Artigo 2 — Servo, não
salvador: a missão e os limites do governo
Textos-base:
Gênesis 9.5–6; Romanos 13.1–7; 1Pedro 2.13–17; 1Timóteo 2.1–4
O que devemos esperar do governo?
A resposta bíblica exige equilíbrio. Se
esperarmos pouco demais, poderemos tratar a injustiça com indiferença. Se
esperarmos demais, transformaremos o Estado em um falso messias.
Romanos 13 chama a autoridade civil de
“ministro de Deus”. A palavra é importante. O governante não é senhor absoluto.
É servo. Sua autoridade foi recebida e sua responsabilidade foi definida por
Deus.
Promover o bem e restringir o mal
Paulo afirma que a autoridade existe para o
bem e que não traz a espada sem motivo. O governo deve preservar uma ordem
pública na qual a vida comum seja possível. Deve proteger o inocente,
restringir o agressor e administrar a justiça com imparcialidade.
Podemos, portanto, esperar que o governo:
·
proteja a vida;
·
puna crimes de maneira justa;
·
preserve a ordem pública;
·
proteja os fracos contra a
opressão;
·
respeite a liberdade de
consciência;
·
trate as pessoas com
imparcialidade diante da lei;
·
use os recursos públicos com
responsabilidade.
Essas expectativas não dependem de imaginar
uma sociedade sem pecado. Pelo contrário. Precisamos de autoridades civis
justamente porque vivemos em um mundo caído.
A lei não transforma o coração, mas pode
conter certas manifestações da maldade. Um tribunal não produz santidade, mas
pode condenar um crime. A polícia não regenera o pecador, mas pode proteger uma
vítima. Uma boa política pública não cria o Reino de Deus, mas pode servir ao
bem real do próximo.
O governo não recebeu todas as tarefas
O Estado não é a única autoridade
estabelecida por Deus.
A família possui responsabilidades
próprias. A igreja possui uma missão própria. O governo civil também possui
limites. Quando uma dessas esferas tenta dominar as demais, surgem abusos.
O governo não recebeu as chaves do Reino.
Não lhe cabe definir o evangelho, administrar os sacramentos, escolher os
oficiais da igreja ou governar a consciência dos crentes. Também não pode
substituir os pais em tudo nem tratar as famílias como concessões do Estado.
A Confissão Batista de Londres de 1689
reconhece o magistrado civil como ordenado por Deus para sua glória e para o
bem público. Ao mesmo tempo, preserva a liberdade de consciência e a ordem da
igreja.
Essa distinção é necessária.
Quando o Estado tenta ser igreja, torna-se
opressor.
Quando a igreja tenta ser partido,
enfraquece sua missão.
Quando a família abandona suas
responsabilidades esperando que o governo faça tudo, a sociedade se torna mais
dependente e frágil.
Boas leis não criam um novo coração
Podemos aprovar leis sábias e ainda
continuar cercados por pecadores. Isso porque o problema humano é mais profundo
do que uma estrutura defeituosa.
O pecado procede do coração.
O Estado pode proibir o homicídio, mas não
consegue remover o ódio. Pode punir a fraude, mas não cura a cobiça. Pode
proteger juridicamente o casamento, mas não produz amor sacrificial dentro de
casa.
Somente o Espírito Santo concede novo
nascimento. Somente o sangue de Cristo remove a culpa. Somente o evangelho
reconcilia pecadores com Deus.
Isso não torna a justiça civil
desnecessária. Apenas coloca cada coisa em seu devido lugar.
Expectativas sóbrias
Devemos cobrar dos governantes aquilo que
pertence à sua vocação. Devemos resistir quando ultrapassam seus limites. E não
devemos exigir deles aquilo que somente Cristo pode fazer.
Eu preciso me lembrar disso quando uma
proposta política parece prometer a solução final. Nenhum programa humano
consegue eliminar a queda. Nenhuma administração conseguirá construir novos
céus e nova terra.
O governo é importante.
Mas é um servo, não um salvador.
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