segunda-feira, 22 de junho de 2026

A igreja diante da cultura pós-cristã.

A igreja diante da cultura pós-cristã.

A igreja diante da cultura pós-cristã precisa, antes de tudo, recuperar a serenidade da fé. Não estamos diante de uma surpresa para Cristo. O Senhor nunca prometeu que a igreja viveria sempre em uma cultura simpática ao evangelho. Pelo contrário, Ele orou ao Pai dizendo: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (João 17:15, ARC). A igreja não foi chamada para fugir do mundo, nem para se dissolver nele. Foi chamada para pertencer a Cristo dentro do mundo.

Uma cultura pós-cristã não é simplesmente uma cultura “sem religião”. É uma cultura que ainda carrega memórias, palavras e símbolos do cristianismo, mas já não reconhece a autoridade de Cristo, das Escrituras e da fé cristã como fundamento público da vida. Às vezes ela usa vocabulário cristão — amor, justiça, dignidade, compaixão — mas separa essas palavras da verdade sobre Deus, pecado, redenção e juízo. O resultado é uma sociedade que deseja alguns frutos do cristianismo, mas rejeita a raiz que os sustenta.

Diante disso, a igreja pode cair em duas tentações. A primeira é a assimilação: tentar parecer tão aceitável ao espírito da época que acaba perdendo o sabor do evangelho. Jesus disse: “Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13, ARC). Sal que perde o sabor deixa de cumprir sua vocação. A segunda tentação é o isolamento amargurado: olhar para a cultura apenas com desprezo, medo ou nostalgia, como se a missão da igreja fosse proteger um passado idealizado. Mas Jesus também disse: “Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5:14, ARC). Luz não foi feita para se esconder em guetos religiosos.

A fidelidade cristã, então, não é imitar a cultura nem odiar a cultura. É discernir a cultura à luz de Cristo. Há coisas na cultura que devem ser recebidas com gratidão, porque a graça comum de Deus ainda permite beleza, verdade, justiça relativa, criatividade, trabalho honesto e expressões humanas dignas. Há coisas que devem ser corrigidas, porque carregam idolatrias profundas. E há coisas que devem ser recusadas com mansidão e firmeza, porque negam o senhorio de Cristo e deformam o ser humano criado à imagem de Deus.

Nesse ponto, a igreja precisa de convicções profundas, não apenas opiniões fortes. Uma igreja pós-cristã não será sustentada por slogans, reações nas redes sociais ou guerras culturais intermináveis. Ela será sustentada pela Palavra, pela oração, pela adoração, pela comunhão dos santos, pela pregação fiel, pelos sacramentos, pelo discipulado e por uma vida santa diante de Deus. Spurgeon, ao recomendar a Confissão Batista de 1689, lembrava que ela não era uma regra autoritativa acima das Escrituras, mas uma ajuda para confirmação na fé, edificação na justiça e preparo para dar a razão da esperança cristã. A mesma recomendação pastoral permanece necessária: “Não se envergonhem de sua fé” e deixem que a vida adorne aquilo que a boca confessa.

A igreja diante da cultura pós-cristã precisa reaprender a formar discípulos, não apenas consumidores religiosos. Muitos cristãos foram ensinados a frequentar cultos, mas não foram formados para pensar, amar, trabalhar, sofrer, casar, criar filhos, usar tecnologia, lidar com política, arte, dinheiro e sexualidade como discípulos de Jesus. Quando a cultura era mais favorável, uma fé superficial conseguia sobreviver apoiada no costume social. Mas numa cultura pós-cristã, a fé herdada sem raiz costuma secar depressa. Por isso, discipulado não é um departamento da igreja; é o modo normal da igreja obedecer ao Senhor. A pesquisa sobre discipulado lembra que a Grande Comissão não é uma sugestão, mas uma ordem, e que evangelizar sem discipular pode gerar uma missão superficial.

Também precisamos recuperar uma presença cristã humilde e corajosa na cultura. Não é necessário chamar tudo de “mundano” apenas porque não nasceu dentro do templo. A criação pertence a Deus. A arte, o trabalho, a educação, a ciência, a política, a família, a comunicação e a vida pública são campos nos quais o cristão deve viver diante do Senhor. O diálogo entre Francis Schaeffer e Hans Rookmaaker, por exemplo, ajuda a lembrar que o cristão não precisa desprezar a cultura, mas deve interagir com ela de maneira teologicamente consciente, buscando a glória de Deus em todas as áreas da vida.

Mas essa presença não pode ser ingênua. A cultura pós-cristã também discipula. Ela catequiza o coração diariamente. Ela ensina o que amar, o que temer, o que desejar, o que chamar de liberdade, o que considerar identidade, o que definir como sucesso. Por isso Paulo nos chama: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento” (Romanos 12:2, ARC). A mente cristã precisa ser renovada para que o coração não seja levado pela correnteza.

Pastoralmente, talvez o maior desafio seja este: a igreja precisa deixar de reagir apenas quando perde influência e começar a se perguntar se tem sido fiel quando ainda tem liberdade. O problema não é apenas que a cultura mudou. O problema é que muitas vezes a igreja tentou responder à cultura com entretenimento, marketing, moralismo ou nostalgia, quando deveria responder com santidade, profundidade bíblica, amor sacrificial, hospitalidade, coragem evangelística e vida comunitária real.

A resposta cristã à cultura pós-cristã não é desespero. Cristo continua reinando. A igreja já foi minoria antes. Já foi perseguida antes. Já foi ridicularizada antes. Já viveu em impérios pagãos, sociedades hostis e tempos de confusão moral. E, ainda assim, o evangelho frutificou. Não porque a igreja era poderosa aos olhos do mundo, mas porque o Cristo ressuscitado sustenta sua igreja. Como diz o próprio Senhor: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18, ARC).

Portanto, a igreja diante da cultura pós-cristã deve ser menos ansiosa por conquistar prestígio e mais zelosa por permanecer fiel. Deve falar a verdade, mas com lágrimas nos olhos. Deve confrontar o pecado, mas sem esquecer que também vive pela misericórdia. Deve amar o perdido, sem bajular seus ídolos. Deve acolher o ferido, sem chamar trevas de luz. Deve formar crianças, jovens, famílias, trabalhadores e líderes que saibam viver no mundo como povo de Deus.

No fim, o chamado não é para salvarmos a civilização com nossas próprias mãos. O chamado é para sermos testemunhas de Cristo. Uma igreja fiel em tempos pós-cristãos será uma comunidade que adora com reverência, prega com clareza, vive com santidade, ama com paciência, discipula com perseverança e anuncia com esperança que Jesus Cristo é Senhor. E isso, meu irmão, continua sendo profundamente poderoso, mesmo quando o mundo já não sabe reconhecer.

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026 


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