estamos no controle, mas estamos nas mãos de Quem está. E, nas mãos dEle, essa pergunta – “Para onde iremos nós?” – deixa de ser desespero e se torna confissão de fé: “Iremos sempre para Cristo, e somente para Ele.”

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa 

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