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Reflexão em Mateus 24:36–51
Vivemos esperando alguma coisa. Esperamos
respostas médicas, esperamos portas se abrirem, esperamos que fases difíceis
passem. A vida é marcada por expectativas. Mas existe uma espera maior do que
todas: a volta de Cristo.
Em Mateus 24:36–51, Jesus não nos entrega um
calendário. Ele não satisfaz nossa curiosidade sobre datas. Ele desloca a
pergunta. Não é “quando?”, mas “como Ele nos encontrará?”.
“Quanto ao dia e à hora ninguém sabe.” O tempo
pertence ao Pai. A história não está solta; está nas mãos soberanas de Deus. A
ignorância quanto ao dia não é descuido divino, é sabedoria divina. Não saber
nos mantém dependentes.
Jesus compara sua vinda aos dias de Noé. As
pessoas comiam, bebiam, casavam. A rotina seguia normal. O problema não era a
rotina; era a indiferença espiritual. “Não perceberam” até que veio o juízo. A
grande tragédia não foi o barulho do dilúvio, mas o silêncio da consciência.
O perigo não é apenas o caos externo, mas a
anestesia interior.
Depois, Jesus diz que dois estarão no campo,
dois no moinho; um será levado, outro deixado. A proximidade não salva.
Ambiente não regenera. Tradição não justifica. A fé é pessoal porque a união
com Cristo é pessoal.
E aqui está o ponto que sustenta todo o texto:
ninguém vigia corretamente sem antes pertencer verdadeiramente ao Senhor que
virá.
O chamado à vigilância não é um convite ao
esforço autônomo. Não é moralismo religioso. Não é “esforce-se mais para que
Cristo o aceite”. A ordem de vigiar nasce da realidade de que já fomos
alcançados pela graça.
O servo fiel não trabalha para se tornar
servo. Ele é servo porque pertence ao Senhor.
A perseverança cristã não nasce do medo do
juízo, mas da união com Aquele que já suportou o juízo em nosso lugar.
Cristo não é apenas o Senhor que voltará; é o
Salvador que veio. Antes de nos chamar a vigiar, Ele foi à cruz. Antes de
exigir fidelidade, Ele foi fiel até a morte. Antes de nos alertar sobre o
juízo, Ele suportou o juízo que merecíamos.
A cruz é o fundamento da vigilância.
Sem a obra substitutiva de Cristo, Mateus 24
seria apenas uma ameaça moral. Mas à luz do Evangelho, torna-se um chamado
amoroso à constância.
A parábola dos dois servos revela isso com
profundidade. O servo mau começa a dizer “meu senhor demora”. O problema começa
no coração. Ele vive como se o senhor não fosse voltar — ou como se sua volta
não importasse.
Mas o servo fiel permanece constante. E por
quê?
Não porque seja naturalmente melhor. Não
porque tenha mais disciplina moral. Mas porque seu coração pertence ao senhor.
Ele age de acordo com sua identidade.
A demora aparente de Cristo não é abandono; é
misericórdia. É tempo de arrependimento. É tempo de santificação. É tempo de
amadurecimento.
E aqui está a verdade central: a perseverança
do servo é fruto da perseverança de Cristo.
Nós permanecemos porque fomos unidos a Ele.
Ele prometeu: “Eu estarei convosco todos os dias.” Ele intercede por nós. Ele
sustenta nossa fé. Ele é o autor e consumador dela.
A fidelidade cristã não é independência; é
dependência contínua.
Vigiar, então, é viver à luz da cruz e da
ressurreição. É servir sabendo que já fomos aceitos. É perseverar sabendo que
já fomos justificados. É trabalhar não para conquistar favor, mas porque já
fomos reconciliados.
A vida fiel e prudente não é espetacular aos
olhos do mundo. É simples e constante. É fruto do Espírito. É expressão da
graça operando no cotidiano.
É cuidar dos outros porque Cristo cuidou de
nós.
É servir porque fomos servidos pelo Servo perfeito.
É esperar porque já fomos alcançados pela esperança viva da ressurreição.
Se Cristo voltasse hoje, como nos encontraria?
Essa pergunta não deve gerar pânico, mas
exame. Não ansiedade, mas sobriedade. Não desespero, mas renovação de fé.
Cristo virá. O Juiz é o mesmo que é nosso
Advogado. O Senhor que retorna é o Cordeiro que foi morto e vive.
E é essa certeza que sustenta nossa
perseverança.
Que Ele nos encontre vigilantes — não por
medo, mas por amor.
Que Ele nos encontre servindo — não por mérito, mas por gratidão.
Que Ele nos encontre fiéis — não pela força da carne, mas pela graça que nos
uniu a Ele.
Essa é a vida fiel e prudente:
uma vida sustentada pela cruz, fortalecida pela ressurreição e preservada pela
união com Cristo até o dia em que Ele voltar.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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