Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
há uma frase que, quando brota da alma, vem quase
como suspiro: “Senhor, lembra do rapaz que eu fui outrora”. Ela carrega saudade
e arrependimento ao mesmo tempo. Saudade de um tempo em que a vida parecia mais
simples; arrependimento por escolhas que hoje pesam; e, no fundo, uma esperança
tímida: “Deus ainda me vê? Deus ainda me recebe? Deus ainda pode me refazer?”
Mas perceba: quando dizemos “lembra”, nem sempre
estamos pedindo a mesma coisa. Às vezes, no íntimo, queremos que Deus se
recorde da nossa “melhor versão”: aquele rapaz mais sonhador, mais inteiro,
mais cheio de planos. Outras vezes, temos medo do contrário: que o Senhor se
lembre das tolices, dos pecados, das palavras tortas, dos caminhos que nos
levaram para longe.
E é aqui que a Escritura nos ensina a orar com
mais verdade e mais evangelho. Davi faz uma oração que parece ter sido escrita
para quem olha para trás com o coração apertado: “Lembra-te, SENHOR, das tuas
misericórdias e das tuas bondades… Não te lembres dos pecados da minha
mocidade, nem das minhas transgressões; segundo a tua misericórdia, lembra-te
de mim” (Sl 25.6-7). Repare a delicadeza: ele não pede que Deus “lembre” do seu
passado como um juiz que arquiva provas; ele pede que Deus se lembre dele segundo
a misericórdia, isto é, segundo o caráter do próprio Deus.
O evangelho nos dá uma notícia ainda mais funda:
em Cristo, Deus escolhe não se lembrar dos nossos pecados como condenação. Ele
mesmo diz: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões… e dos teus
pecados não me lembro” (Is 43.25). Isso não é esquecimento por distração; é
perdão por decisão. É o santo Deus, por causa do sangue do Filho, declarando
que a dívida foi paga. Na cruz, Jesus carregou não apenas o homem que você é
hoje, mas também “o rapaz que você foi outrora” — com suas culpas, suas quedas,
seus medos escondidos e suas tentativas de ser feliz longe do Pai.
Então, talvez a oração precise ser ajustada — não
para ficar mais bonita, mas para ficar mais bíblica e mais segura: “Senhor,
lembra do rapaz que eu fui… com misericórdia. Não para me condenar, mas para me
restaurar. Não para me prender ao passado, mas para me conduzir em santidade
hoje.” Porque a graça não apenas perdoa o ontem; ela educa o hoje e sustenta o
amanhã. Aquele que começou a boa obra não abandona o canteiro no meio do
caminho (Fp 1.6). E o Deus que conhece a nossa estrutura “sabe que somos pó” (Sl
103.14): Ele não se espanta com as nossas fragilidades, mas nos toma pela mão e
nos conduz passo a passo.
Você percebe como isso consola? Deus não é um
arquivista do seu passado; Ele é Pai. E, como Pai, Ele não nega a realidade do
que foi, mas também não deixa que o que foi defina o que você é em Cristo. “Se
alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Co 5.17). Nova — não porque você
tenha virado outra pessoa por força de vontade, mas porque o Senhor te uniu ao
Filho, e a vida de Cristo começou a pulsar em você.
Talvez, ao lembrar do rapaz que você foi, você
sinta vergonha. Talvez sinta saudade. Talvez sinta luto por sonhos que
morreram. Entregue tudo isso ao Senhor. Abra as mãos. E deixe que a lembrança
do passado vire combustível de humildade, não de desespero; de gratidão, não de
autoacusação. O inimigo usa o “outrora” para te aprisionar. O Espírito usa o
“outrora” para te ensinar a depender. Um te acusa; o outro te conduz a Cristo.
Que hoje você possa orar assim, com descanso:
“Pai, eu não consigo consertar o que fui, mas eu confio naquele que me comprou.
Lembra-te de mim segundo a tua misericórdia. E, por amor de Jesus, faz do meu
presente um lugar de obediência simples, e do meu futuro um caminho de
esperança.” Porque, no fim, a nossa segurança não está no rapaz que fomos, nem
no homem que somos, mas no Salvador que é o mesmo e que não falha — e que,
quando olha para nós, vê também a obra das suas próprias mãos.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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