Assim
caminham os Estados Unidos: uma nação rica, mas cada vez mais insegura
Escrevo esta reflexão com cuidado.
Não escrevo
como economista, jurista ou especialista em políticas públicas. Também não
escrevo como alguém que possua todas as respostas para problemas tão complexos.
Não pretendo posar como dono da verdade, nem reduzir a realidade americana a
slogans políticos.
Reconheço aquilo que existe de bom nos Estados
Unidos.
Esta é uma
nação que tem oferecido oportunidades a milhões de pessoas. Um país de grande
capacidade produtiva, extraordinário desenvolvimento científico, liberdade
religiosa, instituições importantes, universidades reconhecidas e uma tradição
de generosidade que não deve ser ignorada.
Muitas
famílias chegaram aqui fugindo da pobreza, da perseguição e da ausência de
oportunidades. Trabalharam, criaram seus filhos e construíram uma vida digna.
Eu não desprezo essa história.
Gratidão, porém, não exige cegueira.
Reconhecer
o que existe de bom não nos obriga a chamar o mal de bem. Amar uma nação não
significa idealizá-la. O verdadeiro amor é capaz de agradecer pelas virtudes e,
ao mesmo tempo, lamentar os pecados, as injustiças e as contradições que
precisam ser corrigidas.
É com esse espírito que olho para o momento
atual.
Há algo profundamente contraditório
acontecendo nos Estados Unidos.
Estamos
falando de uma das nações mais ricas, produtivas e influentes da história. Um
país capaz de movimentar trilhões de dólares, desenvolver tecnologias
extraordinárias, explorar o espaço e abrigar algumas das maiores empresas do
mundo.
Entretanto, cada vez mais pessoas fazem contas
diante das prateleiras do supermercado.
O aluguel vence.
O seguro-saúde aumenta.
A consulta médica é adiada.
O tanque do carro não pode ser completamente
abastecido.
O salário
entra pela porta da frente, mas parece desaparecer antes que todas as
necessidades da casa sejam atendidas.
Supermercado.
Aluguel.
Saúde.
Combustível.
Essas
palavras resumem a pressão diária de milhões de pessoas que trabalham,
produzem, pagam impostos e, ainda assim, enfrentam dificuldades para chegar ao
fim do mês.
Em junho de
2026, o índice de preços ao consumidor estava 3,5% acima do mesmo período do
ano anterior. Os preços dos alimentos haviam aumentado 3%, enquanto os
alimentos comprados para consumo doméstico subiram 2,7%. A energia estava 15,7%
mais cara, e o preço da gasolina havia aumentado 26,7% em doze meses.
Os números ajudam a compreender o cenário, mas
não contam toda a história.
A economia não é vivida apenas em gráficos,
índices e discursos oficiais.
Ela é vivida na cozinha.
É vivida na farmácia.
É vivida no posto de gasolina.
É vivida na
conversa silenciosa entre marido e esposa quando percebem que o dinheiro não
será suficiente para todas as despesas.
É vivida na
decisão de adiar uma consulta médica, reduzir a compra de alimentos ou usar o
cartão de crédito para pagar aquilo que deveria caber no orçamento mensal.
Os Estados Unidos continuam sendo um país
extraordinariamente rico.
Mas uma nação rica pode estar cheia de pessoas
cansadas.
Pode
possuir abundância econômica e, ao mesmo tempo, produzir insegurança doméstica.
Pode
celebrar o crescimento dos mercados enquanto trabalhadores honestos lutam para
pagar aluguel, alimentação, transporte e cuidados médicos.
A riqueza
de uma nação não deveria ser medida apenas pelo tamanho de sua economia, mas
também pela maneira como a vida comum é sustentada dentro dela.
Quando
homens e mulheres trabalham honestamente e, mesmo assim, não conseguem viver
com alguma estabilidade, há uma realidade que precisa ser examinada.
Quando uma
enfermidade pode comprometer financeiramente uma família inteira, alguma coisa
está fora do lugar.
Quando o
aluguel consome grande parte da renda e impede uma família de construir
qualquer segurança, não basta repetir que a economia está forte.
Quando pais
precisam escolher entre comprar alimentos, abastecer o carro ou pagar uma
consulta médica, as estatísticas deixam de ser suficientes.
É preciso enxergar pessoas.
Quando até
a mesa se torna motivo de preocupação
Não
bastasse o peso crescente do custo de vida, outro fator tem aumentado a
ansiedade das famílias: os sucessivos recalls de alimentos.
Já não se trata apenas de descobrir quanto
será necessário pagar pela comida.
Muitas
pessoas também passaram a perguntar se aquilo que compraram é seguro para ser
consumido.
Em julho de
2026, ovos produzidos e distribuídos a partir de fazendas no Texas foram
recolhidos durante uma investigação relacionada a um surto de Salmonella.
Naquele mesmo mês, a FDA advertiu os consumidores para não ingerirem
determinados produtos de alface-americana ligados a uma investigação de casos
de ciclosporíase em nove estados.
A relação
de investigações sanitárias de 2026 também incluiu mirtilos congelados
associados a E. coli, fórmula infantil em pó investigada em casos de
botulismo infantil, queijo macio relacionado à Listeria, além de
produtos contendo pó de moringa e queijo cheddar cru.
É importante manter o equilíbrio.
Esses
episódios não significam que todo alimento vendido nos Estados Unidos seja
perigoso. Os próprios recalls mostram que existem sistemas de investigação,
fiscalização, comunicação pública e retirada de produtos do mercado. Isso deve
ser reconhecido como algo necessário e positivo.
Seria
injusto concluir que toda a cadeia de alimentos está comprometida ou que os
órgãos responsáveis nada fazem.
Ao mesmo tempo, não devemos minimizar o
impacto dessas notícias.
O consumidor já não verifica apenas o preço, a
data de validade e os ingredientes.
Agora, em
muitos casos, precisa verificar também se o produto não foi incluído em algum
alerta sanitário.
O alimento,
que deveria representar cuidado, sustento e comunhão, passa a ser acompanhado
pela dúvida.
Pais e mães se perguntam se aquilo que
servirão aos filhos é realmente seguro.
Idosos e pessoas com a saúde fragilizada
precisam ter atenção redobrada.
Famílias
que já enfrentam preços altos podem precisar descartar alimentos comprados com
sacrifício porque foram incluídos em um recall.
Em uma
sociedade marcada pela abundância, surge o receio de que aquilo que deveria
alimentar também possa adoecer.
A insegurança deixa de estar apenas no bolso.
Ela chega à mesa.
Responsabilidade
humana em um mundo caído
A Bíblia ensina que toda a criação foi afetada
pela queda.
O pecado
não atingiu apenas o coração humano. Seus efeitos alcançaram o trabalho, os
relacionamentos, as instituições e a própria criação.
Paulo
afirma que “toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora”
(Romanos 8.22).
Vivemos em
um mundo sustentado pela providência de Deus, mas ainda marcado pela
fragilidade, pela corrupção e pela morte.
Nenhum sistema humano é perfeito.
Nenhuma cadeia de produção é infalível.
Nenhuma empresa está acima do erro.
Nenhuma agência de fiscalização consegue
eliminar completamente todos os riscos.
Reconhecer
a realidade da queda, porém, não pode se transformar em desculpa para a
negligência.
A doutrina
da depravação humana não nos ensina a aceitar passivamente a
irresponsabilidade. Pelo contrário, ela nos adverte contra a autossuficiência e
demonstra a necessidade de limites, fiscalização e prestação de contas.
Empresas
responsáveis pela produção de alimentos devem adotar padrões rigorosos de
higiene, segurança e controle.
Os órgãos públicos devem fiscalizar com
seriedade.
As
informações sobre contaminações precisam ser divulgadas de forma rápida,
acessível e clara.
Quando
houver negligência, ocultação ou irresponsabilidade, os envolvidos devem
prestar contas.
A vida
humana não pode ser tratada apenas como um número dentro de uma planilha de
custos e lucros.
A Bíblia
reconhece a propriedade privada, valoriza o trabalho diligente e ensina a boa
administração dos recursos. Entretanto, também condena a fraude, a exploração,
a opressão e toda forma de enriquecimento construído sobre o sofrimento do
próximo.
Deus não observa apenas quanto uma sociedade
produz.
Ele também observa como ela produz.
Não
considera apenas a riqueza acumulada, mas os meios utilizados para acumulá-la e
as consequências impostas aos trabalhadores e às pessoas mais vulneráveis.
Quando a
aposentadoria já não parece possível dentro do próprio país
A
insegurança econômica também aparece em outro fenômeno que merece nossa
atenção.
Um número
crescente de americanos próximos da aposentadoria ou já aposentados tem
considerado viver em outros países.
Durante
décadas, lugares como Flórida e Arizona foram vistos como destinos naturais
para a aposentadoria americana. Hoje, porém, muitos aposentados estão olhando
para fora dos Estados Unidos.
Canadá,
México, Costa Rica, Portugal e outros países passaram a ser considerados por
pessoas que procuram custo de vida mais baixo, moradia mais acessível e
alternativas para os gastos com saúde.
Dados
divulgados em 2026 indicavam que aproximadamente 712 mil americanos recebiam
benefícios da Social Security em endereços no exterior. Embora esse número
represente menos de 1% dos beneficiários, pesquisas também apontavam que uma
parcela muito maior já havia considerado seriamente viver fora dos Estados
Unidos. O custo de vida aparecia como uma das principais razões.
Uma
pesquisa citada em março de 2026 indicava que 17% dos americanos com 55 anos ou
mais desejavam deixar o país, percentual consideravelmente superior ao
observado em levantamentos históricos. Entre as preocupações mencionadas
estavam o preço dos alimentos, da gasolina e da habitação.
É preciso evitar exageros.
Não estamos
diante de uma fuga generalizada de todos os idosos americanos. A maioria
permanece no país, e muitas pessoas que demonstram interesse em viver no
exterior jamais concretizam essa mudança.
Mudar-se para outro país também não é uma
solução simples.
Há questões
de visto, tributação, idioma, distância da família, acesso à saúde e adaptação
cultural. Além disso, embora cidadãos americanos geralmente possam continuar
recebendo a Social Security no exterior, o Medicare normalmente não oferece
cobertura médica fora dos Estados Unidos.
Ainda assim, a tendência revela algo
importante.
Quando
homens e mulheres trabalham durante toda a vida, contribuem para o sistema e,
ao envelhecerem, concluem que suas economias renderão melhor fora do país,
precisamos prestar atenção.
Para alguns, viver no exterior é uma aventura
desejada.
Para outros, é uma escolha de estilo de vida.
Mas, para muitos, pode ser uma decisão movida
pela necessidade.
Não estão
necessariamente deixando os Estados Unidos porque deixaram de amar seu país.
Estão procurando um lugar onde o benefício da aposentadoria consiga pagar
moradia, alimentação e cuidados médicos sem consumir toda a reserva acumulada
durante décadas.
Há algo doloroso nisso.
Uma
sociedade deve ser avaliada também pela maneira como trata aqueles que
envelheceram trabalhando dentro dela.
A Bíblia ordena:
“Diante das
cãs te levantarás, e honrarás a face do velho, e terás temor do teu Deus. Eu
sou o Senhor” (Levítico 19.32).
Honrar os idosos não consiste apenas em
oferecer palavras respeitosas.
Também envolve enxergar sua vulnerabilidade.
Envelhecer
frequentemente significa conviver com limitações físicas, custos médicos
maiores, renda fixa e crescente dependência de outras pessoas. Uma sociedade
verdadeiramente humana não trata seus idosos como um peso econômico.
O cristão
também não deve desprezar aquele que decide viver em outro país para fazer seus
recursos renderem mais.
Talvez essa pessoa não esteja procurando luxo.
Talvez esteja apenas procurando tranquilidade.
Talvez
deseje viver os anos que lhe restam sem o medo constante de perder a casa, não
conseguir pagar o tratamento médico ou consumir todas as suas economias.
A saída de aposentados não prova, por si só, o
fracasso completo do país.
Entretanto, funciona como um sinal de alerta.
Se um
número crescente de idosos conclui que precisa deixar uma das nações mais ricas
do mundo para conseguir viver com maior dignidade, algo merece ser revisto.
A questão
migratória e os limites da autoridade
Há ainda outra realidade que não pode ser
ignorada.
Enquanto
alguns americanos consideram deixar o país em busca de uma vida mais acessível,
muitos imigrantes que vivem aqui enfrentam medo, insegurança e o risco de
separação de suas famílias.
A questão migratória é complexa.
Uma nação
possui o direito e a responsabilidade de estabelecer fronteiras, criar leis de
imigração, proteger sua população e agir contra atividades criminosas.
Não creio que reconhecer esses princípios seja
incompatível com a fé cristã.
Também não
seria justo afirmar que todo agente do ICE age de maneira cruel ou ilegal.
Existem servidores cumprindo funções estabelecidas pela lei, e não conhecemos o
coração, as circunstâncias ou as decisões individuais de cada um.
Precisamos evitar condenações generalizadas.
Contudo,
reconhecer a legitimidade da autoridade não significa aprovar tudo o que é
feito em nome dela.
Há
operações, políticas de detenção e procedimentos do ICE que têm sido duramente
questionados por tribunais, organizações de direitos civis, profissionais de
saúde e familiares de pessoas detidas.
Em 2026,
diferentes cortes federais rejeitaram políticas que pretendiam manter grandes
grupos de imigrantes detidos sem a oportunidade de solicitar liberdade mediante
fiança. Uma corte de apelações afirmou que essa prática levantava sérias
questões constitucionais, enquanto outros tribunais determinaram que pessoas
submetidas a longos períodos de detenção deveriam receber audiências que
examinassem a necessidade de mantê-las presas.
Um
relatório de investigação produzido no Senado registrou mais de mil denúncias
consideradas verossímeis de abusos em centros de detenção migratória, incluindo
alegações de negligência médica e privação de alimentação ou água adequadas.
Organizações de direitos humanos também relataram um aumento preocupante nas
mortes sob custódia migratória.
Essas são acusações graves.
Também é
correto registrar que o ICE afirma oficialmente que as instalações sob sua
responsabilidade devem seguir padrões nacionais de detenção e que toda pessoa
encontrada pela agência possui direito ao devido processo legal. A agência
declara ainda que as remoções devem ocorrer de maneira legal, segura e humana.
É exatamente aí que surge a responsabilidade
pública.
Quando uma
instituição declara determinados padrões, suas ações devem ser avaliadas à luz
desses mesmos padrões.
Não devemos condenar antecipadamente toda
operação.
Mas também
não devemos fechar os olhos quando existem evidências de abuso, decisões
judiciais contrárias, denúncias consistentes ou mortes que precisam ser
investigadas.
A autoridade civil foi instituída por Deus,
conforme Romanos 13.
Mas o governo não é Deus.
Nenhuma agência é soberana.
Nenhum agente público está acima da lei moral.
Nenhuma
autoridade recebe de Deus o direito de agir com arbitrariedade, humilhação ou
crueldade.
A aplicação da lei precisa possuir limites.
Deve respeitar o devido processo.
Deve
distinguir entre pessoas perigosas e famílias que enfrentam apenas
irregularidades administrativas ou migratórias.
Deve proteger a sociedade sem transformar todo
estrangeiro em ameaça.
Quando
pessoas são detidas sem acesso adequado à defesa, quando famílias são separadas
sem necessidade, quando enfermos não recebem o tratamento devido ou quando
seres humanos são tratados como números descartáveis, devemos rejeitar essas
práticas.
Não porque as fronteiras sejam irrelevantes.
Não porque as leis não devam ser cumpridas.
Mas porque a condição migratória de uma pessoa
não apaga a imagem de Deus nela.
A expressão “imigrante ilegal” pode descrever
uma situação jurídica.
Não descreve toda a pessoa.
Diante de
nós não existe apenas um processo, um número ou uma irregularidade documental.
Existe alguém criado à imagem e semelhança de
Deus.
“Não
oprimirás o estrangeiro”
A Palavra de Deus declara:
“Não
oprimirás o estrangeiro; vós conheceis o coração do estrangeiro, pois fostes
estrangeiros na terra do Egito” (Êxodo 23.9).
Esse mandamento não aboliu as fronteiras de
Israel.
Também não
eliminou a responsabilidade civil ou as distinções entre israelitas e
estrangeiros.
Ele
estabeleceu, porém, que o poder não deveria ser utilizado para oprimir aquele
que se encontrava em posição de vulnerabilidade.
Israel deveria lembrar-se de sua própria
história.
O povo
sabia o que significava viver em terra estrangeira, sob o domínio de
autoridades mais fortes.
A memória da aflição deveria produzir
misericórdia.
A memória da graça deveria impedir a
crueldade.
O mesmo princípio deve alcançar nossa
consciência.
Os cristãos não podem permitir que o discurso
político apague a clareza das Escrituras.
Não podemos
justificar toda ação do governo apenas porque ela é praticada pelo partido com
o qual temos maior afinidade.
Também não
podemos negar todo direito do Estado apenas porque discordamos da administração
que está no poder.
Precisamos conservar a consciência cativa à
Palavra de Deus.
Isso exige reconhecer o que é legítimo e
rejeitar o que é perverso.
A fronteira pode ser legítima.
A desumanização não é.
A aplicação da lei pode ser necessária.
A crueldade não é.
A deportação pode ser legalmente determinada
em determinadas circunstâncias.
A negação do devido processo não deve ser
normalizada.
A segurança pública é uma responsabilidade do
Estado.
A humilhação pública de seres humanos não é.
Dois
extremos que precisamos rejeitar
Precisamos evitar dois extremos.
O primeiro
é transformar todo sofrimento econômico, toda questão sanitária e todo debate
migratório em propaganda partidária.
Nenhum partido representa o Reino de Deus.
Nenhum governante oferece uma explicação
completa para problemas tão complexos.
Inflação,
habitação, saúde, segurança alimentar, imigração e aposentadoria são questões
que atravessam diferentes administrações, decisões judiciais, interesses
econômicos e políticas acumuladas ao longo de décadas.
Os partidos costumam destacar os pecados de
seus adversários e minimizar os próprios.
O cristão, porém, não pode possuir uma
consciência seletiva.
A injustiça não se torna aceitável porque foi
praticada pelo partido que apoiamos.
A crueldade não se transforma em justiça
porque recebeu uma justificativa política.
A
irresponsabilidade não se torna sabedoria porque foi defendida por alguém do
nosso grupo.
O segundo
extremo é usar a complexidade dos problemas como desculpa para o silêncio.
É possível
reconhecer que uma questão é difícil e, ao mesmo tempo, denunciar aquilo que
está claramente errado.
É possível defender a existência de leis
migratórias e condenar abusos em sua aplicação.
É possível valorizar a livre iniciativa e
exigir responsabilidade das empresas.
É possível
reconhecer os benefícios do sistema econômico americano e questionar por que
tantos trabalhadores e aposentados estão sendo esmagados pelo custo de vida.
É possível
agradecer pelas virtudes dos Estados Unidos sem fechar os olhos para suas
contradições.
Não precisamos escolher entre a adulação e o
desprezo.
O cristão não foi chamado para idolatrar uma
nação.
Também não foi chamado para odiá-la.
Foi chamado
para amar a verdade, buscar o bem do próximo e viver sob o senhorio de Cristo.
A
responsabilidade da igreja
A igreja não foi chamada para substituir o
governo.
Não possui
autoridade para controlar a economia, administrar as fronteiras ou fiscalizar
toda a cadeia de produção de alimentos.
Entretanto, também não foi chamada para
assistir passivamente ao sofrimento humano.
Em Atos 6,
quando algumas viúvas estavam sendo negligenciadas na distribuição diária, os
apóstolos não disseram que o problema era complexo demais.
Eles organizaram o cuidado.
Escolheram homens qualificados.
Protegeram o ministério da Palavra sem
abandonar a necessidade concreta.
A igreja primitiva não separava verdade
doutrinária de misericórdia prática.
Da mesma
maneira, nossas igrejas precisam enxergar as famílias que estão sofrendo com o
aumento do custo de vida.
Precisamos saber quem está escolhendo entre
comprar remédios e alimentos.
Quem está atrasado com o aluguel.
Quem perdeu horas de trabalho.
Quem precisa de transporte.
Quem enfrenta uma enfermidade sem recursos.
Precisamos
enxergar os idosos que vivem com renda fixa e observam suas economias perderem
poder de compra.
Alguns
podem estar considerando deixar o país não porque desejam abandonar sua
história ou sua família, mas porque temem não conseguir envelhecer com
dignidade dentro dele.
Também precisamos enxergar nossos irmãos
imigrantes.
Muitos trabalham.
Criam filhos.
Servem nas igrejas.
Cuidam de idosos.
Colhem alimentos.
Constroem casas.
Limpam hospitais.
Trabalham em restaurantes.
E vivem sob
o medo de que uma operação, uma detenção ou uma decisão administrativa destrua
sua família de um dia para o outro.
A igreja não deve incentivar a criminalidade
nem ensinar o desprezo pelas leis.
Mas deve
oferecer oração, orientação, cuidado pastoral, alimento, auxílio jurídico
responsável e presença cristã.
Deve consolar famílias separadas.
Deve visitar os presos e detidos.
Deve ajudar aqueles que perderam seu provedor.
Deve lembrar às autoridades que o poder
recebido de Deus não é absoluto.
Dizer
apenas “Deus proverá”, sem nos perguntarmos se Deus pretende prover por meio de
nossas mãos, pode ser uma forma piedosa de omissão.
A providência divina não elimina a
responsabilidade humana.
Muitas vezes, ela a utiliza.
Deus alimenta por meio da generosidade de seu
povo.
Acolhe por meio da hospitalidade cristã.
Consola por meio da presença da igreja.
Protege por
meio de leis justas, juízes responsáveis e cidadãos dispostos a exigir
prestação de contas.
O pão nosso
de cada dia
Jesus nos ensinou a orar:
“O pão nosso de cada dia nos dá hoje.”
Essa oração reconhece que o pão é necessário.
Reconhece que nossa dependência é diária.
Reconhece que Deus é o verdadeiro Provedor.
Mas existe algo nessa oração que
frequentemente ignoramos.
Jesus não nos ensinou a pedir apenas o meu
pão.
Ele nos ensinou a pedir o nosso pão.
A oração do Senhor confronta nossa
espiritualidade individualista.
Ela nos obriga a olhar para a nossa mesa e
também para a mesa do próximo.
Quando
damos graças pelo alimento, reconhecemos que ele não é fruto apenas de nosso
salário.
Antes de
chegar à nossa casa, aquele alimento passou pelas mãos de agricultores,
trabalhadores rurais, motoristas, funcionários de depósitos, inspetores,
comerciantes e atendentes.
Muitos desses trabalhadores são imigrantes.
Alguns vivem sob insegurança jurídica.
Outros recebem salários baixos.
Muitos realizam trabalhos pesados para que os
alimentos cheguem às nossas mesas.
Não podemos
agradecer a Deus pelo alimento e desprezar as pessoas que trabalharam para
produzi-lo.
Não podemos pedir o pão nosso e ignorar quem
não tem pão.
Não podemos
condenar a contaminação dos alimentos e permanecer indiferentes à exploração
dos trabalhadores que os produzem.
Não podemos
afirmar que defendemos a família e aceitar, sem qualquer questionamento,
práticas que destroem famílias sem o devido processo legal.
Nossa gratidão precisa produzir generosidade.
Nossa fé precisa produzir misericórdia.
Nossa doutrina precisa produzir obediência.
Uma
esperança que não depende da América
O cristão não deve enfrentar essa realidade
dominado pelo pânico.
Nossa segurança final não está na economia
americana.
Não está no mercado financeiro.
Não está na estabilidade do dólar.
Não está na Casa Branca.
Não está no Congresso.
Não está no ICE.
Não está na FDA.
Não está em nenhuma instituição humana.
Essas instituições possuem funções legítimas.
Precisamos reconhecer quando cumprem bem suas
responsabilidades.
Também precisamos cobrá-las quando falham.
Mas nenhuma delas pode sustentar nossa
esperança final.
Nossa esperança está no Senhor.
Cristo morreu e ressuscitou.
Ascendeu aos céus.
Está assentado à direita do Pai.
Governa soberanamente todas as nações.
Nenhum presidente está fora de seu domínio.
Nenhuma agência governamental está acima de
seu juízo.
Nenhuma empresa está escondida de seus olhos.
Nenhuma família aflita é invisível para Ele.
Nenhum idoso preocupado com o futuro é
desconhecido diante de seu trono.
Nenhum estrangeiro humilhado é ignorado pelo
Rei dos reis.
O Reino de Cristo não pode ser abalado.
Isso não significa que permaneceremos
passivos.
Exatamente porque Cristo reina, devemos viver
com coragem.
Exatamente porque Ele julgará o mundo com
justiça, devemos rejeitar o mal.
Exatamente
porque fomos alcançados pela graça, devemos tratar o próximo com misericórdia.
Exatamente
porque nossa cidadania está nos céus, devemos agir com responsabilidade
enquanto vivemos na terra.
Assim
caminham os Estados Unidos
Assim caminham os Estados Unidos.
Uma nação de imensa riqueza, mas marcada pela
ansiedade de milhões de famílias.
Um país que produz abundância, mas onde muitos
ainda lutam para pagar o básico.
Uma nação
capaz de alimentar milhões, mas que enfrenta recalls de ovos, alfaces, frutas,
queijos, fórmulas infantis e outros produtos.
Um país que
proclama liberdade e devido processo, mas onde práticas migratórias têm sido
contestadas nos tribunais por ultrapassarem limites legais e constitucionais.
Uma
sociedade que valoriza a família, mas onde famílias de imigrantes vivem sob o
medo constante da separação.
Uma nação
construída pelo trabalho de várias gerações, mas onde um número crescente de
aposentados considera viver no exterior porque seus benefícios e suas economias
podem render mais em países com custo de vida menor.
Uma nação
forte em poder, mas profundamente fragilizada em sua sensação de segurança.
Não digo isso com arrogância.
Também não digo como quem possui soluções
simples para problemas tão grandes.
Reconheço que há diferentes perspectivas
legítimas.
Reconheço
que existem pessoas sinceras e bem-intencionadas em lados diferentes dessas
discussões.
Reconheço
também que decisões públicas sempre produzem consequências complexas e que nem
toda crítica representa toda a verdade.
Entretanto, a humildade não exige silêncio.
Podemos falar com cautela sem perder a
firmeza.
Podemos reconhecer nossas limitações sem
abandonar nossas convicções.
Podemos ouvir outros argumentos sem entregar
nossa consciência ao espírito do tempo.
Não devemos odiar os Estados Unidos.
Também não devemos idealizá-los.
A gratidão por esta terra não exige silêncio
diante de seus pecados.
O verdadeiro amor não é cego.
Ele reconhece aquilo que é bom.
Preserva aquilo que é justo.
Agradece pelas oportunidades recebidas.
Honra aqueles que servem com integridade.
Mas também rejeita aquilo que não presta.
Confronta a exploração.
Denuncia a crueldade.
Questiona a negligência.
Recusa a desumanização.
Precisamos orar pelos governantes.
Precisamos exigir justiça sem idolatrar
ideologias.
Precisamos administrar nossos recursos com
sabedoria.
Precisamos verificar os alertas de segurança
alimentar e proteger nossas famílias.
Precisamos socorrer os necessitados.
Precisamos honrar e cuidar dos idosos.
Precisamos acolher o estrangeiro.
Precisamos defender o devido processo legal.
Precisamos resistir à normalização da
crueldade.
Precisamos recuperar uma vida mais simples,
menos consumista e mais comunitária.
Acima de tudo, precisamos lembrar que os
reinos deste mundo são passageiros.
Os governos mudam.
As economias oscilam.
Os mercados crescem e diminuem.
As moedas perdem valor.
As grandes potências sobem e descem.
Mas Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e
eternamente.
Talvez a pergunta não seja apenas:
Como os Estados Unidos chegaram a este ponto?
Talvez também precisemos perguntar:
Como nós, cristãos, caminharemos neste tempo?
Com medo ou com fé?
Com indiferença ou com compaixão?
Com egoísmo ou com generosidade?
Com arrogância ou com humildade?
Com submissão partidária ou com fidelidade
bíblica?
Com
confiança nos homens ou com dependência do Deus que governa soberanamente a
história?
Os Estados Unidos continuarão caminhando.
A questão é
se continuarão normalizando uma prosperidade que impressiona o mundo, mas não
consegue trazer tranquilidade à mesa, segurança aos idosos, dignidade às
famílias e tratamento justo ao estrangeiro.
Quanto à igreja, ela não pode caminhar segundo
o espírito deste século.
Deve caminhar nas pegadas de Cristo.
Falando a verdade, mas sem arrogância.
Exercendo discernimento, mas sem parcialidade.
Reconhecendo o bem, mas rejeitando o mal.
Praticando a justiça.
Amando a misericórdia.
Defendendo o vulnerável.
Honrando o idoso.
Acolhendo o estrangeiro.
Repartindo o pão.
E esperando o Reino inabalável daquele que
fará novas todas as coisas.
Soli Deo
Gloria!
✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026
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