quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A Bíblia Não Precisa Ser Atualizada; Nós Precisamos Ser Reformados

A Bíblia Não Precisa Ser Atualizada; Nós Precisamos Ser Reformados

À luz da ortodoxia reformada, devemos responder com clareza: a Bíblia não precisa ser atualizada, porque ela não é produto de uma época que perdeu a validade. Ela é a Palavra do Deus eterno.

O problema não está nas Escrituras. O problema está no coração humano, que deseja que as Escrituras se adaptem às suas preferências.

A Bíblia não pertence ao seu tempo; ela governa todos os tempos

A Bíblia foi escrita em contextos históricos específicos, por autores humanos reais, utilizando línguas, estilos e formas literárias próprias. Contudo, sua origem última é divina:

“Toda a Escritura é inspirada por Deus”
— 2 Timóteo 3.16

A expressão “inspirada por Deus” significa literalmente soprada por Deus. Portanto, reescrever o conteúdo bíblico para ajustá-lo aos valores contemporâneos não seria apenas modernizar um documento antigo. Seria corrigir aquilo que Deus falou.

A cultura muda. Deus não muda.

As opiniões humanas mudam. A verdade de Deus permanece.

“Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente.”
— Isaías 40.8

É necessário distinguir tradução de alteração

Existe uma diferença fundamental entre traduzir a Bíblia para uma linguagem compreensível e reescrever sua mensagem para torná-la aceitável.

A igreja pode e deve produzir boas traduções, atualizar palavras que perderam o sentido e explicar expressões ligadas ao mundo antigo. Isso faz parte do trabalho legítimo de tradução e ensino.

Entretanto, não podemos alterar:

  • doutrinas que a sociedade considera ofensivas;
  • mandamentos que entram em conflito com os valores atuais;
  • palavras referentes ao pecado, ao juízo e ao arrependimento;
  • ensinos bíblicos sobre criação, casamento, sexualidade, família, igreja ou autoridade;
  • afirmações exclusivas acerca de Cristo e da salvação.

Atualizar a linguagem pode ser necessário. Atualizar a verdade seria apostasia.

Uma tradução fiel procura comunicar hoje exatamente o que o texto inspirado declarou originalmente. Uma reescrita ideológica procura fazer o texto dizer aquilo que a cultura gostaria que ele tivesse dito.

A Bíblia julga a cultura; a cultura não julga a Bíblia

A proposta de “atualizar” as Escrituras geralmente parte de uma inversão de autoridade. O homem moderno se coloca acima da Palavra e decide quais partes ainda são aceitáveis.

Mas a posição cristã é exatamente o contrário:

“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.”
— João 17.17

Jesus não disse que a Palavra contém algumas verdades condicionadas ao seu tempo. Ele declarou: “A tua palavra é a verdade.”

A Bíblia não comparece diante do tribunal da cultura para ser julgada. É a cultura que comparece diante do tribunal da Palavra de Deus.

Quando a Escritura confronta nossas ideias, não devemos reescrever a Escritura. Devemos permitir que ela reforme nossas ideias.

Esse é o espírito da Reforma: Ecclesia reformata, semper reformanda secundum Verbum Dei — a igreja reformada deve estar sempre sendo reformada segundo a Palavra de Deus.

Não é a Palavra que precisa ser reformada. Somos nós.

O desejo de reescrever a Bíblia não é novo

Desde o princípio, a tentação humana foi modificar aquilo que Deus disse.

A serpente perguntou:

“É assim que Deus disse?”
— Gênesis 3.1

Primeiro, questiona-se a clareza da Palavra. Depois, nega-se sua autoridade. Finalmente, oferece-se uma versão alternativa, mais agradável ao desejo humano.

Jeremias relata que o rei Jeoaquim cortou e queimou o rolo que continha a Palavra do Senhor. Contudo, destruir o manuscrito não anulou a verdade. Deus ordenou que Jeremias escrevesse novamente todas as palavras anteriores, acrescentando ainda outras palavras de juízo contra o rei, conforme Jeremias 36.

O homem pode cortar o texto, queimá-lo, censurá-lo ou reescrevê-lo. Mas não pode revogar a Palavra do Deus soberano.

A doutrina reformada da suficiência das Escrituras

A ortodoxia reformada confessa que as Escrituras são:

Inspiradas: procedem de Deus.

Inerrantes: não ensinam erro em tudo o que afirmam.

Infalíveis: não podem falhar nem conduzir o povo de Deus ao erro.

Suficientes: contêm tudo o que é necessário para conhecermos a Deus, recebermos o evangelho e vivermos em obediência.

Autoritativas: possuem autoridade sobre a consciência, a igreja e toda a vida humana.

A Confissão Batista de Londres de 1689 afirma que a autoridade das Escrituras não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas inteiramente de Deus, seu autor. Por isso, devem ser recebidas como Palavra de Deus.

Se a Escritura é Palavra de Deus, não temos autoridade para reescrevê-la. Temos o dever de recebê-la, estudá-la, traduzi-la com fidelidade, proclamá-la e obedecê-la.

Cristo confirmou a permanência da Palavra

Jesus declarou:

“Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.”
— Mateus 5.18

E também:

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.”
— Mateus 24.35

Portanto, defender que os textos sagrados precisam ser reescritos significa entrar em conflito direto com o testemunho do próprio Cristo.

Não podemos afirmar que seguimos Jesus enquanto corrigimos as palavras que Ele confirmou.

Soli Deo Gloria!

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026


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