sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A minha comida é fazer a vontade do Pai

Bem-vindos! 🖐️

Querido irmão, querida irmã,

há dias em que a alma parece com fome, não é? E o curioso é que nem sempre essa fome é de pão. Às vezes, estamos cercados de coisas, cheios de tarefas, com a agenda lotada… e, ainda assim, por dentro, sentimos um vazio quieto, como quem mastiga e não se alimenta. É nesse lugar do coração — onde a correria não cura e o descanso não vem — que a frase de Jesus nos alcança como água fresca: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.34).

Essa palavra nasce numa cena bem simples e bem profunda. Jesus está cansado de viagem, senta-se junto ao poço, conversa com uma mulher improvável, atravessa barreiras, toca feridas, revela o pecado sem esmagar a esperança, e abre a porta da graça. Enquanto isso, os discípulos se preocupam com o almoço. Eles voltam com comida, insistem: “Mestre, come”. E Jesus, com aquela serenidade que só quem vive para o Pai conhece, responde: “Eu tenho para comer uma comida que vocês não conhecem…”. Percebe? Ele não despreza o pão; Ele apenas mostra que existe um alimento mais fundo do que o estômago. Existe uma satisfação que não depende do que entra pela boca, mas do que governa o coração.

Jesus está dizendo, em outras palavras: “Meu sustento, meu prazer, minha força, meu deleite… é obedecer ao Pai.” E isso nos confronta com ternura. Porque nós, tantas vezes, buscamos força no que é imediato: uma aprovação, uma compra, um entretenimento, um controle maior das coisas, uma sensação de que finalmente “demos conta”. Só que essas coisas, mesmo quando são boas, não foram feitas para serem “comida” da alma. Elas podem ser acompanhamento; não podem ser fundamento. A alma humana, caída, é especialista em transformar migalhas em banquete — e depois estranhar por que continua faminta.

Mas Jesus nos apresenta outro caminho: o caminho do Filho. O evangelho não é um convite para “tentar obedecer mais” como se a salvação dependesse do nosso desempenho. É, primeiro, a notícia de que Cristo obedeceu perfeitamente onde nós falhamos. Ele veio para fazer a vontade do Pai até o fim — até a cruz. Como lemos: Ele “humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.8). A comida de Jesus o levou ao Calvário. E ali, na obediência do Filho, Deus nos deu vida. Ou seja: antes de essa frase ser um chamado para nossa prática, ela é uma janela para o coração do nosso Salvador.

E, exatamente por isso, ela se torna também um convite para nós. Quando somos unidos a Cristo pela fé, o Espírito Santo começa a reordenar nossos apetites. A vontade do Pai, que antes parecia peso, vai se tornando prazer. Não porque a obediência seja fácil, mas porque agora ela é caminho de comunhão. O mesmo Senhor que diz “A minha comida…” também nos ensina a orar: “Seja feita a tua vontade” (Mt 6.10). Note: não é oração de resignação amarga, como quem diz “já que não tem jeito…”. É oração de confiança: “Pai, a tua vontade é boa, perfeita e agradável” (Rm 12.2). É a fé aprendendo a se alimentar.

Então, vamos pensar juntos de forma bem prática: como é que a vontade do Pai vira “comida” no nosso cotidiano? Muitas vezes, começa com coisas pequenas, mas verdadeiras. É escolher a honestidade quando seria mais fácil omitir. É perdoar quando a carne quer cobrar. É dizer “não” para um pecado antigo que sempre promete alívio e entrega cansaço. É servir alguém em casa quando ninguém está vendo. É permanecer fiel quando o coração pede atalhos. É abrir a Bíblia sem pressa, não para “cumprir uma meta”, mas para ouvir a voz do Pai. E, aos poucos, a alma descobre um segredo: obedecer não nos esvazia; nos alimenta. Fazer a vontade de Deus não rouba a vida; devolve a vida ao lugar certo.

E se você me diz: “Pastor, eu não sinto isso. Eu obedeço e continuo seco”. Eu entendo. Há fases em que o coração parece sem gosto. Mas repare: Jesus falou isso no caminho, no calor do dia, no meio de uma missão cansativa. Às vezes, Deus não nos dá a doçura primeiro; Ele nos chama à fidelidade primeiro. E a doçura vem como fruto, não como isca. “Bem-aventurado o homem que me dá ouvidos”, diz a Sabedoria, “porque o que me achar achará a vida” (Pv 8.34-35). Há vida no caminho da vontade do Pai, mesmo quando a emoção demora a acompanhar.

No fim, essa palavra nos coloca diante de uma pergunta honesta: de que você tem tentado se alimentar? O que você chama de “comida” quando está triste? O que você busca para se sentir vivo? O que você precisa ter para ter paz? Jesus nos chama para um alimento melhor — Ele mesmo. Porque fazer a vontade do Pai, no evangelho, é inseparável de permanecer no Filho. Ele é o Pão da vida (Jo 6.35). E quem se alimenta dEle aprende a dizer, pouco a pouco: “Senhor, mais importante do que controlar tudo é te obedecer; mais importante do que agradar pessoas é agradar ao Pai; mais importante do que uma vida confortável é uma vida rendida”.

Que o Senhor nos dê essa graça: não a graça de uma religiosidade pesada, mas a graça de um coração reordenado, que encontra satisfação onde Jesus encontra. E que hoje, mesmo em meio às suas lutas, você possa ouvir o Pai dizendo: “Em Cristo, eu cuido de você. Caminhe comigo.” Que a vontade do Pai, longe de ser uma ameaça, seja para você alimento, direção e descanso. Amém.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026  

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