Bem-vindos! 🖐️
Querido irmão, querida irmã,
essa pergunta costuma nascer não na sala de aula,
mas no quarto escuro; não no papel, mas no peito. Ela aparece quando o telefone
toca com uma notícia ruim, quando o diagnóstico vem, quando a perda nos
esvazia, quando a injustiça parece rir da nossa fé. “Se Deus é bom, por que
existe sofrimento?” E, se formos honestos, às vezes a pergunta vem com lágrimas
misturadas: “Se Ele é bom… por que comigo? por que agora? por que desse jeito?”
A Bíblia não foge dessa realidade. Ela não trata
a dor como um detalhe, nem chama o sofrimento de “ilusão”. Pelo contrário: ela
abre espaço para o gemido. Há salmos que choram, há profetas que lamentam, há
um livro inteiro em que um homem justo se assenta no pó e pergunta “por quê?”
(Jó). E, talvez, uma das primeiras coisas que precisamos lembrar é isso: Deus
não nos censura por levarmos a dor até Ele. O lamento, quando é oração, já é fé
com voz trêmula.
Mas a Escritura também nos ajuda a enxergar o
cenário maior. O sofrimento não é parte do projeto original de Deus para a
criação. Quando Deus cria, Ele declara “muito bom” (Gn 1.31). A dor entra como
intrusa, como consequência do pecado e da ruptura do mundo com o seu Criador
(Gn 3). Isso significa que o sofrimento é real, mas não é “normal” no sentido
de ser o destino final; ele é, por assim dizer, uma desordem dentro de um mundo
que foi feito para a harmonia. E aqui a teologia reformada nos dá um realismo
humilde: o pecado não nos feriu só “por fora”, mas por dentro; a criação
inteira foi afetada. Por isso Paulo diz que “toda a criação geme e suporta
angústias até agora” (Rm 8.22). O mundo geme porque o mundo está quebrado.
Ainda assim, a pergunta continua: se Deus é bom e
soberano, por que Ele permite que essa dor permaneça? A Bíblia não entrega uma
explicação simples, como quem resolve um enigma e pronto. Em vez disso, ela nos
dá algo melhor: ela nos dá Deus. Repare como o Senhor responde a Jó. Ele não
oferece um “manual do porquê”, mas revela a Jó quem Ele é: o Deus que governa o
caos, que sustenta o universo, que é sábio demais para errar e bom demais para
ser cruel (Jó 38–42). Isso não é pouca coisa. Às vezes, o coração não precisa
de um mapa completo; precisa de uma mão firme.
E essa mão firme tem nome e rosto: Jesus Cristo.
Se você quiser a resposta mais profunda da fé cristã ao problema do sofrimento,
olhe para a cruz. O cristianismo não diz: “Deus é bom, então você não sofrerá.”
Ele diz: “Deus é tão bom que entrou no nosso sofrimento.” O Filho de Deus foi
chamado de “homem de dores” (Is 53.3). Ele chorou diante do túmulo de Lázaro
(Jo 11.35), sentiu abandono, foi injustiçado, esmagado, e morreu. E aqui está o
espanto: a maior maldade humana e a maior dor da história foram, ao mesmo
tempo, o caminho pelo qual Deus realizou o maior bem: a nossa redenção. Como
Pedro anuncia, Jesus foi entregue “pelo determinado desígnio e presciência de
Deus” (At 2.23). Isso não desculpa o pecado de quem o matou; mas nos mostra que
a soberania de Deus é tão grande que Ele não perde o controle nem quando os
homens fazem o pior. Ele transforma trevas em palco para a sua luz.
Percebe o que isso faz com a nossa pergunta? A
bondade de Deus não é provada pela ausência de dor, mas pela presença de Cristo
na dor e pelo propósito de Deus através dela. Paulo chega a dizer que Deus faz
com que “todas as coisas cooperem para o bem” dos que o amam (Rm 8.28). Note:
ele não diz que todas as coisas são boas. Há coisas terríveis. Mas ele diz que
Deus, com mãos soberanas e coração de Pai, trabalha no meio de tudo para um bem
maior — um bem que, muitas vezes, a gente só vê em parte agora, e verá
plenamente no fim.
Isso também nos livra de dois extremos perigosos.
Um extremo é achar que todo sofrimento é punição direta por um pecado
específico, como se a dor fosse sempre um recibo imediato do céu. Jesus corrige
esse pensamento quando falam com Ele sobre tragédias (Lc 13.1-5). O outro
extremo é imaginar que Deus está distante, impotente, apenas “assistindo” ao
mal. A Escritura não nos deixa nisso. Ela afirma a soberania do Senhor e, ao
mesmo tempo, seu cuidado pessoal. “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade,
porque ele tem cuidado de vós” (1Pe 5.7). O Deus que reina é o Deus que cuida.
Na prática, então, o que fazemos com a dor? Nós a
levamos para Cristo. Nós choramos com esperança. Nós pedimos ajuda. Nós
lembramos que Deus pode usar até aquilo que não entendemos para nos conformar
ao Filho — e isso, por mais difícil que seja, é amor: “para serem conformes à
imagem de seu Filho” (Rm 8.29). Há sofrimentos que nos podam, outros que nos
despertam, outros que nos quebram para nos refazer. Nem sempre saberemos “por
quê”, mas podemos saber “para Quem”: para Aquele que nos amou primeiro.
E existe uma âncora final, sólida como rocha: o
sofrimento não tem a última palavra. A história não termina no hospital, nem no
cemitério, nem na injustiça. Ela termina com a promessa do Rei: “Ele enxugará
dos olhos toda lágrima… e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem
dor” (Ap 21.4). O evangelho não é um curativo superficial; é uma nova criação
chegando, e já começou em Cristo ressuscitado.
Que o Senhor, pela graça, sustente você hoje. Se
a sua pergunta nasceu de uma dor recente, saiba: Deus não se ofende com sua
fraqueza; Ele a acolhe. Corra para Cristo. Conte a Ele o que pesa. E mesmo que
você não consiga ver sentido agora, peça ao Pai que lhe dê o essencial:
confiança para dar o próximo passo, e fé para sussurrar, em meio às lágrimas,
aquilo que a cruz já garantiu — Deus é bom, e Ele não abandonará os seus. Amém.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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