quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Assim caminham os Estados Unidos: uma nação rica, mas cada vez mais insegura

Assim caminham os Estados Unidos: uma nação rica, mas cada vez mais insegura

Escrevo esta reflexão com cuidado.

Não escrevo como economista, jurista ou especialista em políticas públicas. Também não escrevo como alguém que possua todas as respostas para problemas tão complexos. Não pretendo posar como dono da verdade, nem reduzir a realidade americana a slogans políticos.

Reconheço aquilo que existe de bom nos Estados Unidos.

Esta é uma nação que tem oferecido oportunidades a milhões de pessoas. Um país de grande capacidade produtiva, extraordinário desenvolvimento científico, liberdade religiosa, instituições importantes, universidades reconhecidas e uma tradição de generosidade que não deve ser ignorada.

Muitas famílias chegaram aqui fugindo da pobreza, da perseguição e da ausência de oportunidades. Trabalharam, criaram seus filhos e construíram uma vida digna. Eu não desprezo essa história.

Gratidão, porém, não exige cegueira.

Reconhecer o que existe de bom não nos obriga a chamar o mal de bem. Amar uma nação não significa idealizá-la. O verdadeiro amor é capaz de agradecer pelas virtudes e, ao mesmo tempo, lamentar os pecados, as injustiças e as contradições que precisam ser corrigidas.

É com esse espírito que olho para o momento atual.

Há algo profundamente contraditório acontecendo nos Estados Unidos.

Estamos falando de uma das nações mais ricas, produtivas e influentes da história. Um país capaz de movimentar trilhões de dólares, desenvolver tecnologias extraordinárias, explorar o espaço e abrigar algumas das maiores empresas do mundo.

Entretanto, cada vez mais pessoas fazem contas diante das prateleiras do supermercado.

O aluguel vence.

O seguro-saúde aumenta.

A consulta médica é adiada.

O tanque do carro não pode ser completamente abastecido.

O salário entra pela porta da frente, mas parece desaparecer antes que todas as necessidades da casa sejam atendidas.

Supermercado.

Aluguel.

Saúde.

Combustível.

Essas palavras resumem a pressão diária de milhões de pessoas que trabalham, produzem, pagam impostos e, ainda assim, enfrentam dificuldades para chegar ao fim do mês.

Em junho de 2026, o índice de preços ao consumidor estava 3,5% acima do mesmo período do ano anterior. Os preços dos alimentos haviam aumentado 3%, enquanto os alimentos comprados para consumo doméstico subiram 2,7%. A energia estava 15,7% mais cara, e o preço da gasolina havia aumentado 26,7% em doze meses.

Os números ajudam a compreender o cenário, mas não contam toda a história.

A economia não é vivida apenas em gráficos, índices e discursos oficiais.

Ela é vivida na cozinha.

É vivida na farmácia.

É vivida no posto de gasolina.

É vivida na conversa silenciosa entre marido e esposa quando percebem que o dinheiro não será suficiente para todas as despesas.

É vivida na decisão de adiar uma consulta médica, reduzir a compra de alimentos ou usar o cartão de crédito para pagar aquilo que deveria caber no orçamento mensal.

Os Estados Unidos continuam sendo um país extraordinariamente rico.

Mas uma nação rica pode estar cheia de pessoas cansadas.

Pode possuir abundância econômica e, ao mesmo tempo, produzir insegurança doméstica.

Pode celebrar o crescimento dos mercados enquanto trabalhadores honestos lutam para pagar aluguel, alimentação, transporte e cuidados médicos.

A riqueza de uma nação não deveria ser medida apenas pelo tamanho de sua economia, mas também pela maneira como a vida comum é sustentada dentro dela.

Quando homens e mulheres trabalham honestamente e, mesmo assim, não conseguem viver com alguma estabilidade, há uma realidade que precisa ser examinada.

Quando uma enfermidade pode comprometer financeiramente uma família inteira, alguma coisa está fora do lugar.

Quando o aluguel consome grande parte da renda e impede uma família de construir qualquer segurança, não basta repetir que a economia está forte.

Quando pais precisam escolher entre comprar alimentos, abastecer o carro ou pagar uma consulta médica, as estatísticas deixam de ser suficientes.

É preciso enxergar pessoas.

Quando até a mesa se torna motivo de preocupação

Não bastasse o peso crescente do custo de vida, outro fator tem aumentado a ansiedade das famílias: os sucessivos recalls de alimentos.

Já não se trata apenas de descobrir quanto será necessário pagar pela comida.

Muitas pessoas também passaram a perguntar se aquilo que compraram é seguro para ser consumido.

Em julho de 2026, ovos produzidos e distribuídos a partir de fazendas no Texas foram recolhidos durante uma investigação relacionada a um surto de Salmonella. Naquele mesmo mês, a FDA advertiu os consumidores para não ingerirem determinados produtos de alface-americana ligados a uma investigação de casos de ciclosporíase em nove estados.

A relação de investigações sanitárias de 2026 também incluiu mirtilos congelados associados a E. coli, fórmula infantil em pó investigada em casos de botulismo infantil, queijo macio relacionado à Listeria, além de produtos contendo pó de moringa e queijo cheddar cru.

É importante manter o equilíbrio.

Esses episódios não significam que todo alimento vendido nos Estados Unidos seja perigoso. Os próprios recalls mostram que existem sistemas de investigação, fiscalização, comunicação pública e retirada de produtos do mercado. Isso deve ser reconhecido como algo necessário e positivo.

Seria injusto concluir que toda a cadeia de alimentos está comprometida ou que os órgãos responsáveis nada fazem.

Ao mesmo tempo, não devemos minimizar o impacto dessas notícias.

O consumidor já não verifica apenas o preço, a data de validade e os ingredientes.

Agora, em muitos casos, precisa verificar também se o produto não foi incluído em algum alerta sanitário.

O alimento, que deveria representar cuidado, sustento e comunhão, passa a ser acompanhado pela dúvida.

Pais e mães se perguntam se aquilo que servirão aos filhos é realmente seguro.

Idosos e pessoas com a saúde fragilizada precisam ter atenção redobrada.

Famílias que já enfrentam preços altos podem precisar descartar alimentos comprados com sacrifício porque foram incluídos em um recall.

Em uma sociedade marcada pela abundância, surge o receio de que aquilo que deveria alimentar também possa adoecer.

A insegurança deixa de estar apenas no bolso.

Ela chega à mesa.

Responsabilidade humana em um mundo caído

A Bíblia ensina que toda a criação foi afetada pela queda.

O pecado não atingiu apenas o coração humano. Seus efeitos alcançaram o trabalho, os relacionamentos, as instituições e a própria criação.

Paulo afirma que “toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Romanos 8.22).

Vivemos em um mundo sustentado pela providência de Deus, mas ainda marcado pela fragilidade, pela corrupção e pela morte.

Nenhum sistema humano é perfeito.

Nenhuma cadeia de produção é infalível.

Nenhuma empresa está acima do erro.

Nenhuma agência de fiscalização consegue eliminar completamente todos os riscos.

Reconhecer a realidade da queda, porém, não pode se transformar em desculpa para a negligência.

A doutrina da depravação humana não nos ensina a aceitar passivamente a irresponsabilidade. Pelo contrário, ela nos adverte contra a autossuficiência e demonstra a necessidade de limites, fiscalização e prestação de contas.

Empresas responsáveis pela produção de alimentos devem adotar padrões rigorosos de higiene, segurança e controle.

Os órgãos públicos devem fiscalizar com seriedade.

As informações sobre contaminações precisam ser divulgadas de forma rápida, acessível e clara.

Quando houver negligência, ocultação ou irresponsabilidade, os envolvidos devem prestar contas.

A vida humana não pode ser tratada apenas como um número dentro de uma planilha de custos e lucros.

A Bíblia reconhece a propriedade privada, valoriza o trabalho diligente e ensina a boa administração dos recursos. Entretanto, também condena a fraude, a exploração, a opressão e toda forma de enriquecimento construído sobre o sofrimento do próximo.

Deus não observa apenas quanto uma sociedade produz.

Ele também observa como ela produz.

Não considera apenas a riqueza acumulada, mas os meios utilizados para acumulá-la e as consequências impostas aos trabalhadores e às pessoas mais vulneráveis.

Quando a aposentadoria já não parece possível dentro do próprio país

A insegurança econômica também aparece em outro fenômeno que merece nossa atenção.

Um número crescente de americanos próximos da aposentadoria ou já aposentados tem considerado viver em outros países.

Durante décadas, lugares como Flórida e Arizona foram vistos como destinos naturais para a aposentadoria americana. Hoje, porém, muitos aposentados estão olhando para fora dos Estados Unidos.

Canadá, México, Costa Rica, Portugal e outros países passaram a ser considerados por pessoas que procuram custo de vida mais baixo, moradia mais acessível e alternativas para os gastos com saúde.

Dados divulgados em 2026 indicavam que aproximadamente 712 mil americanos recebiam benefícios da Social Security em endereços no exterior. Embora esse número represente menos de 1% dos beneficiários, pesquisas também apontavam que uma parcela muito maior já havia considerado seriamente viver fora dos Estados Unidos. O custo de vida aparecia como uma das principais razões.

Uma pesquisa citada em março de 2026 indicava que 17% dos americanos com 55 anos ou mais desejavam deixar o país, percentual consideravelmente superior ao observado em levantamentos históricos. Entre as preocupações mencionadas estavam o preço dos alimentos, da gasolina e da habitação.

É preciso evitar exageros.

Não estamos diante de uma fuga generalizada de todos os idosos americanos. A maioria permanece no país, e muitas pessoas que demonstram interesse em viver no exterior jamais concretizam essa mudança.

Mudar-se para outro país também não é uma solução simples.

Há questões de visto, tributação, idioma, distância da família, acesso à saúde e adaptação cultural. Além disso, embora cidadãos americanos geralmente possam continuar recebendo a Social Security no exterior, o Medicare normalmente não oferece cobertura médica fora dos Estados Unidos.

Ainda assim, a tendência revela algo importante.

Quando homens e mulheres trabalham durante toda a vida, contribuem para o sistema e, ao envelhecerem, concluem que suas economias renderão melhor fora do país, precisamos prestar atenção.

Para alguns, viver no exterior é uma aventura desejada.

Para outros, é uma escolha de estilo de vida.

Mas, para muitos, pode ser uma decisão movida pela necessidade.

Não estão necessariamente deixando os Estados Unidos porque deixaram de amar seu país. Estão procurando um lugar onde o benefício da aposentadoria consiga pagar moradia, alimentação e cuidados médicos sem consumir toda a reserva acumulada durante décadas.

Há algo doloroso nisso.

Uma sociedade deve ser avaliada também pela maneira como trata aqueles que envelheceram trabalhando dentro dela.

A Bíblia ordena:

“Diante das cãs te levantarás, e honrarás a face do velho, e terás temor do teu Deus. Eu sou o Senhor” (Levítico 19.32).

Honrar os idosos não consiste apenas em oferecer palavras respeitosas.

Também envolve enxergar sua vulnerabilidade.

Envelhecer frequentemente significa conviver com limitações físicas, custos médicos maiores, renda fixa e crescente dependência de outras pessoas. Uma sociedade verdadeiramente humana não trata seus idosos como um peso econômico.

O cristão também não deve desprezar aquele que decide viver em outro país para fazer seus recursos renderem mais.

Talvez essa pessoa não esteja procurando luxo.

Talvez esteja apenas procurando tranquilidade.

Talvez deseje viver os anos que lhe restam sem o medo constante de perder a casa, não conseguir pagar o tratamento médico ou consumir todas as suas economias.

A saída de aposentados não prova, por si só, o fracasso completo do país.

Entretanto, funciona como um sinal de alerta.

Se um número crescente de idosos conclui que precisa deixar uma das nações mais ricas do mundo para conseguir viver com maior dignidade, algo merece ser revisto.

A questão migratória e os limites da autoridade

Há ainda outra realidade que não pode ser ignorada.

Enquanto alguns americanos consideram deixar o país em busca de uma vida mais acessível, muitos imigrantes que vivem aqui enfrentam medo, insegurança e o risco de separação de suas famílias.

A questão migratória é complexa.

Uma nação possui o direito e a responsabilidade de estabelecer fronteiras, criar leis de imigração, proteger sua população e agir contra atividades criminosas.

Não creio que reconhecer esses princípios seja incompatível com a fé cristã.

Também não seria justo afirmar que todo agente do ICE age de maneira cruel ou ilegal. Existem servidores cumprindo funções estabelecidas pela lei, e não conhecemos o coração, as circunstâncias ou as decisões individuais de cada um.

Precisamos evitar condenações generalizadas.

Contudo, reconhecer a legitimidade da autoridade não significa aprovar tudo o que é feito em nome dela.

Há operações, políticas de detenção e procedimentos do ICE que têm sido duramente questionados por tribunais, organizações de direitos civis, profissionais de saúde e familiares de pessoas detidas.

Em 2026, diferentes cortes federais rejeitaram políticas que pretendiam manter grandes grupos de imigrantes detidos sem a oportunidade de solicitar liberdade mediante fiança. Uma corte de apelações afirmou que essa prática levantava sérias questões constitucionais, enquanto outros tribunais determinaram que pessoas submetidas a longos períodos de detenção deveriam receber audiências que examinassem a necessidade de mantê-las presas.

Um relatório de investigação produzido no Senado registrou mais de mil denúncias consideradas verossímeis de abusos em centros de detenção migratória, incluindo alegações de negligência médica e privação de alimentação ou água adequadas. Organizações de direitos humanos também relataram um aumento preocupante nas mortes sob custódia migratória.

Essas são acusações graves.

Também é correto registrar que o ICE afirma oficialmente que as instalações sob sua responsabilidade devem seguir padrões nacionais de detenção e que toda pessoa encontrada pela agência possui direito ao devido processo legal. A agência declara ainda que as remoções devem ocorrer de maneira legal, segura e humana.

É exatamente aí que surge a responsabilidade pública.

Quando uma instituição declara determinados padrões, suas ações devem ser avaliadas à luz desses mesmos padrões.

Não devemos condenar antecipadamente toda operação.

Mas também não devemos fechar os olhos quando existem evidências de abuso, decisões judiciais contrárias, denúncias consistentes ou mortes que precisam ser investigadas.

A autoridade civil foi instituída por Deus, conforme Romanos 13.

Mas o governo não é Deus.

Nenhuma agência é soberana.

Nenhum agente público está acima da lei moral.

Nenhuma autoridade recebe de Deus o direito de agir com arbitrariedade, humilhação ou crueldade.

A aplicação da lei precisa possuir limites.

Deve respeitar o devido processo.

Deve distinguir entre pessoas perigosas e famílias que enfrentam apenas irregularidades administrativas ou migratórias.

Deve proteger a sociedade sem transformar todo estrangeiro em ameaça.

Quando pessoas são detidas sem acesso adequado à defesa, quando famílias são separadas sem necessidade, quando enfermos não recebem o tratamento devido ou quando seres humanos são tratados como números descartáveis, devemos rejeitar essas práticas.

Não porque as fronteiras sejam irrelevantes.

Não porque as leis não devam ser cumpridas.

Mas porque a condição migratória de uma pessoa não apaga a imagem de Deus nela.

A expressão “imigrante ilegal” pode descrever uma situação jurídica.

Não descreve toda a pessoa.

Diante de nós não existe apenas um processo, um número ou uma irregularidade documental.

Existe alguém criado à imagem e semelhança de Deus.

“Não oprimirás o estrangeiro”

A Palavra de Deus declara:

“Não oprimirás o estrangeiro; vós conheceis o coração do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito” (Êxodo 23.9).

Esse mandamento não aboliu as fronteiras de Israel.

Também não eliminou a responsabilidade civil ou as distinções entre israelitas e estrangeiros.

Ele estabeleceu, porém, que o poder não deveria ser utilizado para oprimir aquele que se encontrava em posição de vulnerabilidade.

Israel deveria lembrar-se de sua própria história.

O povo sabia o que significava viver em terra estrangeira, sob o domínio de autoridades mais fortes.

A memória da aflição deveria produzir misericórdia.

A memória da graça deveria impedir a crueldade.

O mesmo princípio deve alcançar nossa consciência.

Os cristãos não podem permitir que o discurso político apague a clareza das Escrituras.

Não podemos justificar toda ação do governo apenas porque ela é praticada pelo partido com o qual temos maior afinidade.

Também não podemos negar todo direito do Estado apenas porque discordamos da administração que está no poder.

Precisamos conservar a consciência cativa à Palavra de Deus.

Isso exige reconhecer o que é legítimo e rejeitar o que é perverso.

A fronteira pode ser legítima.

A desumanização não é.

A aplicação da lei pode ser necessária.

A crueldade não é.

A deportação pode ser legalmente determinada em determinadas circunstâncias.

A negação do devido processo não deve ser normalizada.

A segurança pública é uma responsabilidade do Estado.

A humilhação pública de seres humanos não é.

Dois extremos que precisamos rejeitar

Precisamos evitar dois extremos.

O primeiro é transformar todo sofrimento econômico, toda questão sanitária e todo debate migratório em propaganda partidária.

Nenhum partido representa o Reino de Deus.

Nenhum governante oferece uma explicação completa para problemas tão complexos.

Inflação, habitação, saúde, segurança alimentar, imigração e aposentadoria são questões que atravessam diferentes administrações, decisões judiciais, interesses econômicos e políticas acumuladas ao longo de décadas.

Os partidos costumam destacar os pecados de seus adversários e minimizar os próprios.

O cristão, porém, não pode possuir uma consciência seletiva.

A injustiça não se torna aceitável porque foi praticada pelo partido que apoiamos.

A crueldade não se transforma em justiça porque recebeu uma justificativa política.

A irresponsabilidade não se torna sabedoria porque foi defendida por alguém do nosso grupo.

O segundo extremo é usar a complexidade dos problemas como desculpa para o silêncio.

É possível reconhecer que uma questão é difícil e, ao mesmo tempo, denunciar aquilo que está claramente errado.

É possível defender a existência de leis migratórias e condenar abusos em sua aplicação.

É possível valorizar a livre iniciativa e exigir responsabilidade das empresas.

É possível reconhecer os benefícios do sistema econômico americano e questionar por que tantos trabalhadores e aposentados estão sendo esmagados pelo custo de vida.

É possível agradecer pelas virtudes dos Estados Unidos sem fechar os olhos para suas contradições.

Não precisamos escolher entre a adulação e o desprezo.

O cristão não foi chamado para idolatrar uma nação.

Também não foi chamado para odiá-la.

Foi chamado para amar a verdade, buscar o bem do próximo e viver sob o senhorio de Cristo.

A responsabilidade da igreja

A igreja não foi chamada para substituir o governo.

Não possui autoridade para controlar a economia, administrar as fronteiras ou fiscalizar toda a cadeia de produção de alimentos.

Entretanto, também não foi chamada para assistir passivamente ao sofrimento humano.

Em Atos 6, quando algumas viúvas estavam sendo negligenciadas na distribuição diária, os apóstolos não disseram que o problema era complexo demais.

Eles organizaram o cuidado.

Escolheram homens qualificados.

Protegeram o ministério da Palavra sem abandonar a necessidade concreta.

A igreja primitiva não separava verdade doutrinária de misericórdia prática.

Da mesma maneira, nossas igrejas precisam enxergar as famílias que estão sofrendo com o aumento do custo de vida.

Precisamos saber quem está escolhendo entre comprar remédios e alimentos.

Quem está atrasado com o aluguel.

Quem perdeu horas de trabalho.

Quem precisa de transporte.

Quem enfrenta uma enfermidade sem recursos.

Precisamos enxergar os idosos que vivem com renda fixa e observam suas economias perderem poder de compra.

Alguns podem estar considerando deixar o país não porque desejam abandonar sua história ou sua família, mas porque temem não conseguir envelhecer com dignidade dentro dele.

Também precisamos enxergar nossos irmãos imigrantes.

Muitos trabalham.

Criam filhos.

Servem nas igrejas.

Cuidam de idosos.

Colhem alimentos.

Constroem casas.

Limpam hospitais.

Trabalham em restaurantes.

E vivem sob o medo de que uma operação, uma detenção ou uma decisão administrativa destrua sua família de um dia para o outro.

A igreja não deve incentivar a criminalidade nem ensinar o desprezo pelas leis.

Mas deve oferecer oração, orientação, cuidado pastoral, alimento, auxílio jurídico responsável e presença cristã.

Deve consolar famílias separadas.

Deve visitar os presos e detidos.

Deve ajudar aqueles que perderam seu provedor.

Deve lembrar às autoridades que o poder recebido de Deus não é absoluto.

Dizer apenas “Deus proverá”, sem nos perguntarmos se Deus pretende prover por meio de nossas mãos, pode ser uma forma piedosa de omissão.

A providência divina não elimina a responsabilidade humana.

Muitas vezes, ela a utiliza.

Deus alimenta por meio da generosidade de seu povo.

Acolhe por meio da hospitalidade cristã.

Consola por meio da presença da igreja.

Protege por meio de leis justas, juízes responsáveis e cidadãos dispostos a exigir prestação de contas.

O pão nosso de cada dia

Jesus nos ensinou a orar:

“O pão nosso de cada dia nos dá hoje.”

Essa oração reconhece que o pão é necessário.

Reconhece que nossa dependência é diária.

Reconhece que Deus é o verdadeiro Provedor.

Mas existe algo nessa oração que frequentemente ignoramos.

Jesus não nos ensinou a pedir apenas o meu pão.

Ele nos ensinou a pedir o nosso pão.

A oração do Senhor confronta nossa espiritualidade individualista.

Ela nos obriga a olhar para a nossa mesa e também para a mesa do próximo.

Quando damos graças pelo alimento, reconhecemos que ele não é fruto apenas de nosso salário.

Antes de chegar à nossa casa, aquele alimento passou pelas mãos de agricultores, trabalhadores rurais, motoristas, funcionários de depósitos, inspetores, comerciantes e atendentes.

Muitos desses trabalhadores são imigrantes.

Alguns vivem sob insegurança jurídica.

Outros recebem salários baixos.

Muitos realizam trabalhos pesados para que os alimentos cheguem às nossas mesas.

Não podemos agradecer a Deus pelo alimento e desprezar as pessoas que trabalharam para produzi-lo.

Não podemos pedir o pão nosso e ignorar quem não tem pão.

Não podemos condenar a contaminação dos alimentos e permanecer indiferentes à exploração dos trabalhadores que os produzem.

Não podemos afirmar que defendemos a família e aceitar, sem qualquer questionamento, práticas que destroem famílias sem o devido processo legal.

Nossa gratidão precisa produzir generosidade.

Nossa fé precisa produzir misericórdia.

Nossa doutrina precisa produzir obediência.

Uma esperança que não depende da América

O cristão não deve enfrentar essa realidade dominado pelo pânico.

Nossa segurança final não está na economia americana.

Não está no mercado financeiro.

Não está na estabilidade do dólar.

Não está na Casa Branca.

Não está no Congresso.

Não está no ICE.

Não está na FDA.

Não está em nenhuma instituição humana.

Essas instituições possuem funções legítimas.

Precisamos reconhecer quando cumprem bem suas responsabilidades.

Também precisamos cobrá-las quando falham.

Mas nenhuma delas pode sustentar nossa esperança final.

Nossa esperança está no Senhor.

Cristo morreu e ressuscitou.

Ascendeu aos céus.

Está assentado à direita do Pai.

Governa soberanamente todas as nações.

Nenhum presidente está fora de seu domínio.

Nenhuma agência governamental está acima de seu juízo.

Nenhuma empresa está escondida de seus olhos.

Nenhuma família aflita é invisível para Ele.

Nenhum idoso preocupado com o futuro é desconhecido diante de seu trono.

Nenhum estrangeiro humilhado é ignorado pelo Rei dos reis.

O Reino de Cristo não pode ser abalado.

Isso não significa que permaneceremos passivos.

Exatamente porque Cristo reina, devemos viver com coragem.

Exatamente porque Ele julgará o mundo com justiça, devemos rejeitar o mal.

Exatamente porque fomos alcançados pela graça, devemos tratar o próximo com misericórdia.

Exatamente porque nossa cidadania está nos céus, devemos agir com responsabilidade enquanto vivemos na terra.

Assim caminham os Estados Unidos

Assim caminham os Estados Unidos.

Uma nação de imensa riqueza, mas marcada pela ansiedade de milhões de famílias.

Um país que produz abundância, mas onde muitos ainda lutam para pagar o básico.

Uma nação capaz de alimentar milhões, mas que enfrenta recalls de ovos, alfaces, frutas, queijos, fórmulas infantis e outros produtos.

Um país que proclama liberdade e devido processo, mas onde práticas migratórias têm sido contestadas nos tribunais por ultrapassarem limites legais e constitucionais.

Uma sociedade que valoriza a família, mas onde famílias de imigrantes vivem sob o medo constante da separação.

Uma nação construída pelo trabalho de várias gerações, mas onde um número crescente de aposentados considera viver no exterior porque seus benefícios e suas economias podem render mais em países com custo de vida menor.

Uma nação forte em poder, mas profundamente fragilizada em sua sensação de segurança.

Não digo isso com arrogância.

Também não digo como quem possui soluções simples para problemas tão grandes.

Reconheço que há diferentes perspectivas legítimas.

Reconheço que existem pessoas sinceras e bem-intencionadas em lados diferentes dessas discussões.

Reconheço também que decisões públicas sempre produzem consequências complexas e que nem toda crítica representa toda a verdade.

Entretanto, a humildade não exige silêncio.

Podemos falar com cautela sem perder a firmeza.

Podemos reconhecer nossas limitações sem abandonar nossas convicções.

Podemos ouvir outros argumentos sem entregar nossa consciência ao espírito do tempo.

Não devemos odiar os Estados Unidos.

Também não devemos idealizá-los.

A gratidão por esta terra não exige silêncio diante de seus pecados.

O verdadeiro amor não é cego.

Ele reconhece aquilo que é bom.

Preserva aquilo que é justo.

Agradece pelas oportunidades recebidas.

Honra aqueles que servem com integridade.

Mas também rejeita aquilo que não presta.

Confronta a exploração.

Denuncia a crueldade.

Questiona a negligência.

Recusa a desumanização.

Precisamos orar pelos governantes.

Precisamos exigir justiça sem idolatrar ideologias.

Precisamos administrar nossos recursos com sabedoria.

Precisamos verificar os alertas de segurança alimentar e proteger nossas famílias.

Precisamos socorrer os necessitados.

Precisamos honrar e cuidar dos idosos.

Precisamos acolher o estrangeiro.

Precisamos defender o devido processo legal.

Precisamos resistir à normalização da crueldade.

Precisamos recuperar uma vida mais simples, menos consumista e mais comunitária.

Acima de tudo, precisamos lembrar que os reinos deste mundo são passageiros.

Os governos mudam.

As economias oscilam.

Os mercados crescem e diminuem.

As moedas perdem valor.

As grandes potências sobem e descem.

Mas Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente.

Talvez a pergunta não seja apenas:

Como os Estados Unidos chegaram a este ponto?

Talvez também precisemos perguntar:

Como nós, cristãos, caminharemos neste tempo?

Com medo ou com fé?

Com indiferença ou com compaixão?

Com egoísmo ou com generosidade?

Com arrogância ou com humildade?

Com submissão partidária ou com fidelidade bíblica?

Com confiança nos homens ou com dependência do Deus que governa soberanamente a história?

Os Estados Unidos continuarão caminhando.

A questão é se continuarão normalizando uma prosperidade que impressiona o mundo, mas não consegue trazer tranquilidade à mesa, segurança aos idosos, dignidade às famílias e tratamento justo ao estrangeiro.

Quanto à igreja, ela não pode caminhar segundo o espírito deste século.

Deve caminhar nas pegadas de Cristo.

Falando a verdade, mas sem arrogância.

Exercendo discernimento, mas sem parcialidade.

Reconhecendo o bem, mas rejeitando o mal.

Praticando a justiça.

Amando a misericórdia.

Defendendo o vulnerável.

Honrando o idoso.

Acolhendo o estrangeiro.

Repartindo o pão.

E esperando o Reino inabalável daquele que fará novas todas as coisas.

Soli Deo Gloria!

✍️ Pr. Jorge R. Lisboa ©2026


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