A
Bíblia Não Precisa Ser Atualizada; Nós Precisamos Ser Reformados
À luz da
ortodoxia reformada, devemos responder com clareza: a Bíblia não precisa ser
atualizada, porque ela não é produto de uma época que perdeu a validade. Ela é
a Palavra do Deus eterno.
O problema
não está nas Escrituras. O problema está no coração humano, que deseja que as
Escrituras se adaptem às suas preferências.
A Bíblia
não pertence ao seu tempo; ela governa todos os tempos
A Bíblia
foi escrita em contextos históricos específicos, por autores humanos reais,
utilizando línguas, estilos e formas literárias próprias. Contudo, sua origem
última é divina:
“Toda a Escritura é inspirada por Deus”
— 2 Timóteo 3.16
A expressão
“inspirada por Deus” significa literalmente soprada por Deus. Portanto,
reescrever o conteúdo bíblico para ajustá-lo aos valores contemporâneos não
seria apenas modernizar um documento antigo. Seria corrigir aquilo que Deus
falou.
A cultura muda. Deus não muda.
As opiniões humanas mudam. A verdade de Deus
permanece.
“Seca-se a
erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente.”
— Isaías 40.8
É
necessário distinguir tradução de alteração
Existe uma
diferença fundamental entre traduzir a Bíblia para uma linguagem
compreensível e reescrever sua mensagem para torná-la aceitável.
A igreja
pode e deve produzir boas traduções, atualizar palavras que perderam o sentido
e explicar expressões ligadas ao mundo antigo. Isso faz parte do trabalho
legítimo de tradução e ensino.
Entretanto, não podemos alterar:
- doutrinas
que a sociedade considera ofensivas;
- mandamentos
que entram em conflito com os valores atuais;
- palavras
referentes ao pecado, ao juízo e ao arrependimento;
- ensinos
bíblicos sobre criação, casamento, sexualidade, família, igreja ou
autoridade;
- afirmações
exclusivas acerca de Cristo e da salvação.
Atualizar a linguagem pode ser necessário.
Atualizar a verdade seria apostasia.
Uma
tradução fiel procura comunicar hoje exatamente o que o texto inspirado
declarou originalmente. Uma reescrita ideológica procura fazer o texto dizer
aquilo que a cultura gostaria que ele tivesse dito.
A Bíblia
julga a cultura; a cultura não julga a Bíblia
A proposta
de “atualizar” as Escrituras geralmente parte de uma inversão de autoridade. O
homem moderno se coloca acima da Palavra e decide quais partes ainda são
aceitáveis.
Mas a posição cristã é exatamente o contrário:
“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a
verdade.”
— João 17.17
Jesus não
disse que a Palavra contém algumas verdades condicionadas ao seu tempo. Ele
declarou: “A tua palavra é a verdade.”
A Bíblia
não comparece diante do tribunal da cultura para ser julgada. É a cultura que
comparece diante do tribunal da Palavra de Deus.
Quando a
Escritura confronta nossas ideias, não devemos reescrever a Escritura. Devemos
permitir que ela reforme nossas ideias.
Esse é o
espírito da Reforma: Ecclesia reformata, semper reformanda secundum Verbum
Dei — a igreja reformada deve estar sempre sendo reformada segundo a
Palavra de Deus.
Não é a Palavra que precisa ser reformada.
Somos nós.
O desejo de
reescrever a Bíblia não é novo
Desde o princípio, a tentação humana foi
modificar aquilo que Deus disse.
A serpente perguntou:
“É assim que Deus disse?”
— Gênesis 3.1
Primeiro,
questiona-se a clareza da Palavra. Depois, nega-se sua autoridade. Finalmente,
oferece-se uma versão alternativa, mais agradável ao desejo humano.
Jeremias
relata que o rei Jeoaquim cortou e queimou o rolo que continha a Palavra do
Senhor. Contudo, destruir o manuscrito não anulou a verdade. Deus ordenou que
Jeremias escrevesse novamente todas as palavras anteriores, acrescentando ainda
outras palavras de juízo contra o rei, conforme Jeremias 36.
O homem
pode cortar o texto, queimá-lo, censurá-lo ou reescrevê-lo. Mas não pode
revogar a Palavra do Deus soberano.
A doutrina
reformada da suficiência das Escrituras
A ortodoxia reformada confessa que as
Escrituras são:
Inspiradas: procedem de Deus.
Inerrantes: não ensinam erro em tudo o
que afirmam.
Infalíveis: não podem falhar nem
conduzir o povo de Deus ao erro.
Suficientes: contêm
tudo o que é necessário para conhecermos a Deus, recebermos o evangelho e
vivermos em obediência.
Autoritativas: possuem
autoridade sobre a consciência, a igreja e toda a vida humana.
A Confissão
Batista de Londres de 1689 afirma que a autoridade das Escrituras não depende
do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas inteiramente de Deus, seu autor.
Por isso, devem ser recebidas como Palavra de Deus.
Se a
Escritura é Palavra de Deus, não temos autoridade para reescrevê-la. Temos o
dever de recebê-la, estudá-la, traduzi-la com fidelidade, proclamá-la e
obedecê-la.
Cristo
confirmou a permanência da Palavra
Jesus declarou:
“Até que o céu e a terra passem, nem um i ou
um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.”
— Mateus 5.18
E também:
“O céu e a terra passarão, mas as minhas
palavras não hão de passar.”
— Mateus 24.35
Portanto,
defender que os textos sagrados precisam ser reescritos significa entrar em
conflito direto com o testemunho do próprio Cristo.
Não podemos afirmar que seguimos Jesus enquanto corrigimos as palavras
que Ele confirmou.
Soli Deo Gloria!
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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