Misericórdia com verdade na abordagem de temas
difíceis.
Misericórdia sem verdade vira sentimentalismo. Verdade sem misericórdia vira dureza. Mas, em Cristo, essas duas coisas não brigam. O salmista diz: “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” (Sl 85.10). E João nos apresenta Jesus como aquele que veio “cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). Não metade graça e metade verdade, mas plenamente gracioso e plenamente verdadeiro.
Quando a igreja lida com temas difíceis, precisa lembrar que não está lidando primeiro com “assuntos”, mas com pessoas. Pessoas com histórias, pecados, feridas, confusões, culpas, traumas, medos e resistências. Ao mesmo tempo, essas pessoas não são ajudadas quando escondemos delas a verdade de Deus. A misericórdia cristã não é passar a mão sobre o pecado; é conduzir o pecador para o único lugar onde há perdão, cura e transformação: Cristo.
Aqui está o equilíbrio pastoral: falar a verdade de Deus com lágrimas nos olhos, não com pedras nas mãos. A verdade bíblica não deve ser usada como martelo para esmagar quem já está quebrado, mas também não deve ser escondida como se fosse perigosa demais para ser dita. O próprio material de pregação reformada que estudamos, lembra que o ministro deve amar a verdade porque ama a Deus, mas também deve amar as pessoas de modo sincero, não tratando-as como peças de um projeto ministerial; até ao falar do juízo divino contra o pecado, deve fazê-lo com coração quebrantado, humilde e compassivo.
Isso muda a forma como abordamos temas como sexualidade, divórcio, disciplina na igreja, vícios, sofrimento emocional, política, abuso, conflitos familiares e pecados públicos. A pergunta não é apenas: “Qual é a posição correta?” A pergunta também é: “Como Cristo trataria esta pessoa sem negar a santidade do Pai?” Jesus não relativizou o pecado da mulher apanhada em adultério, mas também não a reduziu ao pior momento da sua vida. Ele disse: “Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais” (Jo 8.11). Há misericórdia: “nem eu te condeno”. Há verdade: “não peques mais”.
A tradição reformada nos ajuda aqui porque mantém juntas duas realidades que muitos separam. A Confissão Batista de 1689 afirma que o arrependimento salvífico é uma graça evangélica; o pecador, pela fé em Cristo, é levado a tristeza segundo Deus, ódio ao pecado, busca de perdão e nova obediência. Ela também lembra que não há pecado tão pequeno que não mereça condenação, mas também não há pecado tão grande que traga condenação sobre aqueles que verdadeiramente se arrependem. Isso é profundamente pastoral: o pecado é sério, mas a graça de Cristo é maior do que o pecado do arrependido.
Por isso, quando tratamos temas difíceis, precisamos evitar dois caminhos falsos. Um é o caminho da permissividade: para não machucar ninguém, deixamos de chamar pecado de pecado. O outro é o caminho da crueldade religiosa: para defender a verdade, esquecemos que também somos pecadores alcançados por misericórdia. O primeiro caminho trai a santidade de Deus. O segundo trai o coração do evangelho.
Misericórdia com verdade significa ouvir antes de corrigir, mas corrigir quando for necessário. Significa acolher a pessoa sem aprovar tudo o que ela deseja. Significa proteger os feridos sem acobertar os culpados. Significa chamar ao arrependimento sem transformar arrependimento em humilhação pública desnecessária. Significa lembrar que disciplina bíblica não é vingança espiritual; é cuidado santo, visando restauração, pureza da igreja e glória de Deus.
Também precisamos ter cuidado com o tom. Há verdades que podem ser ditas de modo tão frio que se tornam quase irreconhecíveis como mensagem de Cristo. A verdade de Deus não precisa da nossa aspereza para ser firme. O Catecismo Maior comentado lembra que a misericórdia de Deus é a concessão da sua graça a criaturas pecadoras, e que a verdade de Deus está ligada ao seu próprio caráter fiel, justo e bom. Se Deus é ao mesmo tempo verdadeiro e misericordioso, nosso modo de falar em nome dele deve carregar, ainda que imperfeitamente, essa mesma marca.
No fim, a igreja só conseguirá tratar temas difíceis com fidelidade se permanecer perto da cruz. Na cruz vemos a verdade: o pecado é tão grave que exigiu o sangue do Filho de Deus. Mas na mesma cruz vemos a misericórdia: Deus não poupou seu próprio Filho para salvar pecadores. Quem contempla a cruz não consegue brincar com o pecado, mas também não consegue desprezar pecadores.
Que o Senhor nos dê uma igreja assim: firme sem ser arrogante, compassiva sem ser covarde, bíblica sem ser fria, acolhedora sem ser permissiva. Uma igreja que não negocia a verdade, mas que também não esquece que foi a misericórdia que a colocou de pé.
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa
©2026
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